Flannery O’Connor, a mulher dos nn duplos, disse certa vez que a matéria prima, o quark-gluon plasma da literatura é o pó de que estamos feitos; e que se um escritor não sabe disso, por experiência, o melhor seria nunca escrever. Há tempos não tomava conhecimento de um insight tão verdadeiro. E quem pensa que domina o assunto está dormindo como um maldito Smurf que só dorme.
A literatura xovem contemporânea, ingênua sem ter consciência disso — a ironia, o sarcasmo e as referências eruditas não isentam ninguém de ingenuidade — nunca topou com essa verdade (será o caso de David Foster Wallace? — vou ali conferir). Ou são gnósticos, por falta de formação ou caráter, ou caíram irremediavelmente no auto-engano. (Temos pena dos críticos, que diariamente recebem os seus livros. Porque como se não bastasse a dose intragável de niilismo que recebem dia após dia da televisão e da Internet, topam com ela no trabalho profissional: a career out, and made of, nothingness). Por isso o pastiche, a confusão estilística, a ausência de domínio da gramática. O público adulto passa por alto esses defeitos porque os têm eles mesmos. A massa dos críticos acaba por ser iludida — e justo quando estamos diante de uma classe formada por profissionais que, por vocação, deveriam ser lúcidos e muito espertos (Eliot é o exemplo supremo disso, malgrado suas pequenas falhas; de qualquer modo é sempre possível chamar Cyril Connolly, um autor ultrapassado mas necessário). Porque gosto sempre se discute quando saímos da arena dos Martinis e Brandys.
Se a matéria da literatura é apenas o jogo, o espírito boêmio do tempo e as sacadas espertinhas, então o melhor é ficar nos sitcoms e bancar o eterno Jacu. O humor sempre terá o seu lugar; mas o humor, sozinho, sem profundidade de campo, simplesmente deixa de ser interessante. A não ser que se tenha perdido antes a inteligência (esquecida, como sói, na Quinta Avenida entre prostitutas nanicas e canalhas bonachões).
Salvem o romance contemporâneo — isso eu digo lá fora, porque aqui ele já hibernou delícia — antes que ele volte para o domínio de Azagtoth.
Escrito por , postado em 25 de janeiro de 2010 às 17:11, arquivado em Literatura e com as tags losers. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Vou dormir. Acordo com um telefonema. Volto a dormir. Acordo com uma mensagem. Volto a dormir. Sonho com meu avô: como na vida real, ele já tinha falecido, mas está connosco na sala. Assiste ao noticiário um pouco irritado, como sói. Percebo-me surpreso ante o fato de alguém que morreu estar vivo diante de mim; mais do que vivo: atento, repleto de movimentos. Contemplo meu avô com pena: “mal sabe o que lhe aconteceu”. Olho para a minha avó (será que ninguém repara no fato insólito?) com uma expressão de total surpresa; ela está muito bem informada e me responde, bem humorada e serena: “não é a primeira vez que isso acontece”. Todos contemplamos meu avô, comovidos: todos nós sabemos que ele está morto, à exceção dele. Choro e acordo, mas acordo dentro do sonho: minha mãe vem até mim (estou deitado na cama) saber qual é o problema. Vou principiar a narrá-lo, cheio de dor, mas ela sai, dizendo que já volta. Não volta. Acordo novamente, desta vez na vida real. Volto a dormir. Acordo com o despertador: 6:25.
Desejo nunca mais ler “A floresta do alheamento” de Fernando Pessoa.
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De Fernando Pessoa, O Marinheiro:
PRIMEIRA VELADORA: Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!… O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA VELADORA: Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…
Quanta angustiante exatidão. A exatidão é a polidez dos reis.
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A existência ou não do livre-arbítrio não é um problema filosófico, mas moral. Só é possível acreditar na liberdade experimentando-a – e isso se faz com um ato heróico, quando tudo lhe diz que é impossível escolher. Vários se saíram bem dessa experiência e voltaram com a prova de que, sim, a liberdade existe.
Mesmo escolhendo o pior, é essencial lutar até nos convencermos – porque será um convencimento com fundamento – de que poderíamos ter escolhido o melhor. O que sai disto é covardia.
Os covardes não acreditam no livre-arbítrio porque admitir a sua existência seria reconhecer simultaneamente o seu próprio fracasso. By Jove, cara, quem não fracassa vez ou outra? Aos deuses o escárnio, os chifres cruzados, o desprezo da fraude. Só há Deus e os homens.
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O problema não é ser o que não somos, pois isso é impossível; a coisa é ser o que somos, um trabalho sempre pronto a jogar sobre Sísifo a alcunha de “fiz uma pontinha num seriado da Sony”. Capiche?
O seu avô estava certo. Você é um careca fodido.
Escrito por , postado em 5 de janeiro de 2010 às 8:56, arquivado em Handlung e com as tags amorr, losers, upper class. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Hoje acordei e abri a janela em um gesto épico, exclamando:
Bom dia, ó Sol, ó Astro-Rei, Apolo, Yãng-Shùn-Wán! Lo and beholde! Cacete, que escuridão da porra.
Assim deprê é São Paulo no verão.
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Passamos os 15 anos inteiros lendo H. P. Lovecraft e temendo as noites estreladas. Esquecemos os poetas românticos: Klopstock, Schiller, Keats, Shelley… A Lua não é interlocutora de corações partidos, confidente de vagabundos, bêbados e poetas experimentais. A Lua é só mais um alvo de Azagtoth – da sua fúria cega e cósmica.
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Além da paixão por enredos borgeanos – a dos escritores fictícios de Borges -, em que um personagem morre e aparece vivo no capítulo seguinte para depois sumir de vez entre as páginas confusas do livro, apreciamos o chamado “horror arbitrariamente inserido como elemento surpresa”. Sempre quisemos que os filmes ou os livros realistas, especialmente os que contam histórias de amor, terminassem com horror cósmico ou com uma súbita troca de personalidade.
O fato é que até agora ninguém conseguiu fazer isso com talento e exatidão. Tarantino, você é mesmo um loser, capital loser you are.
Soy un perdedor / I’m a loser baby / so why don’t ya kill me
Escrito por , postado em 25 de novembro de 2009 às 8:06, arquivado em Caolhices e com as tags Borges, losers, Lovecraft. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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