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Superstição

Passei a infância fazendo, periodicamente, “cálculos de má sorte” — pensando nas coisas ruins que trazem, além do mal em-si, males anexos. Por exemplo o verão: o calor, que é a causa primeira, que traz consigo os insetos, as queimaduras de sol, o desconforto geral ao trabalho, as roupas de mau gosto. Bem como “cálculos de boa sorte com má sorte”: o inverno, com o frio bom, mas que traz consigo conforto excessivo no dormir, banhos gelados (quando se trata de uma questão de honra), as saudades antecipadas dos amores e dos invernos que acabam. São exercícios tolos, de pouco uso, mas que trazem uma vantagem: os jogos internos peculiares nos fazem diferentes dos outros, fazendo de nós elementos da função de variedade no Lebenswelt.

Outro jogo interno, partilhado tão somente pelo meu irmão — não sei se ele ainda se recorda disso — era o do “maior número concebível”. Sem termos contatos com a terminologia e o mundo dos computadores (eu não tinha mais de 7 anos: 1985), imaginávamos como que uma memória independente e interior que calculava nossas adições, multiplicações e potências ao longo dos dias sem fim, partindo de um número x. Chamávamos esse “x” de “meu número”, e nos divertíamos imaginando o quão grande ele estaria em determinada época como resultado de fórmulas recorrentes. “Multiplico agora meu número pelo de fios de cabelo da minha mãe elevado ao número de fios de cabelo de meu pai no próximo inverno”. Isso era o que fazíamos. Não sei se meu irmão abandonou o seu número; o meu ainda existe. Semana passada, elevei-o à potência igual ao número de lágrimas — limitadas ao padrão variável de meio centímetro cúbico — derramadas em São Paulo em razão de frustrações amorosas (PS: NÃO AS MINHAS, QUE NÃO AS TENHO, MAS AS DOS PAULISTANOS; PAREM DE MANDAR E-MAILS DE SOLIDARIEDADE). Tínhamos consciência da regra tácita: nunca adicionar a, ou multiplicar por, ou elevar a, o infinito. Isso porque não conhecíamos, aos sete e cinco anos, a recém-mencionada matemática transfinita; porque em realidade não haveria problema em quebrar essa regra tácita. Há infinitos maiores que outros, e isso foi provado.

Muitos outros jogos internos surgiram. Um muito bom chama-se haruspício, e descende dos Etruscos (certamente recua muito mais no tempo, mas mantenhamos essa convenção mitológico-histórica), com o qual muito tempo depois viria a topar escrevendo minha tese de doutorado. Trata-se da observação de eventos naturais — curiosamente, muita vez dependentes da vontade humana — e da atribuição, a eles, de uma causalidade supersticiosa. “Se fulano encostar na raia da piscina, fulana vai se casar com beltrano”. (Esse jogo era recorrente nas minhas aulas de natação). Ou: se a próxima linha do programa for um “endif”, meu Natal será uma merda. E geralmente dava certo. Daí a conclusão de que esses jogos internos tinham tudo para se converterem em tradições, com a potencialidade de moldar culturas inteiras. O surgimento da superstição.

Na adolescência surgem as piadas internas. Sua vida não será mais a mesma, com o perdão do cliché.

Escrito por julio lemos, postado em 30 de abril de 2010 às 13:49, arquivado em Handlung e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.