Uma vez tocado pela verdade, prisioneiro dela. A tua vida define-se por ela — de uma vez por todas as vezes. Que sinais lhe transmite a Rádio? Possuíste um receptor no passado? As almas vêm e vão.
E então dizes: love her not.
* * *
Tauftauf thuartpeatrick, escreveu Joyce na primeira página. Tauf, do verbo taufen, batizar. O batismo introduz o nome do acólito em Patrick – aquele que trouxe Christo à Irlanda. E quando chega o dia, as pessoas bebem mais ainda; há novos batismos; as flores entram em sintonia com os homens, inundam-nos de verde e pretendem argumentar, talvez com sucesso, que a natureza é também sustentada pelo Ser. Aquele que não conhece, nem admite, despedidas.
Paulo Francis ainda tem saudades. Acendo mais um cigarro: o quarto do dia, o quarto do filho. Pelas almas do Facebook! Pergunte ao caolho, que cumprimentava as pessoas dizendo: você não sabe o que mais andou fazendo esta mão.
Hail a Horácio, que ficou apaixonado por três mulheres e não escolheu nenhuma. Pulou da barca; pediu ao barqueiro o óbulo que dera em estado de graça (repetição de indébito). É possível desertar da deserção: os desertos voltam e vêm, alimentam vazios e oferecem oásis, miragens, areia no rosto.
Não fora Goethe a dizer crìpticamente, aproveitando passagens obscuras da segunda parte do Fausto, digo ao povo que fico?
Escrito por , postado em 12 de janeiro de 2010 às 10:16, arquivado em Acaba com ele e com as tags criptogramas, sentimentalismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Ahm, ninguém lê blogs nessa época. Mas como já é quase dia 2/01, feliz ano novo e tal. Feliz aos que vivem, feliz aos que morrem. Feliz feliz pra vocês.
(Para se divertirem com colagens e citações muito bem escolhidas: Aulos de Euterpe, blog anexo da Fernanda Vaz).
Tive uns dias de festa um pouco estranhos, apesar de alegres (o ponto alto foi Super Mario World). Falta sempre alguma coisa; desta vez o essencial. Ainda vou ali pescar trutas (propósito de 2009), reler Steinbeck e terminar alguma coisa do Chesterton (volume XIV das obras completas) que comecei; terminar o livro que estou escrevendo, talvez só ano que vem; terminar a “busca pela resposta à pergunta”: é possível escrever um bom romance no séc. XXI? Resposta de um amigo: “para o Hades a cultura, o entorno, o povo brasileiro. Basta escrever um livro bom e pronto”. É a melhor até agora.
Incorporar o seguinte modus loquendi:
A: O show foi demais.
B: Né?
I be dog se esse negócio não é sensacional. I be dog. Terminei o Moviegoer do Walker Percy: chorei, morri. Aquilo é escrever um livro. E decepcionado com o velho Faulkner: quase joguei pela janela o Sanctuary junto com o marcador de página, que vale mais do que o romance.
Escrito por , postado em 1 de janeiro de 2010 às 22:13, arquivado em Geral e com as tags sentimentalismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Lembro-me de uma aula de alemão. Eram muitos estrangeiros: poloneses, gregos, italianos. O tema era a felicidade; sabe aquela coisa de soltar opiniões a esmo?
Uma polonesa inteligente citou Aristóteles; e aproveitei para desenvolver um pouco o que dizia o Ari. “Bem, disse uma italiana no estilo escolástico, podemos ver que são várias as opiniões a respeito da felicidade”. Como ninguém disse nada – todos pareciam concordar com ela -, resolvi jogar a farpa que qualquer retardado jogaria. “Há de fato muitas opiniões. É estatística. Mas a filosofia não serve justamente para julgar a validade das opiniões? Há opiniões boas e opiniões imbecis. Vamos discutir esse troço então”.
Vi que o pessoal não concordou – aquilo parecia ditatorial demais, embora fosse, pelo contrário, um convite ao diálogo -, mas que não tinha, todavia, nenhum argumento; estavam sem palavras. Como aquilo não era um ambiente propício, sorri e deixei barato.
Mas isso mostra uma coisa. A discussão mais séria sobre um assunto, ainda mais em se tratando de um tema prático como esse, é o único modo de submeter aquilo em que acreditamos ao teste da consistência. Não há outro modo. Afirmar sem mais que a felicidade consiste no sucesso não diz absolutamente nada. Será que essa opinião resiste a uma análise de 2 minutos? Não. Então é uma bosta de um argumento, e deve ser abandonado; mais importante, disso se segue que agir com base nele é pouco inteligente. Nossa vida está cheia dessas conversinhas. E, incrível, ninguém tem opinião, propriamente, sobre nada. Mesmo quando estudam filosofia, mal sabem conduzir a própria vida. O nome disso é fracasso. Não sabem o que estão fazendo aqui; portanto estão perdidos. Não adianta citar Heidegger ou o Tao ou Lair Ribeiro ou Aristóteles. Está na cara que a pessoa está perdida – e se não reconhece isso, está afundando a narrativa em que consiste a sua vida, uma narrativa escrita em chinês com a sintaxe hebraica. Reconhecer a perda do sentido (obviamente em sentido subjetivo) é começar a buscá-lo. E para buscar é preciso andar, mesmo mancando.
“Viver dói”, como diz um grafite que tem aparecido em São Paulo. Mas se vivemos bem, a dor na alma, a confusão, acaba se tornando suave. Só o corpo é que vai reclamar um pouco, no começo. Mas aí basta bancar o diplomata.
*
Já falei mil vez que o fato de a palavra ‘felicidade’ soar sempre piegas – eu sou o primeiro a concordar com isso – não dispensa ninguém de procurá-la. O hobgoblin mais sarcástico que você conhece está sempre agindo em busca desse fim. Ele gosta de carne crua e fubá. É um idiota. Mas ele gosta de certas coisas e age com base nesse gosto. Ele procura a felicidade, mesmo que solte um risinho pelo nariz (como eu mesmo faço. Prazer, sou um hobgoblin) cada vez que ouça essa palavra. Parte da educação mínima dirigida a essa raça de sarcásticos da qual faço parte é aprender a olhar as coisas mesmas, esquecendo um pouco a sua imagem distorcida e colocando entre parênteses o hiperbólico senso estético.
Outras palavras sinistras: Deus, amor, família. A lista é longa. Mas essas realidades não têm nada que ver com a imagem que o sentimentalismo lhes emprestou, como sempre trabalhando para o diabo.
Ignorá-las porque parecem adocicadas, datadas ou burras – porque com isso estamos nos referindo a “Deus!!”, “amor!!” e “família!!”, coisas verdadeiramente repulsivas e nauseantes – é ser um perfeito idiota.
Escrito por , postado em 23 de outubro de 2009 às 9:50, arquivado em Handlung e com as tags felicidade, sentimentalismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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