§ 1. Por exatidão, eu começaria minha tese escrevendo um catálogo de coisas que, dentro das dez categorias aristotélicas, estão ligadas a você, leitora fictícia, inexistente, não-habitual. O número não é infinito. Nego não pode sair por aí, como fiz questão de dizer dia desses, dizendo “o infinito e além” (uma tradução de infinity and beyond); e a razão é que “infinito” implica “sem limites” (fines, aliás, é o mesmo que limites em latim, apenas com ligeiros reparos semânticos de uso; dirá um nego da semiótica “reparos pragmáticos”). Pois bem. (Item zero da lista: o amor não tem limites e nem prazo de validade).
§ 2. [Recortado de um antigo diário] “Hoje minha secretária é que teve de me avisar que ia atrasar. Ontem tinha sido minha vez; e a desculpa -que, aliás, eu não devia a ninguém- era que os cabelos da moça eram bonitos demais, o suficiente para me obrigarem a permanecer por mais tempo na padaria Benjamim Abrahão em Jardins antes de tomar a Faria Lima em direção ao céu (meu escritório)”. (Primeiro item do catálogo finito: she’s a ginger).*
§ 3. Minha noção espacial acaba aqui. Estou ocupado demais com o único assunto: o das relações -reduções, eu diria, sem medo de ferrar a preposição que vem a seguir- entre a realidade e os modelos matemáticos. Pensamento é realidade? Sim, nesse caso incluo o pensamento na categoria ‘realidade’. Digo isso porque modelos matemáticos do pensamento (e isso, amiguinhos, é a lógica) -vamos trocar pensamento por raciocínio, antes que eu cometa uma imprecisão grotesca -, digo, porque modelos matemáticos do raciocínio (quem completar …’humano’ toma chumbo no trapaceiro, digo, no traseiro) acabaram por se revelar coisas surpreendentemente exatas. Tanto que, quando alguém resolveu dar a uma máquina uma série de instruções para computar -algoritmos-, acabou por mudar as estruturas superficiais da civilização material. O que estava fazendo era materializar, formalizar, explicitar o raciocínio humano de modo a poder deitá-lo n’uma máquina: um burro de carga ideal a funcionar sobre um hardware (sim, a vida dos burros é dura). (Segundo item: she’s got numeracy).**
§ 4. A enciclopédia de certo imperador chinês era simplesmente um catálogo com hierarquias e categorias absurdas, como (estou chutando; podem fechar os olhos e pensar no primeiro beijo e na menina cujo dente você quebrou com um soco, na quarta série; aquela que atende pelo nome de Cínthia e é filha de um ex-deputado): “animais com asas”; “animais dos quais o imperador gosta”; “animais com o ideograma chi“; “animais que fazem Huang-Ho lembrar-se do inverno”. (Terceiro item: ela detesta os chineses; “ô povinho, viu”).
§ 5. Você disse que a sua companhia era perfeita, incomparável, e ela duvidou da sua palavra. (Quarto item: é difícil convencer as gente de posse). Ela também não acredita na asserção: “cê é mais bonita que a Natalie Portman”, o que é natural. Ela me trocaria pela Natalie Portman se tivesse a oportunidade, como fez questão de confessar sem interrogatório, sem juiz, sem delegado, sem franciscano por perto advertindo, formal mas efetivamente, ”confessa a heresia, faz as pazes com o Senhor, e escaparás da pena” (quantas vezes eu vou ter de repetir que a Inquisição foi uma lindeza? Eu gosto, e acho que foi muito justa antes de cahir nas mão dos povão espanhol visigótico). (A frase mais ridícula que já ouvi foi: “quem queima livros, acabará por queimar pessoas”. A burrice de um historiador se avalia justamente no seu terreno; exageros e projeções históricas são anátema. Dizia um historiador português: “Quem julga a Inquisição com olhos iluministas, condena-se à fogueira”. A estrutura burocrática e lenta do Santo Ofício foi um modo de impedir, autocraticamente, o que o povo queria fazer democraticamente: executar em rito informal e sumário, ou seja, sem perdão e sem o devido processo legal, os hereges -que eram, basta um mínimo de noção histórica, não os “não-cristãos”, mas os que se faziam passar por católicos por pura safadeza). (Parênquima paliçádico ou lacunoso?).
§ 6. Nós gostamos de safadeza. (Quinto item da lista: nós gostamos de safadeza).
§ 7. As repetições não são, contudo, anátema. Podemos repetir. Podemos repetir que o amor não tem limites, e nem prazo de validade (sexto item).
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* Sa L.D.O.S.A. maloca.
** Lembre-se o Sr. que a matemática é a melhor matéria para elogios. Nós sempre respeitamos gente que, dentre milhares, ou infinitas, respostas possíveis para uma questão, indica a única correta; e secretamente desprezamos -ao menos fora do Brasil- os que engambelam. Mas como dizia um juiz da Suprema Corte americana, não é de bom tom que a pessoa saiba grego; o importante, e o belo, é tê-lo esquecido. O mesmo vale para as matemáticas.
Escrito por , postado em 3 de agosto de 2011 às 10:12, arquivado em Caolhices e com as tags iluminismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.