F E L I Z N O V A D I E T A | juliolemos.com | kostenlose hipster philologie

Vintage Thanatology

A beleza — resisto-me a grafar “Beleza” em razão de latentes tendências antiplatônicas — poderia ser o nosso único assunto, Mr. Horace. Trata-se menos de um interesse que de uma declaração de princípios. Nossa fixação com o visual não nos impede de furar o umbral pela enésima vez: se o mais profundo é a pele (dizia Gauthier? Baudelaire? Em absoluto; Valéry), não estamos falando dos olhos: os olhos constituem apenas desculpa para uma avassaladora paixão por algo que está além do que podem ver.

Mas sim, a pele. Certa vez escrevemos um romance sobre a beleza das manchas (e mais imperfeições) sobre o tecido que se estende sobre o objeto de nossos amores. Era possível contempla-las sem descanso; era como que um princípio de morte, death by tenderness. Tipo de assunto que não se menciona, especialmente se o diálogo ocorre de ser precisamente com quem fora contemplado. E morte pela ternura é apenas um extremo do adágio “a beleza fere”. Não há porquês; a beleza fere, dissolve, implora pela fuga de tudo e de todos — uma pulsão que chega a ser irresistível, bela, pronta a cobrir-nos de heroísmo, posto que dolorosa.

Aquilo a que os escolásticos usam chamar pulchrum nada mais é que o aspecto atraente do bem, da excelência dos seres, do Ser. De todos os transcendentais, é o único que realmente nos capta a atenção — quod visum placet, aquilo que, visto, agrada. Agradar? Muito mais do que isso. Quanto maior a excelência, mais mortal; a esse aspecto chamamos Eros, entidade acrescida sabiamente de asas e um pouco de capricho. Não sem razão a tradição lhe deu uma arma poderosa (agrada-me, da minha parte, dar-lhe uma balestra de 180 libras).

* * *

– Miss, your imperfections are killing me, y’know?

– I beg your pardon?

– I mean, like, I’m lost.

– Come again?

– O gawd. You’re deaf. (I’m toasted!)

Escrito por julio lemos, postado em 23 de janeiro de 2010 às 10:00, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Mit klarem, metallenem Schlag

Sábado nos divertimos com a revolução de Platão sobre a filosofia pré-socrática: o problema das causas e das condições. Os ‘físicos’ antes de Sócrates pensavam que só existiam causas naturais, ‘extranoéticas’ para o movimento das coisas. Assim como a causa da destruição de uma pedra seria o choque desta contra outra, pensava-se também que as decisões humanas eram causadas pelo movimento dos músculos (ou, numa versão mais atual e igualmente equivocada, pelas conexões neurológicas).

Platão deu o golpe em Fed. 98c-99d. À pergunta “por que Sócrates está sentado neste local?”, o físico padrão responderia: “porque essa é a posição que seus músculos e ossos permitem que ele se mantenha sentado”. Ora, a tensão de músculos e ossos é apenas uma condição para o estar sentado, mas não a verdadeira causa; pois o motivo último de Sócrates estar sentado é que “os Atenienses acharam adequado condenar-me, e assim resolvi permanecer aqui e cumprir minha sentença”. E acrescenta, com sua ironia habitual: “estou inclinado a pensar que meus músculos e ossos teriam caído fora faz tempo em direção a Megara ou Beócia; pelo Cão, eles teriam mesmo dado no pé!”.

E aqui está a autonomia moral. Eu fico porque quero. Ter pernas para cair fora é apenas uma condição; mas o “ter pernas” não me obriga a sair. Se eu saio, é porque decidi sair. É uma noção, aliás, que usamos no dia-a-dia – uma transgressão nesse ponto implicaria um monte de problemas práticos, como o do professor de filosofia que, de dia é Maria, de noite é João (durante as aulas, é nietzscheano; na sua vida normal, comporta-se como o ‘most law-abiding citizen’).

E, bem, a revolução de Platão continua muitas vezes ignorada.

* * *

Uma dúvida que eu tinha era em que ordem tomar o café, a água com gás e comer o doce que vem nos cafés bacanas. Há pouco ela foi obliterada. Transmitiu-me um gajo que por sua vez o ouvira de alguém que trabalhou na área VIP do Fasano que, em primeiro lugar, se come o doce que acompanha o café; depois se toma toda a água que vem naquele copinho minúsculo, para tirar o gosto; depois, se toma todo o café. Genau! Era muito mais óbvio do que eu pensava.

* * *

Duvide das suas dúvidas.

* * *

Sinnegans Fake!

* * *

Stern Daughter of the voice of God!
O Duty! if that name thou love
Who art a light to guide, a rod
To check the erring, and reprove;
Thou who art victory and law
When empty errors overawe;
From vain temptations dost set free,
And calm’st the weary strife of frail humanity!

São versos de Wordsworth (Ode to Duty), que jogam um pouco de liberdade nesse nosso mar metálico de caprichos.

* * *

De fato o poeta inglês era alguém cujas palavras tinham valor – a décima piada do ano, lembrada por Pedro Cunha, words of worth. Ou então para os seus biógrafos, já que sua vida era wordsworth. Décima primeira.

* * *

Uma das coisas que mais me atrapalham é a chamada imaginação skatista. Quando dou por mim, estou representando mentalmente as manobras impossíveis de Rodney Mullen. Aquilo é arte, mas não consigo pensar em outra coisa. Quando era pequeno, passava uma viagem inteira de 600 km imaginando-me ao lado do carro dando kickflips, dark-side slides e outras coisas muito menos factíveis.

O skate foi, para mim, o mirandum metafísico.

Escrito por julio lemos, postado em 8 de novembro de 2009 às 20:59, arquivado em Caolhices, Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.