O telefone — eis-me falando de coisas passadas & obscenas, no sentido Baudrillard da palavra — é outro dos mistérios da mudernidadhy. Pitágoras teria dito que o telefone nos descobriu, e não que foi descoberto [por nós, a.k.a gramáticos bizantinos]. Porque nossa reação diante dele é afetiva: odiamo-lo ou amamo-lo conforme a qualidade da voz que ele faz chegar aos nossos ouvidos. O conteúdo da mensagem contribui deveras para nossa apreciação: uma má notícia, como nos tempos áureos de Pérsia 2 x Grécia 1, dá-nos vontade de assassinar o embaixador (o telefone). Foi o que fez o pai de um amigo; uma chamada insistente na hora do almoço e o telefone do Bart Simpson espatifou-se. Fui o autor do crime telefônico, mas nenhuma palavra de censura me foi dirigida pelo genitor do amigo. Só morreu o embaixador.
Uma novela radiofônica de Orwell bastou para set things up for a non-existing conspiracy. Serão todas as conspirações, pelo fato de o serem, mentiras relacionais? Entes de razão que só fazem viajar de receptor a receptor (porque o emissor não existe ou sofreu nas mãos do General Failure), a colocar à disposição dos interlocutores o luxo de uma excitação prolongada? Por isso os autores inexistentes de conspirações são homens superficiais, mas poderosos. Eles sabem que a paranóia, mais do que resultado obscuro de uma ou outra enfermidade no catálogo das muléshtias mentais, constitui um traço característico de todas as kaliyugas da vida e de quase todas as pessoas. Com isso não quero dizer que alguma dose de paranóia não seja divertida, e até saudável para nós outros. Havia uma grande para-nóia na Guerra do Peloponeso. O próprio Heródoto não quis se esquivar dela; os sonhos premonitórios, personagens centrais da História, estão lá para demonstrar ao público que os gregos eram gente, tipo assim, cheia de mania de perseguição até o pescoço do Cavalo de Tróia do Bandido.
Os gramáticos bizantinos foram a aurora da decadência. E somos gente que, tipo assim, adora uma decadência, a começar pela ausência de cuidado com a linguagem. Eu sou gente que, tipo assim, adora uma quedinha, desde que haja Glória & Glamour, e que esteja com o controle remoto na mão para mudar de idéia — caso os bárbaros resolvam entrar horizontal ou verticalmente na sala (citando MFS, que quase encontrou para o sindicato dos GHI ao morrer de pé; parte da biblioteca dele está no andar de baixo).
Façam a experiência. Não há guia mais prático para a mudernidadhy do que as tabelas de correspondência grego-latim dos bizantinos; e não há direito mais divertido do que o contido nas Basílicas (paráfrase ferradã do Digesto + muitos escólios). A filologia, dizia um amigo, é o conhecimento do conhecimento; e como tudo já foi mesmo desenterrado, basta comentar. E comentar com graça, donaire e sacanagem, que é pra não estragar o velório.
Só é possível compreender o Submundo de todas as coisas subindo até o alto — pelo que me consta, só quem não é gnóstico pode fazê-lo com autoridade. Por isso são poucos, e felizes, os integrantes dessa elite “agnóstica” (sentido impróprio; vai ver se eu tou na esquina, brother). Fazer parte dela é garantia de que sempre sairemos na frente num debate com as pessoas espertas.
Habitar muitos mundos, seletivamente. Salvo-conduto em todas as embaixadas, em todos os países.
A suprema rebeldia de ligar e desligar a ironia quando se queira — uma escolha que poucos estão aptos a fazer.
Escrito por , postado em 20 de janeiro de 2010 às 18:55, arquivado em Handlung e com as tags conspirações, sacanagem. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.