Arrependo-me às vezes de não ‘abordar’ (thumbs up gallicismos) pessoas que me parecem interessantes. E eis uma delas:
Sujeito pede um espresso macchiato que vem quase a derramar-se. Observo-o discretamente. Ele põe uma colher de açúcar e o café transborda. Então exclama, quase que só com os lábios, “Eureeeka!” com sotaque americano (embora fosse brasileiro). Amigo, me dê um abraço!
(Para quem não se lembra, a descoberta de Arquimedes foi assim: ao entrar na banheira, atormentado por um problema proposto por Hiero de Siracusa, seguindo uma recomendação da mulher, percebeu que a água ’subiu de nível’; eis a resposta para a questão da densidade, conexa com a da pureza do ouro da coroa do rei:
. E aqui a história em Vitr. De arch. 9, 10: posteaquam indicium est factum dempto auro tantundem argenti in id coronarium opus admixtum esse, indignatus Hiero se contemptum esse neque inveniens qua ratione id furtum deprehenderet, rogavit Archimeden uti insumeret sibi de eo cogitationem. tunc is cum haberet eius rei curam, casu venit in balineum ibique cum in solium descenderet, animadvertit quantum corporis sui in eo insideret tantum aquae extra solium effluere. idque cum eius rei rationem explicationis ostendisset, non est moratus sed exsiluit gaudio motus de solio et nudus vadens domum versus significabat clara voce invenisse quod quaereret. nam currens identidem graece clamabat eὕρηκα eὕρηκα).
O amigo vai-se embora para sempre. Odeio despedidas.
Escrito por , postado em 14 de março de 2010 às 12:53, arquivado em Handlung e com as tags paganismo, Εὕρηκα. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Insônia: não tenho. O que existe é a vontade de fazer muitas coisas e não perder tempo dormindo.
Eros & Hypnos, Cadmo & Terpsícore, Dionysios & Belle & Sebastian. Apolo foi inscrever-se no SENAC e djá volta.
Bitte hör mal: könnten wir nur einfach doch zusammen sein, so wie unser Udo damals gesungen hat? Was für eine Familie möchtest Du? Tägliche Unterhalten, soziale Vorlesung, bürgerliches ‘confort’ – die Arbeit der herzlichen Leuten, sozusagen -, ich bilde mir ein. Und was noch? Stell dir vor, Beliebte Du: die Unvorstellbarkeit von Erkenntnissen, die im Denken streng nachgewiesen werden können…
* * *
Anything with ‘clusters’ would do. Lonely and flat, curly with Jams Whatsoever. Hail old maids that come straight chez toi to do the cleaning, them. Put into ashes: the glory exhaled from Sunday mornings – for I said Susan Sarandon would do. Shall we go to the movies? Shall we use our trousers to the bottom roll’d? Is it well-forged, is it fashion’d like Blues after whimsicale afternoon tea? From China, afternoon tea I say? Them Victorian junkies, them. They come for Burroughs and exeunt with Goethe’s gesammte Werke.
Learn from Horace Lemos: violer d’Amores, sub umbra captivus quandoque inimici in limine stant: sta berber, juvate, Lases, castos amores memento, Lases ante saecula nati. Vaticana circa 1987, egomet Vergilius ebrius in saltibus Kelinae, virago sicut Dido, speculum mortis, satis.
A mesure qu’on a plus d’esprit, on trouve qu’il y a plus d’hommes originaux. Les gens du commun ne trouvent pas de différence entre les hommes, sagte Pascal. Carimbo e tomo notas.
Escrito por , postado em 17 de dezembro de 2009 às 7:40, arquivado em Caolhices e com as tags fragmentos, paganismo, vazio. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Relendo ‘A Handful of Dust’, de Waugh.
Um amigo meu ficou chocado com o cinismo desse Evelyn Waugh recém-convertido ao catolicismo – ele que tinha dito que tivera de escolher entre o cristianismo e o caos, acrescentando que “não é possível aceitar as vantagens da civilização sem dar crédito àquilo de sobrenatural que a fundou”. Pois bem, Waugh carregou no seu humor negro depois de abraçar a Cristo. Um paradoxo? O que se pode dizer, sem muita polêmica, é que sua congênita capacidade de enxergar as misérias do mundo foi apenas amplificada: como quem toca “Evil Has No Boundaries” do Slayer usando duas caixas estereofônicas (adoro esses termos da eletrônica do final dos anos 70) de 30 kg cada uma.
Já temos visto mais de um indivíduo derretendo-se diante de um i-phone (um dos grandes triunfos do cristianismo) e, ao mesmo tempo, curvando-se às superstições pagãs.
Às vezes é necessário conceder aos pagãos, que em muitos aspectos – naquilo que não interessa à moral do “veadinho contemporâneo” – têm sido jogados para escanteio. Voltemos um pouco ao paganismo. Vamos ceder, por exemplo, à sua maravilhosa ética sexual. Os romanos de raiz eram fanáticos pelo casamento, tolerando o divórcio como um recurso dos fracos; os filósofos e trágicos gregos abominavam qualquer excesso em matéria de castidade (porque faziam do homem uma besta), e nisto estavam apenas suavizando o espírito antigo, que apedrejava os adúlteros e presenteava os incontinentes com a execução sumária.
Êta mundo cretino.
Escrito por , postado em 16 de outubro de 2009 às 10:18, arquivado em Handlung, Literatura e com as tags civilização, cristianismo, Evelyn Waugh, i-phone, paganismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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