Kieslowski realizou duas versões do mesmo filme: aquele que integra a sexta parte do Decálogo (Dekalog, sześć, 1989), para televisão, e o longa Não Amarás (Krótki film o miłości, 1988). Embora tenham durações diferentes (este último tem 86 minutos) e finais diferentes, a história e os takes são praticamente os mesmos.
Raramente alguém acertou tão bem a mão ao fazer um filme sobre o amor platônico. O filme — eu prefiro a versão estendida — pode ser visto em várias fases da sua vida sem perder a importância, sempre ganhando em significado, em sentido. O roteiro é simples, com toda aquela ‘unidade de ação’ aristotétlica: o jovem Tomek passa seus dias observando a vizinha Magda, de início instigado pelo amigo Marci, com intenção ‘juvenil’, e depois, segundo ele, porque estaria apaixonado por ela. Além disso, sendo carteiro, deixa em sua caixa postal avisos falsos a fim de vê-la e, mais tarde, trabalha como leiteiro para poder entregar leite à porta de Magda. Eles acabam tendo uma conversa, na qual Magda toma conhecimento da ‘espionagem’; de início o repele, mas em seguida lhe pede desculpas e procura conhecê-lo. Os dois saem juntos e depois vão ao apartamento dela. Quando Tomek experimenta um contato minimamente físico com ela, Magda diz: “isso é o amor, nada mais que isso”. Envergonhado, Tomek foge desesperadamente e tenta suicídio, cortando os ‘pulsos’ numa bacia com água. Madga, vendo que ele não volta, vai até a casa de Tomek perguntar por ele; a mãe de seu amigo, que mora com ele, diz que não é nada, mas que ele terá de passar uma ou duas semanas no hospital. Mais tarde ela descobre que ele tentou suicídio, através de um funcionário do Correio, e sua obsessão — a sua paixão — por Tomek cresce. Os finais variam conforme a versão; omito-os aqui.
Ambos, Magda e Tomek, desconhecem o amor. Tomek o vê como uma admiração voyeur, e Magda não acredita nele, reduzindo-o ao contato carnal. A descoberta do amor, para ambos, vem do incidente. Ela o descobre vendo-o através dos olhos de Tomek; e ele, provavelmente, ao decidir não mais a espionar, na versão do Decálogo. No primeiro caso, a descoberta a leva a buscar o contato com Tomek; no segundo, a descoberta do amor leva Tomek a evitar Magda. O mesmo fenômeno leva a atitudes diferentes. É um desencontro trágico que se estende para além do filme.
O amor entre os sexos não é nem apenas contato carnal e nem apenas distanciamento ‘platônico’. No filme, o amor não se realiza exatamente por faltar maturidade para ambas as partes. No momento em que tem um contato físico com Magda, Tomek tem talvez a maior desilusão de sua vida: sua paixão se realiza bruscamente, de forma impura (aos seus olhos; mas objetivamente também, em minha opinião). A mulher idealizada — mesmo tendo Tomek consciência da sua forma promíscua de vida — se torna verdadeiramente uma prostituta. Tomek passa, de voyeur, a ser humano, a única experiência de amor de Magda. Cessar de existir é a única saída para Tomek. Mas Magda passa a existir nesse momento; na versão estendida, ela imagina, pela luneta do quarto de Tomek, uma cena em seu apartamento em que ela está desconsolada (Tomek a vira assim alguns dias atrás). E o imagina consolando-a. Vendo-a como Tomek a via, Magda desperta, ecoando a frase da senhora que vive com ele em seu apartamento: “no fundo, as moças preferem os homens suaves, [capazes de amar]“. Curiosamente, esse final foi sugerido pela atriz que faz Magda, Grażyna Szapołowska.
O amor pode ser descoberto pelos olhos do amante. Uma recorrência na literatura.
Escrito por , postado em 13 de julho de 2010 às 11:19, arquivado em Cinema e com as tags matemática foda. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Apesar de ter ganho em vida a “Sylvester Medal” da Royal Society (em 1908; ele morrerá dez anos depois), a maior honra a que um matemático podia fazer jus em virtude da sua obra, Geord Cantor sofreu um leve martírio público. Lembro-me de ficar chocado ao ler a respeito das imprecações de Kronecker, que lhe aplicou os mesmos graciosos epítetos que outrora Sócrates — se confiamos nos seus estranhos biógrafos — recebera dos seus contemporâneos atenienses; entre eles, o de corruptor da juventude.
David Hilbert (acabo de encontrar na Internet o artigo — Über das Unendliche, publicado nos Mathematische Annalen em 1926), com quem sempre me simpatizei, salvou-o com aquela frase conhecida, de cuja literalidade não me lembro: a de que ninguém nos poderá tirar do paraíso em que Cantor nos colocou. Paraíso matemático, platônico até, mas um paraíso: porque a teoria dos conjuntos criada por ele, bem como os seus discursos sobre o Infinito — tanto o do maior quanto o do menor, das Kleinunendliche und das Grossunendliche — deram ou devolveram à Matemática um sabor divino, puro, metafísico em sentido impróprio mas merecido. Mais adiante o próprio Hilbert lançará um desafio — um programa, o “Programa Hilbert”, duh — cuja resposta, posto que em forma negativa, virá de outro gênio, Gödel, com o seu teorema da incompletude.
Praticamente tudo o que Cantor escreveu está compilado aqui, nos seus Gesammelte Abhandlungen mathematischen und philosophischen Inhalts, publicado em 1932; há traduções para o inglês, mas ainda não as encontrei. Travar contato direto com a obra de Cantor, para quem cultiva a filosofia mesmo sem se dedicar à Matemática, constitui um convite, se não agradável, ao menos bastante fértil em potencialidades (com o perdão da quase redundância semântica). Não há porque fugir das ciências exatas, especialmente quando estão em íntimo contato com a filosofia — aquelas sempre árduas e gratificantes, esta essencial para qualquer homem de cultura.
E vou dizer o que me levou à matemática, mais especificamente à lógica matemática: um livro instigante de Douglas Hofstadter, Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid (1979), que faz qualquer pessoa de boa vontade pensar a sério nos fundamentos da lógica matemática e nos seus paradoxos; e permite, de certo modo, compreender com alguma profundidade o mencionado teorema de Gödel, como dizia eu a resposta ao divertido programa de Hilbert. Lembro-me de ter adquirido logo depois do tijolinho de Hofstadter uma obra monográfica sobre Gödel dirigida a matemáticos iniciantes; compreendi apenas em parte e desisti, tendo-a emprestado a meu irmão, à época um ainda não consumado cientista da computação (não preciso dizer que ele o compreendeu muito bem). Cheguei à conclusão de que Hofstadter operava pequenos milagres — e que se o leitor quisesse se aventurar pelo mare magnum da teoria dos conjuntos e da teoria dos números, teria de passar mais algumas horas na companhia de manuais para estudantes de graduação, incluso fazendo exercícios e consultando entendidos. Com algum talento, poderia fruir das matemáticas, adentrando um pouquinho, timidamente, no inner circle dos platônicos apaixonados nas (ops, germanismo na cara dura) altas esferas. Boa sorte e boa noite.
Escrito por , postado em 15 de março de 2010 às 20:42, arquivado em Filosofia e com as tags matemática foda. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
O franzino que, de tão puto que estava com a sua inferioridade física, encontra forças para afugentar um Hooligan; o rapazinho vulnerável, outrora tão seguro dos seus sentimentos, que termina o namoro com a Srta. Loveless, deixando-a incapacitada para suas ocupações habituais por mais de 30 dias (lesão corporal grave no coração); o borderline retardado que passa no concurso para Delegado; o jornalista que brilha como escritor de clássica estirpe; eis os membros secretos da aristocracia do paradoxo.
* * *
Queremos em uníssono que a vida siga o seu curso esperado. Compomos hinos de execração ao paradoxo naquele latim vulgar de 800 d.C, cheios de longas palavras terminadas em -tio e -ptio declinadas no ablativo, tecidos segundo os princípios da retórica vazia, enfeitados com a gloriosa pompa dos pronomes de tratamento compostos.
Mas não, meus senhores, não o afastaremos nunca da nossa matemática (por não-euclidiana que seja).
Nessa linha, escreveu Gomez Dávila, campeão de menções honrosas no presente espaço, que o mais sensato, no que diz respeito à História, é confiar em milagres e desconfiar dos planos; abdicar, enfim, do controle (da fíbula ao metacarpo).
Aos poucos aprendemos que as coisas só saem na base do milagre. Os instáveis e inseguros aprendem a neles confiar (nos milagres); e isso os faz mais fortes do que os humanamente confiantes e aparentemente vencedores – e aprendemos, não sendo por natureza inseguros, a respeitar os primeiros como se fossem modelos de comportamento bem-sucedido. Tudo por baixo dos panos, misteriosamente, como senhores que admiram seus escravos (e que, se pudessem, certamente gostariam de lhes tomar o lugar).
O reino do infindável em profundidade e extensão — o reino dos Inseguros.
Escrito por , postado em 26 de fevereiro de 2010 às 7:14, arquivado em Handlung e com as tags insegurança, matemática foda, milagres. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Imagino o que se passará nessa parte do mundo, M., onde os astros são negros e as pessoas altas e magras. Tudo parece sem mácula, posto que obscuro.
Foi o que disse Marco Polo: “Arrivederci, Roma”, como na canção, entre uma cerimônia de chá verde e um uísque escocês para encerrar a noite melancólica. O Porto nunca vai pela direita (sim, trata-se do dito inglês inserido na disciplina ‘etiqueta & boas maneiras’); mas foi assim que conheci um daqueles habitantes magros, horizontais, da outra parte do mundo — caucasianos dados ao luar e à conversação à meia-voz. “Venha mais para cá”, disse um deles, “o rio está baixo como o Tâmisa, isso acontece quando os turistas vão embora”. Demos-lhe uma chance e ouvimos pacientemente. O chá terminou e o habitante exclamou: “Compro a sua escrava por dez mil sestércios”. Rejeitamos a oferta. “Vinte mil”, 15, 19, 16, 19, 17, 19, 18, 18 (a alternância dos números representa o histórico pouco matemático da barganha oriental, aquela das ofensas imperdoáveis: Unter einer ‚Menge‘ verstehen wir jede Zusammenfassung M von bestimmten wohlunterschiedenen Objekten m unserer Anschauung oder unseres Denkens (welche die ‚Elemente‘ vonM genannt werden) zu einem Ganzen, na clássica definição de Georg Cantor).
T’invidio turista che arrivi / T’imbevi de fori e de scavi. Observar um turista constitui ação análoga a contemplar os olhos de quem se ama, de quem /cruel/ se ama (ela pensa: “pobrezinho do turista, pronto a ser decepcionado”). Insistimos na nossa estranheza, no nosso mistério: julgamo-nos mais entendidos, mais reconhecedores do singular que há nela do que a própria pessoa. Ela persiste no seu ceticismo, mas isso não nos faz renunciar.
No país estranho, tudo é mistério, a começar pela altura nauseante dos prédios e das pessoas. Depois elas se tornam baixas e amáveis, mas o caminho até lá é demasiado longo. Dura o encanto mais do que gostaríamos de admitir; com S. Tomás, o princípio da filosofia é a admiração. Mas quando algo é realmente descoberto; quando para nós se torna passado o pós-cópula da análise, da decomposição e do granular lógico; aí a surpresa ganha ares e substância de surpresa diante do esperado.
O MISTÉRIO SE RAMIFICA, M. É o que temos a declarar enquanto aguardamos o visto permanente.
Escrito por , postado em 10 de fevereiro de 2010 às 19:23, arquivado em Caolhices e com as tags matemática foda, união estável. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Uma constatação permanente: o mundo da cultura distrai, mas não completa. Será um universo imanente, enclausurado? Feixes de referências, hierarquias aparentes, festa de causas segundas a ignorar a primeira — a cultura não redime.
Os GHI (Grandes Homens Inefáveis) nos estão querendo dizer a mesma coisa: a cultura superior se realiza na solidão do eu com o outro. E uma característica brutal do que há de mais tendencioso hoje é que os egotrips continuam sendo o centro do universo. O tédio reina soberano.
Muitos de nós vamos seguir entediados até o fim dos tempos, procurando o remédio, o sentido onde ele não está. Um homem não pode ser completo, por mais referências que tenha, por maior que seja o seu repertório de imagens no Blues da Era das Trevas (a.k.a sexy conservative), enquanto não furar o umbral.
No entanto Horace Lemos prossegue. É um processo circular; ou, malgrado tendências portuguesas, um movimento pendular de atração e repulsão pela erudição (e o conseqüente medo periódico das coisas em si). Os GHI dizem que essa instabilidade é própria da adolescência; em resposta a isso, continuo comendo chocolates, vez que há metafísica suficiente nisso.
Um novo homem vagamente à moda renascentista; eis a matéria do umbral: a técnica, os reality shows, a nostalgia computacional, a arquitetura, a semiótica, a cabala, a invocação de deidades ctônicas, os esportes (do skateboarding aos cavalos), os amores platônicos, a submissão à Providência, a confissão semanal, a taxonomia amadora, as línguas esquecidas, o zen-budismo, os jogos de interpretação de papéis onde tudo está previsto (ah, a cartografia!), com exceção dos ácaros sobre a pele azeviche dos meio-elfos, as reuniões de negócios, o furto de livros, as chicanas, as Buckyballs, a metempsicose retroativa, as novas tecnologias, o hacking/phreaking/boozing, a invasão de terminais telefônicos, o nazi-fascismo, a liturgia caldaica, a chaos magick, as drogas lícitas e ilícitas, o pós-modernismo na cara dura, os projetos náuticos, a Enterprise no jardim de casa, a tentativa de construir um metrô até a casa do vizinho, a moda dandy/vitoriana, as boas maneiras, o tratado de teologia ascética e mística de Tanquerey, a tentativa de conquistar o maior número de almas para a Santíssima Trindade, a filologia musical, a cirurgia cardíaca, a teoria dos números, as bandas obscuras e inventadas, o noisecore, a robótica caseira, os fractais, as passagens secretas na cidade de Munique, a ufologia e as teorias da conspiração nunca mencionadas. Tudo o que fomos e o que não fomos (mas tudo o que incorporamos).
MOV AX, CS
MOV DS, AX
MOV DX, OFFSET OurString
MOV AH, 9
INT 21h
MOV AX, 4C00h
INT 21h
E a ponta do Iceberg, esse Judeu caseiro e imóvel que afundou mais de uma embarcação.
Escrito por , postado em 18 de janeiro de 2010 às 10:45, arquivado em Filosofia e com as tags egotrips, matemática foda. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Autores que nunca rimaram. Porcelana estragada. O dia em que fomos os dois no carro, luzes apagadas, vento-Sul confirmado, amizades não-socorridas. Vaneska Santos de Rezende desaparecendo de bêbada. Roubada pela Marina Dias. Estelionato! Salve! Agradeço a Júpiter pelas oportunidades perdidas: foi lindo, valeu mesmo, beijos. Atacar Quilliam Burp Oz de madrugada é covardia. Confiram a nova linha da Meursault: trajes de banho, bonecos árabes, tonturas na praia e semi-automáticas (quantos tiros foram? quaquaquá). Thomas Brownie: torrou o seu, foi pra casa pedir mais.
Pelas almas do Fegfeuer, aos esquecidos ponta-esquerdas que há por aí, aos ricos e famosos, ao Zidane.
* * *
O diálogo foi mais ou menos assim:
J.: Já vai tarde.
V.: Tchau, beijos.
J.: Ei, volte aqui!
V.: Beijos!
J.: Shit forever! (Shazam!)
* * *
Para cada ortodoxia, 23 23/23 heresias.
Não há ortodoxia em matéria política; social; administrativa; esportiva; artística (inclusive em moda, ars minor sed ominis* plena – omen absit!); etc. Chamam-se fanáticos os que acreditam em ortodoxia nesse âmbito, tão ∞ quanto qualquer outro ❝∞❞.
1. Se T prova P, então T prova ProvA(P).
2. T prova 1.; ou seja, T prova que se T prova P, então T prova ProvA(P).
3. T prova que se T prova que (P → Q), então T prova que a atestabilidade de P implica a atestabilidade de Q.
—-
Ps. (*) Ominis, não omnis e muito menos hominis. Vai ser burro assim lá no Taiti, ow.
Escrito por , postado em 15 de janeiro de 2010 às 18:40, arquivado em Acaba com ele e com as tags matemática foda, nazismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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