F E L I Z N O V A D I E T A | juliolemos.com | kostenlose hipster philologie

Wahrheitsfunktion

Atrás de um homem de notável erudição e agudo raciocínio está, afora a obscuridade prazenteira que o envolve, não o esforço mecânico por dedicar-se a matérias árduas, fugidios objetos de conhecimento, mas um insaciável interesse por todas as coisas. Como dizia o erudito francês Remi Brague numa palestra (Weidenau, 2009), o que está por trás da verdadeira idéia de Deus é o infinitamente interessante; e não precisamos passar daí à Teologia. Todo o Universo é interessante; se não vemos interesse nele, se não o queremos — delicadamente — esgotar, por inesgotável que seja (pois essa é, na verdade, a sua natureza), simplesmente não vivemos: desfazemo-nos do mistério como quem se desfaz da própria vida. E o faz quem se contenta com pouco — especialmente se se trata daqueles entre nós que possuem algum talento para a investigação, seja para as ciências do espírito (segundo o termo muito usado por Husserl e Dilthey, Geisteswissenschaften), seja para outras áreas, como as matemáticas.

A noção primordial de interesse, do lat. inter esse, já diz muito: cuida-se de um estar-nas-coisas, de fazê-las próprias e viver entre elas. Não conhecemos nada pelo qual não tenhamos interesse — o que significa que não podemos dizer nada sobre algo se não o visitamos ‘fisicamente’. Para conhecer uma pessoa é necessário uma espécie de Umgang-Begegnung contextual, “trato”, convivência. E é por essa razão que Platão diz numa de suas cartas que a verdade filosófica vem através do “comércio” com os homens que estão em algum contato com ela — daí a insistência platônica numa pólis bem constituída, cujo núcleo autoritativo seria a procura pela verdade (malgrado as implicações políticas que um “rei-filósofo” traz consigo). A palavra interesse, que designa, nesse sentido primordial, uma atividade de valor objetivo, tem sido substituída pela “motivação”: seria necessário encontrar algo pelo qual subjetivamente nos interessemos. É uma meia-verdade. Porque não é a motivação que dá valor ao objeto; é antes o objeto que dá valor — objetivo — ao interesse.

Por isso não vale a pena interessar-se por certas coisas: é preciso descobrir algo realmente interessante com que se ocupar. A tradição já fez o trabalho por nós: realmente interessantes são as artes, as ciências, a filosofia, a religião. São matérias que custam ao intelecto. E quanto mais custam, mais remuneram e por mais tempo duram, mais indestrutíveis são pela sua aderência ao intelecto que por elas é treinado e afinado. E porque a inteligência foi, de certo modo, feita para elas, pode-se afirmar com segurança que seu interesse, sua ‘capacidade’ (ou potência) de nos trazer para dentro delas, está associado à felicidade.

Escrito por julio lemos, postado em 13 de abril de 2010 às 23:35, arquivado em Filosofia e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Razão e sensibilidade

“Só encontra o sentido, esse vizinho inatingível”, disse ela, “quem enfrentou a sua ausência de modo prolongado”.

Culturas antigas — pensem nos ameríndios, ou não pensem — proveram rituais, rotinas, costumes; eram ‘habitualidades de sentido’ cristalizadas em formas sociais, no sentido mais radical do termo. A figura do líder tinha sempre a grave tarefa de não mexer com o fundo das coisas, mantendo implícita a sua absoluta ausência de questionamento (sejam quais forem as doutrinas em voga sobre os tabus). É um dever moral, um escudo contra a dissolução, a decadência, a corrupção. Esse mesmo personagem transmitia, com segurança, o mencionado senso de dever aos mais jovens. Assim o sentido entrava na tradição.

As sociedades pós-industriais (com o perdão do termo) continuam insistindo na mesma idéia; a tarefa, contudo, se tornou muito mais árdua: o trabalho, os ciclos institucionais, as superstições dificilmente dão conta de dar a cada um a sua parcela de sentido. Basta conhecer o Japão; é entrar numa universidade, formar-se, entrar numa empresa, casar-se, ter filhos e envelhecer. E depois? E depois? Qualquer um que questione esse ciclo radicalmente acaba por se isolar: “não quero entrar nesse barco furado no qual meus pais entraram”, dizia um estudante anônimo. E então jogar videogames e receber o sushi por debaixo da porta. O entretenimento é aí encarado como atitude de contestação, embora se saiba que a infelicidade da diversão eterna é maior do que a produzida pelas rotinas socialmente fixadas. O entretenimento se torna então o centro para o qual tudo converge, fonte inextinguível de tédio e desejos não atendidos. Moda, música, jogos, sexo fácil, comportamentos de massa — incluso o sentir-se parte da minoria da minoria e lograr entrar para o menor rebanho do universo – fringe religions, compras, fusões, incorporações, joint ventures.

A gente ama tanto que precisa ir fazer compras. A ausência da vírgula é proposital (find the missing coma! it’s a game!).

Escrito por julio lemos, postado em 1 de fevereiro de 2010 às 9:42, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Nurses gone to their graves

Merry Christmas, fellas.

Venho decorando poemas de W. H. Auden há três dias, embora com pouco sucesso. De qualquer modo, é uma das minhas atividades favoritas para as férias. Experimentem.

* * *

O Universo está cheio de seres que pensam que o desprezo ou a distância é caminho para a conquista dos outros homens. Vemo-los morrendo uma vez mais numa infelicidade vazia, num glamour de nada; como esse gosto que fica após uma ceia de Natal onde as coisas se invertem ou quando a comida toma o lugar das pessoas. O homem foi feito para amar inteiramente e não para morrer (isso aprendemos com a música de Frank Sinatra); a ironia tem o seu lugar respeitável, a sua sedução irrenunciável, mas não tem lugar no fundo das coisas. Ain’t that right, Mr. Horace Lemos?

Sísifo foi um esnobe. Não dos bons esnobes, que vez ou outra conhecemos quando o vinho resolve vir em quantidades aceitáveis. Empurrou a sua pedra e não houve abismo que o consolasse. A morte viria a calhar. Mas nem ela veio.

O que há de mais frio no lugar das coisas do homem está retratado em Dante. O inferno é – há-de ser – gelado. E não há como impedir que as coisas sejam como são.

This is no sad note for those who can read and understand.

Escrito por julio lemos, postado em 25 de dezembro de 2009 às 18:39, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Phare

I.

Se o embaraço nos permite sejamos

passo a passo tudo o que podemos ser

(our hearts beating as one)

então coroemo-nos de rosas.

E bastará que os erros repetidos

se tornem verdades reiteradas.

II.

Tanto caiu a luz sobre mim

que dei àquela que não podia ser

senão uma metafísica de desencontros

o que Augusto Frederico deu a Luciana:

todo o singular, todo o cadente,

todo o amor de quem não se repete.

* * *

Escrito por julio lemos, postado em 8 de dezembro de 2009 às 8:49, arquivado em Literatura e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Des choses révélées

Falando em bandas simpáticas, aí está Bat for Lashes – pouco conhecida no Brasil e deveras reconhecida na Europa, especialmente na Inglaterra e na Alemanha. Trata-se de um projeto da cantora inglesa e de raízes paquistanesas Natasha Khan – uma bacharel em Música e Artes que toca piano, harpa e outras coisas esquisitas e foi influenciada por Nirvana e Steve Reich… Conheci-a ouvindo “Daniel”, do álbum Two Suns, lançado em março de 2009, quando essa música começou a ser transmitida obsessivamente por uma DJ de uma rádio de Munique; há tempos não exclamava aquele “opa, isso é bom”. É verdade que ela não canta bem: não tem potência e faz uso quase que desesperador de falsetes (como em “Moon and Moon”); mas os produtores e artistas que a auxiliam fazem um bom trabalho no background – a mistura do gótico dos 80s com alguma coisa paquistanesa é de fato curioso. Vale a pena conferir.

* * *

É difícil dizer para onde caminha a Moda e a Arte nesse final de década (sim, estamos no final da primeira década do séc. XXI, para quem ainda não percebeu). Algo que já passou, mas que na prática tem sido repetido over and over again é o chamado pastiche. Nos anos 80, com a onda efetiva que depois se costumou chamar pós-moderna, o trend teórico era abusar do retrô e de uma espécie de trompe l’oeil – imitar certos estilos enterrados pelo tempo ou aplicar a eles a técnica da bricolagem/colagem, como nas obras de Robert Rauschenberg. Isso, por incrível que pareça, saiu de moda no campo teórico – os arquitetos que falam em “pós-moderno” hoje são velhos que pararam no tempo -, mas está em pleno vigor na prática. Uma prova disso é o talentoso cantor Rufus Wainheart, que ultimamente andou combinando de modo certeiro o New Romantic dos anos 80 com alguma coisa de Luís XV (!). Isso mostra que a teoria e a estética acadêmica são profecias auto-realizáveis, mas que sempre erram ao se esquecerem de que o homem é um bicho extremamente conservador. Mesmo que seja para conservar o que os estudantes de Artes dos anos 80 achavam que era o último grito anti-vanguardístico (o pós-modernismo é um inimigo da vanguarda, e, nesse sentido, reacionário), e aquilo que hoje é considerado datado e superado.

Se observamos com cuidado a trajetória de Gerhard Richter, talvez o maior artista plástico vivo (como já tinha dito, ao menos o mais caro), podemos chegar seguramente à conclusão de que a arte contemporânea – ou melhor dizendo, a arte da próxima década – tende à sobriedade, ao domínio da técnica e, best but not beast, ao amor pelo conteúdo e pelo sentido (!). Sem uma busca pelo sentido, a arte deixa de ser arte – e parecemos estar percebendo o que isso significa. E deste modo caímos no culto ao tédio e ao vazio – em resumo, no arbitrário, que é o oposto da arte.

* * *

Calling moon and moon
Shoot that big bad hand
It’ll drag me to your door
And I won’t see you no more

this is the beginning of forever

Escrito por julio lemos, postado em 30 de novembro de 2009 às 7:29, arquivado em Arte e com as tags , , , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

士夊歿

Uma coisa que ajuda: acorde numa hora determinada, tome o café, sente-se e programe o que vai fazer pela manhã. Depois faça como programado. Repita o procedimento depois do almoço.

Curiosamente, o sentido do dia é o sentido da vida.

*
Os antigos diziam que os antigos eram melhores. O presente é sempre uma decadência. Isso é uma mentira deslavada na qual se compraz e uma verdade flagrante que afastamos como quem afasta uma abelha.
*
Sim, dos seres que amamos basta-nos a existência. Se não amamos alguém, sua existência não basta: é necessário que satisfaça nossos desejos. (Escólio a Gomez Dávila).
*
Quando pergunto como é possível que as coisas saiam do nada e um físico me responde que isso é perfeitamente possível, e que aliás isso acontece o tempo todo, entendo a resposta como uma mudança de assunto. As coisas surgirem do nada absoluto constitui justamente um ‘milagre’; ora, os cientistas não acreditam em milagres, ao menos quando falam de física.
Acredito nos físicos quando dizem observar uma partícula surgindo out of nowhere. Acredito nos metafísicos – que têm tanta credibilidade no seu ramo quanto os cientistas no seu – quando dizem ser necessária a existência, para que o que não é passe a ser, de algo capaz de criar ou causar no sentido mais absoluto da palavra, comunicando o ser ao não-ser. Se um ser apareceu ‘do nada’, sou obrigado a pensar – sob pena de desistir do discurso racional e assim abolir a linguagem da ciência – que esse ser é apenas a transformação de, ou é causado por, outro ser que não era passível de observação (’invisível’, portanto). Ou então, se ele não era outro ou foi causado por outro, que veio do nada metafísico, absoluto; e que portanto algo que foge ao domínio da física lhe comunicou existência. Como a física se cala sobre a metafísica, apenas uma afirmação é possível: que esse ser que apareceu é resultado de outro que não podia ser observado (invisível ao menos segundo os instrumentos de que dispomos). E assim não estamos falando de coisas que surgem do nada absoluto – já que isso seria cair numa grave imprecisão -, mas de coisas que se tornam visíveis como resultado de uma transformação.

Escrito por julio lemos, postado em 13 de outubro de 2009 às 8:12, arquivado em Filosofia, Handlung e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.