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Maria Augusta

Na outra janela, escrevo uma carta que começa assim:

Dear Sir,

In the light of the request for a statement of expenses and indication of time spent so far on this case as well as the remaining time, I state what follows. [...]

Estou pedindo meu dinheiro de volta.

A moça -que não é mais tão moça, porque a jovenzita anterior foi substituída- do café me traz um espresso macchiato, algo que ordinariamente não costumo tomar.

Ontem consumi duas chávenas de chá preto, meio croissant, dois espressos, um suco Del Valle de manga e alguns quadradinhos de chocolate. De substancial, capeletti al sugo. E só. Perguntaram-me se eu ia jantar, mas informei que preferi ler; que não estava com fome. Que, okey, meu jantar consiste em chocolate. Não é o que vocês sempre quiseram dizer?

– Mãe, vou jantar chocolate.

Não como quem pede, mas como quem apenas informa.

Todavia, não tenho qualquer poder de barganha com ela. Nada que eu tenha dito influenciou suas decisões. É como tentar convencer uma bola de boliche que rolou pela canaleta de uma cavalcavia e agora está em queda livre. Ela vai cair, mano. Vai fazer o que quiser. Se você colocar um Fusca ’66 no seu caminho, a bola vai furar o capô do Fusca, mano, vai atravessar o banco e o chassi do Fusca e vai cair onde queria -no asfalto.

Nego atrai tanto a atenção das pessoas que passa a acreditar que é omnipotente. (Eu, por exemplo. Vivo fugindo dos, e desprezando os, amigos e pretendentes. Mas eu sou um cerumano). 

(Mas quem dirá não a esse tipo de pigmentação encarnada? Bem, sinto informar: o não que lhe dirão será do tipo trágico, repetitivo, permanente. Não serão dois ou três nãos; será uma vida inteira de nãos, uma eternidade de).

(Senhores advogados: estagiária não é “carne nova”, mas um cerumano. Tenham um bom dia).

Assim saía Franz Kafka para o trabalho, e assim voltava: com os olhos baixos. Vez ou outra crescendo em autoridade, mas sempre discreto. Não fazia novas amizades. Não sei se fumava.

“Esse é perigoso”, dizia o amigo judeu quando via um ortodoxo. Nós ríamos, mas estávamos pensando em Kafka. Em como voltava do trabalho. Em como escrevia as suas business letters.  

Se Maria Augusta te diz tudo e a sua negação -o Wittgenstein do TLP concebeu o mundo (estou sendo impreciso de propósito: die Welt is alles, was der Fall ist) como o conjunto das proposições atômicas verdadeiras-, com o que você fica, Giulio? É verdade o que x disse em t1 ou em t1+n? Em qual dos mundos possíveis cê vive, bocó?

One chance out between two worlds.

Escrito por julio lemos, postado em 12 de agosto de 2011 às 12:02, arquivado em Contos e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.