O tema “tipos de inteligência” não parece merecer um tratamento geral. Antes, pequenas e desconexas observações, Bemerkungen, que logrem mostrar problemas e modos de proceder.
Qualquer trabalho intelectual rigoroso exige foco, mesmo temporário — parte de um “nerdismo serial”, na expressão do talvez mais caro entre meus amigos –, e um colossal horror às escolas de pensamento ready-made. São dois tipos de inteligência diferentes, aparentemente contraditórios mas, de qualquer modo, complementares. Provavelmente você só tem uma delas; e por isso deveria trabalhar para, tanto quanto possível, adquirir a que não tem.
Sobre o foco: não é possível trabalhar sem um objetivo; ou melhor, sem estar completamente tomado por uma obsessão com determinado tema. (Isso fez de Wittgenstein um dos homens mais chatos a pisarem em Cambridge; mas também um dos mais geniais). O foco é resultado, ou mesmo causa, em certo sentido(1), de uma paixão. Pois a paixão é das coisas mais ‘objetivas’, mais ‘dirigidas’ que há (basta pensar no vocábulo inglês drive — surpresos?).
“Em tudo tem em vista o fim”, so says the saying. O fim dirige toda a ação, mesmo na hipótese de uma ‘ação intelectual’. Se não sabemos, em linhas gerais, para onde caminhamos, é impossível que surja a paixão adequada. Ponto.
O horror ao pensamento estereotipado. A grande diferença entre um trabalho de gênio e um medíocre está na presença ou ausência de uma inserção precisa numa categoria trivial. O trabalho do Círculo de Viena não é genial porque é, simplesmente, positivista (e por isso ridículo). O trabalho de Wittgenstein é genial porque, ao tentar caracterizá-lo, não conseguimos em nenhum momento emprestar-lhe um nome adequado, nem inseri-lo um sistema trivial: idealista, realista, o que seja. O gênio possui uma aproximação maior com o real — e o real é inclassificável, está além das categorias mentais e dos esquemas. O sistema não carece, por isso, de utilidade; sua desvantagem essencial é, no entanto, a de reduzir a realidade.
Mais de um wittgensteiniano tem ficado surpreso ao ouvi-lo falar de ética ou do Cristianismo como único caminho para a felicidade (sim, somos livres para discordar disso), ou ainda do casamento como “a sacred act”, um ato sagrado. Ou que “what is good is also divine”.
Alegremo-nos, portanto, ao deparar-nos com esse tipo de situação: a da súbita e desconsertante mudança intelectual. “Mas que diabos. Ele não quis assinar o manifesto. Ele inspirou todo o trabalho que resultou nele!” (2) Merece eterno louvor aquele que não assina manifestos; aquele que muda de assunto; aquele que ousa fazer piada com a filosofia quando todos estão sérios, levando-a rigorosamente a sério no dia seguinte, quando todos fazem chacota dela.
___ Notas
(1) Aliás, num sentido muito preciso. Não se pode desejar um bem que não existe — considerando o ‘existir’ como admitindo ‘parecer-existir’. Explico-me. O amor é um bem; é um bem tão-somente por envolver um objeto de desejo, um fim. Por tautológico que pareça, a idéia de bem não pode ser dissociada da finalidade. Um bem é um bem porque é um fim buscado. Se buscamos, é porque é um bem, mesmo que seja apenas aparente. Explico a tautologia: como no caso do ’ser’, não é possível definir ‘bem’ senão recorrendo a um elemento já presente na definição — trata-se, afinal, de um conceito fundamental, já dado. Sua evidência procede da evidência imediata, sem a qual não é possível começar a emitir juízos e formular sentenças (ou recorrer a proposições).
(2) Não me refiro apenas a manifestos altamente estúpidos, como o comunista. Refiro-me a qualquer manifesto.
Escrito por , postado em 8 de maio de 2010 às 17:39, arquivado em Filosofia e com as tags modo foda-se :). Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Tanto o ato nobre como o perverso são imprevisíveis; mas enquanto o primeiro torna o coração aberto, causando um bom choque, o segundo desintegra, com a sua surpresa cáustica, a personalidade do agente. O ato perverso nos coloca diante de duas pessoas: aquela que conhecemos e uma outra nova que surge com ele. A estranheza se deve justamente a isto: ao aparecimento de uma segunda ‘pessoa’, que é sempre teatral e artificial. E a decepção diante desse quadro se expressa com palavras de bandinha indie: “You could do so much better than this”.
Quem ainda não percebeu que a maldade é puro teatro ainda não leu Shakespeare.
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Este blog abriu seu primeiro post com “Auf Achse” do Franz Ferdinand.
Fui ao show deles em Brasília no último domingo — por coincidência, ele começou precisamente com essa música, a minha favorita. Não havia muita gente: a parte de dentro do Marina Hall, em frente ao palco, estava só 50% ocupada (o público foi calculado em mais ou menos 5.000 pessoas); a música sempre dançante, com aquele público semi-indie que não sabe dançar. Mas creio que Alex “Tem Namorada” Sopranos e sua gangue tenham gostado de tocar para nosotros. Fecharam com um trance improvisado de longa duração — essa foi ao menos a minha impressão — e com o clássico “obrrigadow”. E acenderam o Zippo do nosso coração.
Escrito por , postado em 23 de março de 2010 às 19:20, arquivado em Handlung e com as tags modo foda-se :). Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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