Horácio construíra para si notável reputação de obscuro. Mares digitais infeccionados, enceradeiras perfeitamente reparadas, instalação do Linux num porco gigantesco (a ponto do host não reclamar da dor; o sistema operacional, com efeito, não estendera seus tentáculos para além da Primeira Camada Adiposa), contatos esporádicos com chineses na Áustria bolchevique.
Horário casa-se com Clarice. Têm dois filhos; e mais três depois do carnaval. A vaga para escritor fica para a sobremesa.
Em que cousas estás a te transformar?
Clarice tivera a última palavra: “Horário. Você é inesgotável. Vamos embora”.
Um arrepio percorre-lhe a espinha. Rach III.
O médico, húngaro que era, converte o português em outra língua de Baal:
“Desport gh malshuh, al’alarindek. Recesvindo”.
Era uma pergunta, mas Horácio julgou tratar-se — qual morsa em movimento — de uma afirmação.
Três anos de tumor e dois de samba.
Escrito por , postado em 13 de janeiro de 2010 às 15:21, arquivado em Caolhices e com as tags revolução francesa. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Um fanático, segundo Santayana, é quem redobra os seus esforços mesmo tendo esquecido o seu objetivo.
Eu sempre usei a seguinte definição: escolher um traço secundário do espectro humano e trata-lo como se fosse a última bolacha do pacote (especialmente se esse traço for uma prescrição religiosa absurda, como usar cabelos longos, turbantes ou ‘esmagar a Igreja católica’, como queria Voltaire. Os revolucionários do Terror são o melhor exemplo de fanatismo).
Não importa a definição que usemos. Um fanático será um fanático mesmo que afirme com veemência que não acredita em nada. Basta que fique obcecado com uma idéia sem conviver prudentemente com ela; por isso um fanático é também quem não se preocupa com a razoabilidade de uma concepção. Aliás, esse é o principal caso de fanatismo, porque todo fanático é explicita ou implicitamente um niilista. Não mudar de assunto, pregar incansavelmente, insensatamente, é uma maneira de provar que não estamos seguros daquilo que supomos ser “verdadeiro” (mesmo que o verdadeiro em questão seja o Nada): seja a superioridade de um time de futebol, seja a ciência, seja uma religião.
Como os céticos muito bem sabem, afirmações sobre as coisas são sempre coisas complicadas. Por isso tudo passa pelo credo – eu creio. A ciência tem errado e continuará errando; mesmo assim, é necessário crer no método, nos experimentos, nas teorias. Checamos quando alguém diz que a tinta está fresca, mas não podemos fazê-lo quando dizem que a Terra gira em torno do Sol. Se fôssemos checar tudo, estaríamos fritos; a começar pela impossibilidade do empreendimento.
Só não podemos crer em coisas absurdas – coisas que realmente não possuem condição de possibilidade de serem verdadeiras (como a inexistência de um mundo exterior ou o fato de que os rouxinóis falam em chinês quando ninguém está olhando). Todavia está em moda cobrir de incerteza o evidente e fundar seitas segundo algum princípio imaginativo, como a Cientologia. Tertuliano escrevia muito bem, mas foi demasiado hiperbólico ao dizer “credo quia absurdum”, creio porque é absurdo; tanto é assim que acabou por abraçar um fanatismo qualquer.
Um episódio pouco mencionado é o do Terror. Os revolucionários adoravam perseguir os ‘fanáticos’. A pergunta usada nos interrogatórios sumários era quase sempre: “Você é um fanático?”. Era uma pergunta retórica, pois o juiz nunca estava a fim de perder tempo com argumentos e razões; a pessoa já estava destinada à guilhotina e pronto. “Uma nova Revolução está a caminho”, dizia um representante de um clube jacobino em 28 de Brumário, “Nada de suavidade! Nada de indulgência! O Fanatismo deve ser mandado de volta ao Inferno de onde veio!” (cf. M. L. Kennedy, The Jocobin clubs in the French Revolution, p. 155).
Se isso não é fanatismo, meu nome é Robespierre.
Escrito por , postado em 21 de outubro de 2009 às 8:31, arquivado em Handlung e com as tags fanatismo, revolução francesa. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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