F E L I Z N O V A D I E T A | juliolemos.com | kostenlose hipster philologie

Razão e sensibilidade

“Só encontra o sentido, esse vizinho inatingível”, disse ela, “quem enfrentou a sua ausência de modo prolongado”.

Culturas antigas — pensem nos ameríndios, ou não pensem — proveram rituais, rotinas, costumes; eram ‘habitualidades de sentido’ cristalizadas em formas sociais, no sentido mais radical do termo. A figura do líder tinha sempre a grave tarefa de não mexer com o fundo das coisas, mantendo implícita a sua absoluta ausência de questionamento (sejam quais forem as doutrinas em voga sobre os tabus). É um dever moral, um escudo contra a dissolução, a decadência, a corrupção. Esse mesmo personagem transmitia, com segurança, o mencionado senso de dever aos mais jovens. Assim o sentido entrava na tradição.

As sociedades pós-industriais (com o perdão do termo) continuam insistindo na mesma idéia; a tarefa, contudo, se tornou muito mais árdua: o trabalho, os ciclos institucionais, as superstições dificilmente dão conta de dar a cada um a sua parcela de sentido. Basta conhecer o Japão; é entrar numa universidade, formar-se, entrar numa empresa, casar-se, ter filhos e envelhecer. E depois? E depois? Qualquer um que questione esse ciclo radicalmente acaba por se isolar: “não quero entrar nesse barco furado no qual meus pais entraram”, dizia um estudante anônimo. E então jogar videogames e receber o sushi por debaixo da porta. O entretenimento é aí encarado como atitude de contestação, embora se saiba que a infelicidade da diversão eterna é maior do que a produzida pelas rotinas socialmente fixadas. O entretenimento se torna então o centro para o qual tudo converge, fonte inextinguível de tédio e desejos não atendidos. Moda, música, jogos, sexo fácil, comportamentos de massa — incluso o sentir-se parte da minoria da minoria e lograr entrar para o menor rebanho do universo – fringe religions, compras, fusões, incorporações, joint ventures.

A gente ama tanto que precisa ir fazer compras. A ausência da vírgula é proposital (find the missing coma! it’s a game!).

Escrito por julio lemos, postado em 1 de fevereiro de 2010 às 9:42, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Sidarta

A FACHADA de um solar habitado por um homem solitário parece, de longe, um palácio; quando vem o verão, um charco fundido ao terreno desigual; de perto, um simples solar. Olha e contempla: o homem já não se pertence a si mesmo. Existe juntamente com a sua casa, respira sobre as suas páginas como se estivesse morto e, se por um momento suspendêssemos o movimento dos pulmões, perceberíamos que ele mais finge do que diz a verdade (fenece!). Algumas lagartas comem as Hexenpflanzen e Hexenkräuter que, por engano terrível, se fixaram aos muros ao redor do solar. Nem tu nem eu podemos fazer nada.

O homem está imperturbável, perdido em não se sabe que de doutrinas quixotescas, que de ressentimentos, que de triunfos. O homem leu o suficiente para escrever com elegância; mas nada deita ao papel. Imbuído da ciência da epigrafia, nada decifra, nada esculpe, v. i. Crê-se um deus malogrado, um demiurgo impotente, mas um deus, um demiurgo (já diluíste, numa só, a natureza de ambos?).

A fábula termina quando três personagens de Dante, o leopardo, a loba e o pingüim por fim logram passar pela estreita porta de entrada (sempre aberta, mesmo de longe). A fábula termina quando o homem, aborrecido, exclama:

– Nada sei de alegorias. Fait accompli.

Escrito por julio lemos, postado em 22 de janeiro de 2010 às 17:20, arquivado em Caolhices e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Nurses gone to their graves

Merry Christmas, fellas.

Venho decorando poemas de W. H. Auden há três dias, embora com pouco sucesso. De qualquer modo, é uma das minhas atividades favoritas para as férias. Experimentem.

* * *

O Universo está cheio de seres que pensam que o desprezo ou a distância é caminho para a conquista dos outros homens. Vemo-los morrendo uma vez mais numa infelicidade vazia, num glamour de nada; como esse gosto que fica após uma ceia de Natal onde as coisas se invertem ou quando a comida toma o lugar das pessoas. O homem foi feito para amar inteiramente e não para morrer (isso aprendemos com a música de Frank Sinatra); a ironia tem o seu lugar respeitável, a sua sedução irrenunciável, mas não tem lugar no fundo das coisas. Ain’t that right, Mr. Horace Lemos?

Sísifo foi um esnobe. Não dos bons esnobes, que vez ou outra conhecemos quando o vinho resolve vir em quantidades aceitáveis. Empurrou a sua pedra e não houve abismo que o consolasse. A morte viria a calhar. Mas nem ela veio.

O que há de mais frio no lugar das coisas do homem está retratado em Dante. O inferno é – há-de ser – gelado. E não há como impedir que as coisas sejam como são.

This is no sad note for those who can read and understand.

Escrito por julio lemos, postado em 25 de dezembro de 2009 às 18:39, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Burocracia

Insônia: não tenho. O que existe é a vontade de fazer muitas coisas e não perder tempo dormindo.

Eros & Hypnos, Cadmo & Terpsícore, Dionysios & Belle & Sebastian. Apolo foi inscrever-se no SENAC e djá volta.

Bitte hör mal: könnten wir nur einfach doch zusammen sein, so wie unser Udo damals gesungen hat? Was für eine Familie möchtest Du? Tägliche Unterhalten, soziale Vorlesung, bürgerliches ‘confort’ – die Arbeit der herzlichen Leuten, sozusagen -, ich bilde mir ein. Und was noch? Stell dir vor, Beliebte Du: die Unvorstellbarkeit von Erkenntnissen, die im Denken streng nachgewiesen werden können…

* * *

Anything with ‘clusters’ would do. Lonely and flat, curly with Jams Whatsoever. Hail old maids that come straight chez toi to do the cleaning, them. Put into ashes: the glory exhaled from Sunday mornings – for I said Susan Sarandon would do. Shall we go to the movies? Shall we use our trousers to the bottom roll’d? Is it well-forged, is it fashion’d like Blues after whimsicale afternoon tea? From China, afternoon tea I say? Them Victorian junkies, them. They come for Burroughs and exeunt with Goethe’s gesammte Werke.

Learn from Horace Lemos: violer d’Amores, sub umbra captivus quandoque inimici in limine stant: sta berber, juvate, Lases, castos amores memento, Lases ante saecula nati. Vaticana circa 1987, egomet Vergilius ebrius in saltibus Kelinae, virago sicut Dido, speculum mortis, satis.

A mesure qu’on a plus d’esprit, on trouve qu’il y a plus d’hommes originaux. Les gens du commun ne trouvent pas de différence entre les hommes, sagte Pascal. Carimbo e tomo notas.

Escrito por julio lemos, postado em 17 de dezembro de 2009 às 7:40, arquivado em Caolhices e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Aeon Flux

Os velhos tempos. Conversa para boi. Dormir fora de casa é picaretagem. Dizia um amigo na última quinta-feira: “união estável é coisa de maloqueiro”. Alguns dos que estavam na sala ouviram: era uma declaração cheia de prudência, com aquele ódio escondido às pessoas que usam óculos de eletricista, Ecumênicos Anônimos, nanopilantras, Fundadores de Bandas Obscuras Que Não Saem na Rolling Stones, hackers de Pense-Bem, etc. Aquele cartaz tipograficamente perfeito que um alemão colou em todas as portas das bibliotecas da Universidade de Munique: G E F U N D E N / F O U N D. Uma câmera fotográfica e um handy dos bons valendo mais de 1000 euros. Procurava o dono para devolver – prometia ir até a casa do sujeito entregar os objetos perdidos, como se fosse um office boy leitor de eremitas do deserto. Bastava que o dono saísse da sua letargia e ligasse no celular do cara. União estável – esse ersatz suicida do amor. Defendo o amor como quem morre de. “Não, por favor, tire esse Fritz Schulz da minha frente”. No prefácio ao seu “Classical Roman Law”, essa obra máxima do estilo, hino ao bem-escrever – uma ofensa à retórica dos juristas-advogados -, Schulz pisa na bola ao ver no divórcio romano um ideal moderno. Os romanos odiavam o divórcio – foram os amigos do Petrônio, aqueles helênicos filo-egípcios, os poetas do contubérnio, os responsáveis por essa bagunça.

Os heróis do vazio já estavam lá.

Escrito por julio lemos, postado em 17 de outubro de 2009 às 23:00, arquivado em Caolhices e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.