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Uma árvore havia caído na Rua Helena, na Vila Olympia, reduto de douchebags responsáveis e trabalhadores. Pela manhã, a queda da árvore provocou o fechamento da rua inteira -e uma hora de atraso para quem quer que trabalhasse nos endereços contíguos. Pela tarde, como tivesse a árvore caído sobre os fios de alta tensão, interrompeu-se abruptamente o fornecimento de energia elétrica para a região a fim de que a grotesca angiosperma eudicotiledônea fosse desmembrada e arrancada pela raiz.

Sem luz o escritório, a rede caiu, as luzes se apagaram, os computadores ficaram negros. Os gemidos da corrente elétrica transformada em fogo se fizeram ouvir, estrondosos.

(Dois anos antes, o objeto do nosso narrador em terceira pessoa -que ocorre de ser o próprio narrador em primeira pessoa obnubilado pela timidez- presenciara incidente semelhante no Sumaré. Acompanhado de um engenheiro elétrico, passaram mais de meia hora contemplando, como crianças, as bolas de fogo (CxHyOzNt + (x+y/4-z/2)[O2 + 3,76N2] → xCO2 + (y/2)H2O + (y/2)H2O + [t/2+3,76(x+y/4-z/2)]N2) geradas pelo atrito entre dois fios, em razão da queda de um galho considerável de anônima árvore do Parque da SABESP.)

Ao chegar em casa mais cedo, pôs-se a trabalhar.

Recebeu telefonema dela. Brinde da tarde. Tinha sonhado com um estranho dual do Thiago Lacerda, que era, todavia, naquele mundo onírico anti-aristotélico, o objeto amado com outro corpo, mas o mesmo nome romano, dominador, viril, penetrante. Desligaram.

Ela foi tomar café. Ele tomou um exemplar de Nelson Rodrigues (ed. comemorativa da Nova Fronteira, 2006) e sentou-se para, pela primeira vez, ler uma peça do dramaturgo. Pimba.

“Filho da mãe! Isso vicia, cacete”.

O objeto amado ainda comeu metade de uma barra de chocolate meio amargo. “Contém antioxidantes”. O que faz um antioxidante? “Não sou metal, porra”. Há décadas vinha tomando banho, visitando praias esporadicamente, expondo-se assim aos perigos do elemental da água -como, aliás, diria qualquer rapazote com quilometragem em D&D-, e nunca se preocupara com a ferrugem.

Tentou pinçar um poema de Sá de Miranda que dissesse o que a timidez o impedia de dizer. Mas sem sucesso. Querem saber? Há um poema do mesmo coimbrão solto pelos metrôs de São Paulo; o mesmo rapazote o fotografara dois anos atrás -se antes ou depois do incidente do galho, não há notícia mnemônica que permita afirmar.

(E ela, linda, dizendo à mãe que lhe mandei um beijo.)

Escrito por julio lemos, postado em 7 de outubro de 2011 às 18:33, arquivado em Contos e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.