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La storia vicina e lontana

Imagino o que se passará nessa parte do mundo, M., onde os astros são negros e as pessoas altas e magras. Tudo parece sem mácula, posto que obscuro.

Foi o que disse Marco Polo: “Arrivederci, Roma”, como na canção, entre uma cerimônia de chá verde e um uísque escocês para encerrar a noite melancólica. O Porto nunca vai pela direita (sim, trata-se do dito inglês inserido na disciplina ‘etiqueta & boas maneiras’); mas foi assim que conheci um daqueles habitantes magros, horizontais, da outra parte do mundo — caucasianos dados ao luar e à conversação à meia-voz. “Venha mais para cá”, disse um deles, “o rio está baixo como o Tâmisa, isso acontece quando os turistas vão embora”. Demos-lhe uma chance e ouvimos pacientemente. O chá terminou e o habitante exclamou: “Compro a sua escrava por dez mil sestércios”. Rejeitamos a oferta. “Vinte mil”, 15, 19, 16, 19, 17, 19, 18, 18 (a alternância dos números representa o histórico pouco matemático da barganha oriental, aquela das ofensas imperdoáveis: Unter einer ‚Menge‘ verstehen wir jede Zusammenfassungvon bestimmten wohlunterschiedenen Objektenunserer Anschauung oder unseres Denkens (welche die ‚Elemente‘ vongenannt werden) zu einem Ganzen, na clássica definição de Georg Cantor).

T’invidio turista che arrivi / T’imbevi de fori e de scavi. Observar um turista constitui ação análoga a contemplar os olhos de quem se ama, de quem /cruel/ se ama (ela pensa: “pobrezinho do turista, pronto a ser decepcionado”). Insistimos na nossa estranheza, no nosso mistério: julgamo-nos mais entendidos, mais reconhecedores do singular que há nela do que a própria pessoa. Ela persiste no seu ceticismo, mas isso não nos faz renunciar.

No país estranho, tudo é mistério, a começar pela altura nauseante dos prédios e das pessoas. Depois elas se tornam baixas e amáveis, mas o caminho até lá é demasiado longo. Dura o encanto mais do que gostaríamos de admitir; com S. Tomás, o princípio da filosofia é a admiração. Mas quando algo é realmente descoberto; quando para nós se torna passado o pós-cópula da análise, da decomposição e do granular lógico; aí a surpresa ganha ares e substância de surpresa diante do esperado.

O MISTÉRIO SE RAMIFICA, M. É o que temos a declarar enquanto aguardamos o visto permanente.

Escrito por julio lemos, postado em 10 de fevereiro de 2010 às 19:23, arquivado em Caolhices e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Não o maldito Nabokov

Love her, love her not. A escrita é muito instável, anárquica como os travellings (os movimentos de câmera, teoricamente sobre charriots) para frente do Hitchcock — sim, mais um paradoxo chestertoniano, como o das mulheres ocuparem-se mais de coisas que de pessoas.

E afirmativamente, só conheço as mulheres pelos livros. Com exceção de Austen, não costumam me agradar quando escrevem. Mas isso não é misogenia; eu sou feminista. É que muitas sucumbem ao mulherzinha, foi mal. Adoro vcs. Abração.

Amores podem cruzar contas bancárias: nomes de titular, somas viajando e voltando de viagem, debêntures, comissão de permanência, plano Collor, heterodoxia, Bresser Pereira.

Dê um soquinho amável no ar verde de São Paulo e diga “campeão”. –

* * *

Em “The Heiress” (1949), o realizador caprichou. Não tinha notado esse processo conscientemente quando vi o filme, sonolento, sabe-se lá quando. Quando a noiva é abandonada, a câmera faz um plongé (tomada panorâmica de cima para baixo) a fim de mostrá-la abatida, em crise, impotente. Quando o noivo volta atrás e ela diz NOT, crescendo em moral, ele usa um contra-plongé (processo inverso, de baixo para cima, posição alguns graus acima do nível do solo) com o INTUITO, o DESIDERATO, bastante bem logrado, de mostrar que a moça agora está por cima. A experiência é inesquecível. Salve salve.

Esses caras sempre dão mau exemplo. O cinema corrompe a juventude. Ah poxa, dá uma chance pro cara. Se você fosse a única classic lolita do universo.

Escrito por julio lemos, postado em 11 de janeiro de 2010 às 10:25, arquivado em Caolhices e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Aeon Flux

Os velhos tempos. Conversa para boi. Dormir fora de casa é picaretagem. Dizia um amigo na última quinta-feira: “união estável é coisa de maloqueiro”. Alguns dos que estavam na sala ouviram: era uma declaração cheia de prudência, com aquele ódio escondido às pessoas que usam óculos de eletricista, Ecumênicos Anônimos, nanopilantras, Fundadores de Bandas Obscuras Que Não Saem na Rolling Stones, hackers de Pense-Bem, etc. Aquele cartaz tipograficamente perfeito que um alemão colou em todas as portas das bibliotecas da Universidade de Munique: G E F U N D E N / F O U N D. Uma câmera fotográfica e um handy dos bons valendo mais de 1000 euros. Procurava o dono para devolver – prometia ir até a casa do sujeito entregar os objetos perdidos, como se fosse um office boy leitor de eremitas do deserto. Bastava que o dono saísse da sua letargia e ligasse no celular do cara. União estável – esse ersatz suicida do amor. Defendo o amor como quem morre de. “Não, por favor, tire esse Fritz Schulz da minha frente”. No prefácio ao seu “Classical Roman Law”, essa obra máxima do estilo, hino ao bem-escrever – uma ofensa à retórica dos juristas-advogados -, Schulz pisa na bola ao ver no divórcio romano um ideal moderno. Os romanos odiavam o divórcio – foram os amigos do Petrônio, aqueles helênicos filo-egípcios, os poetas do contubérnio, os responsáveis por essa bagunça.

Os heróis do vazio já estavam lá.

Escrito por julio lemos, postado em 17 de outubro de 2009 às 23:00, arquivado em Caolhices e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.