A FACHADA de um solar habitado por um homem solitário parece, de longe, um palácio; quando vem o verão, um charco fundido ao terreno desigual; de perto, um simples solar. Olha e contempla: o homem já não se pertence a si mesmo. Existe juntamente com a sua casa, respira sobre as suas páginas como se estivesse morto e, se por um momento suspendêssemos o movimento dos pulmões, perceberíamos que ele mais finge do que diz a verdade (fenece!). Algumas lagartas comem as Hexenpflanzen e Hexenkräuter que, por engano terrível, se fixaram aos muros ao redor do solar. Nem tu nem eu podemos fazer nada.
O homem está imperturbável, perdido em não se sabe que de doutrinas quixotescas, que de ressentimentos, que de triunfos. O homem leu o suficiente para escrever com elegância; mas nada deita ao papel. Imbuído da ciência da epigrafia, nada decifra, nada esculpe, v. i. Crê-se um deus malogrado, um demiurgo impotente, mas um deus, um demiurgo (já diluíste, numa só, a natureza de ambos?).
A fábula termina quando três personagens de Dante, o leopardo, a loba e o pingüim por fim logram passar pela estreita porta de entrada (sempre aberta, mesmo de longe). A fábula termina quando o homem, aborrecido, exclama:
– Nada sei de alegorias. Fait accompli.
Escrito por , postado em 22 de janeiro de 2010 às 17:20, arquivado em Caolhices e com as tags vazio. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.