O que acontece com quem quer que tenha um eu ficcional -com quem seja autor em algum contexto- é que seus amigos, inimigos, conhecidos e até desconhecidos passam a trocar a sua vida pessoal pela sua vida ficcional. Porque, afinal, esta última é muito mais interessante.
Volta e meia (e isso significa a cada quatro ou cinco meses) encontro alguém que diz ler o que eu escrevo há x anos. Normalmente são jovens; mas também gente de meia idade e alguma vez um ancião. É natural que o sujeito -eu no caso, não digo se o eu ficcional ou o real- olhe para trás e depois torne a encarar o declarado leitor, dizendo: “Ahm, é comigo que você fala?”
Não sei se essas pessoas ficam decepcionadas. Não sei qual a porcentagem dos desapontados, dos aliviados e dos positivamente surpresos.
Um amigo gostava de andar com um calhamaço encadernado em espiral debaixo do braço, algo com suas 500 páginas, e procurar o autor x após uma palestra qualquer. (Pense em algo como uma lecture dada pelo Sr. Lôbo Antunes). Quando finalmente conseguia falar com o escritor, dizia-se um leitor atento da sua obra -repare no atento; é um ponto importante- e em seguida ’produzia’ o calhamaço, segurava-o com as duas mãos e dizia:
– O Sr. se disporia a ler o meu romance experimental?
O divertido de tudo isso, mano, dizia ele, era observar a reação do escritor. Ele fizera a experiência algumas vezes. A reação era sempre a mesma: pânico. Um deles conseguiu até fazer o celular tocar com o pensamento naquele exato momento entre a pronúncia de ‘experimental?’ e o ir-se embora do segundo imediatamente seguinte, dentro do exigido continuum temporal (na verdade indecomponível e Aquiles-tartaruguinável).
Depois de me lembrar dessa história, finjo me comover, finjo abrir um sorriso e finjo desejar, um dia, ser alvo de uma sacanagem desse tipo. (Não será o fingir, dentro de limites pessoanos, o modo mais autêntico de sentir?).
Isso será conseqüência de uma ausência de comoção com a normalidade. As pessoas habitualmente reagem de modo correto ao topar com coisas banais, como um formulário ou um prédio da Receita Federal. Um esteta, não. Ele buscará detalhes conspiratórios no formulário; ou a textura do papel o fará lembrar-se da orelha de alguém; pensará em retomar o romance que não escreveu sobre um auditor fiscal que tinha pacto com Astaroth (a idéia é minha, malditos, não pensem em fazer uso pessoal); a fachada do prédio tocará uma fuga nunca-antes-ouvida de Bach ou Telemann (sim, há precedentes e incluso inquéritos policiais).
Mas isso para declarar que tudo é ficcional. Só o autor conhece as relações entre o que é dito ficcionalmente e a sua vida pessoal. Se querem confundir tudo, confundam; encontrem relações ocultas; perguntem-me, assustados, “mas ei, você não era ateu?”; e depois se decepcionem à vontade. Se é que isso lhes interessa. A cautela manda-o dizer. (A mesma cautela que manda enforcar, com justiça, os mitômanos).
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Uma das funções mais belas da literatura é o fazer guerra. Desterrar, desmembrar, mandar ad metalla os rivais, mesmo os mais insuspeitos e involuntários entre eles. Sem um inimigo não há literatura; sem angústia, peso nas costas e tentativas de esganamento, a pobre não sobreviveria -não chegaria, aliás, a dar seus primeiros passos. (Quem diz “ensaiar os primeiros passos” é veado; já vou avisando).
O autor que escreve bem, que adequadamente articula, desterra o maior número possível de rivais. Daí a sensação de triunfo da ironia,* desde Dante e Cervantes; desde Ovídio; desde, melhor, acreditem, Hesíodo. Desterraram o cara do meio (Ovídio), e sua vingança desterrou em latim metade da sua província natal.
É óbvio que esse triunfo da ironia, no caso da literatura, tem um terminus a quo histórico. Creio, entretanto, que antes dele estava o fenômeno correspondente no terreno oral** -que deve ter conservado a existência com o aparecimento da novel forma escrita.
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É possível dar tratamento, digamos, estético a qualquer matéria. Confio, aliás, mais nos assuntos e objetos burocráticos, tediosos, computacionais (em sentido amplo) do que nos descartes, na sujeira e em tudo aquilo relacionado à transgressão -sempre conformista- cara aos escritores ditos-malditos.
Há mais beleza no imposto que incide sobre os restos de uma fábrica de papel (eu já escrevi um parecer à Southern Novelty Company sobre o assunto e, acreditem, foi inspirador) do que no próprio lixo. Disso estou certo.***
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* “Trinfo da Ironia” é, confirmo, uma alusão ao quadro entitulado ”Triunfo da Morte” de Breugel (1552; embora haja um, homônimo e judaizante, de Felix Nussbaum), possivelmente o primeiro que admirei na infância. E não, não sofro de nenhum distúrbio psiquiátrico. E não consta que Bruegel (o ‘h’ do nome foi abandonado polo esse mano folgado) fosse desequilibrado, tampouco.
** Em terrenos menos banais que o dos impropérios e imprecações.
*** Sim, Dr. Manoel de Barros. Estamos de olho.
Escrito por , postado em 17 de agosto de 2011 às 11:13, arquivado em Geral, Literatura e com as tags plus taxes. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.