F E L I Z N O V A D I E T A | juliolemos.com | kostenlose hipster philologie

Humor & Inteligência

Dos maiores sinais de inteligência — continuando nossa saga fragmentária na busca pelo quid pro quo da esperteza — é o senso de humor. Não falo daquele senso de humor gratuito, bufão (privilégio dos chatos e tarados, sempre pouco espertos), que se pretende seja traço característico do brasileiro. Trata-se de algo muito difícil de formular em termos aristotélicos e comportados. (Henri Bergson, que tinha pleno conhecimento da falta de estudos sobre o tema, tentou o mesmo em seu ensaio sobre a metafísica riso; não é possível dizer se foi ou não bem sucedido). Mas basta observar: quanto mais fino o humor, mais relações soube a pessoa captar entre os nomes e as coisas, os nomes e os outros nomes, as coisas e as demais coisas.

A inteligência adere aos dois planos ‘análogos’ de realidade: ao númeno, às coisas em si, sempre mediadas pelo processo cognitivo, e ao universo do pensado e auto-referente (planos lógico e ontológico, irrespectivamente, o primeiro sempre explicitamente reflexivo; aqui excluído o plano heideggeriano do ôntico, pré-aletheia). Ela percebe os níveis infinitos de relação e regressão entre coisas, coisas pensadas e pensamentos pensados, capta as ambigüidades existentes e as refere a um plano cultural (Husserl: o Lebenswelt, a ‘consciência compartilhada’, a redução fenomenológica: Was kann als Sein noch setzbar sein, wenn das Weltall, das All der Realität eingeklammert bleibt?); de todo esse processo parece brotar o humor, o riso no seu sentido mais alto e metafísico — é o meu chute, sem ter pesquisado o assunto com maior cuidado.

Por isso a pessoa inteligente é não só um lógico e um observador, mas também alguém dotado de uma multiplicidade de referências culturais (contextuais), que integram o sentido no espaço, no tempo, no concreto do Dasein — e nos modos-de-estar-na-realidade, ou seja, nas tradições, na concepção de Xavier Zubiri — e na grande conversação dos homens. Tudo lhe parece uma piada interna; e quando ela encontra um interlocutor, riem juntos e se compreendem. A pessoa mais inteligente, nesse sentido, é aquela que consegue conversar com qualquer outra, proveniente de qualquer contexto cultural, e com ela rir, compreendê-la e sentir-se em pé de igualdade com ela. Continuamos depois. /o/

Escrito por julio lemos, postado em 10 de março de 2010 às 23:33, arquivado em Filosofia e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

We learn to pity and rebel

Steve Jobs deve ter um pacto com o demônio. Depois que ele entrou na minha vida com o seu MacBook sedutor, o mundo desabou. Mas fique claro, Mr. Jobs, que quem assinou contrato com aquele ser ctônico hijodeputa foi usted.

COMOFAS, joga o Mac pela janela? Eu estou no térreo.

Fosse o caso de nos darmos as mãos, de nos coroarmos de rosas e despencar em algum tipo de paraíso-estacionamento particular, [...]

* * *

Chegamos ao pub às três da manhã e tanto o gerente como os garçons nos esperavam ao meio-fio, mezzo inclinados, mezzo calabreza.

À meia-noite termina o romantismo e estão todos a chamar as suas mães de senhoras. E melhor para nós, que temos mamãs jovens: não somos obrigados a, cabalisticamente, usar a expressão “minha velha genitora”. Você se sente confortável?

Para os atenienses foi uma experiência nova, comparável à da heroína e do pneumotórax, a visão daquela obscura nação formada à sua sombra / como formigas do vale do Pó / a subjugar a poesia com armas e direito romano.

Supertrunfo: Poetas Ingleses.

Acabo de descobrir que o único romance que comecei, terminei e depois joguei fora estava num disquete, a última cópia de que tive repentina notícia. E que esse disquete, como todos os disquetes de 1995, parou de funcionar. Grande notícia do dia. Adieu retriutga, farewell, auf Wiederschau!

Comecei a escrever “A volta de retriutga” em 2006 – uma novela destinada a habitar apenas o FILE NOT FOUND da inteligência divina. Plotino ascende ao Uno no ano de 224 d.C. O dia ignoro.

Escrever para chocar é o mesmo que mentir numa entrevista de emprego. Você pode até esquecer-se de que está mentindo; o entrevistador já entoara o seu “próximo!” mentalmente há muito tempo.

Feliz Nova Dieta destina-se a um público de alma jovem, punk e aristocrático ao mesmo tempo, que (i) ama assuntos sobre os quais não é lícito escrever, (ii) busca a virtude bebendo em quantidades variáveis, (iii) tem uma quedinha pela Audrey Hepburn e (iv) não se vende, NEM A PAU, ao Sacro Império Romano-Germânico.

Escrito por julio lemos, postado em 22 de dezembro de 2009 às 8:26, arquivado em Acaba com ele e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Notas de outro #1

Estou com saudades do Paulo Francis. Por que você se foi, meu caro? Até os seus óculos, Paulo, eram legais – porque me lembram o meu avô, secretamente um grande amigo seu (ouvir Frank Sinatra é lembrar de vocês dois e sofrer). E você tinha uma sinceridade elegante, e você sabia ser irônico (embora isso lhe tenha causado, talvez, a morte – depois daquele maldito processo judicial, certo?), e você estava tão longe tão perto de nós.

Perdemos o sense of humour. Parte dele se foi com você.

* * *

A realidade tem uma vocação sublime: a de nos meter em enrascadas.

* * *

Alguma coisa me dói profundamente. Tão profundamente, que chego a fingir que é dor.

* * *

Novembro é o mês das ambigüidades, das tragédias, da falta de tempo. O dito de Eliot vale, no Brasil, para este mês:

November is the cruelest month, etc / Mixing memory and desire.

* * *

O tradutor é um “novo escritor” e um taumaturgo caldeu.

* * *

Para entender Eliot é necessário aprender a passar das imagens ao pensamento, do pensamento às imagens, sabendo que se trata sempre de uma analogia difícil (uma alegoria dantesca, às vezes), que toma o caminho mais longo.

Poesia épica: Homero, Virgílio, Dante. E acabou-se, e nunca mais. Só no Juízo Final.

Para aprender a escrever, amar as coisas inúteis – decorar passagens do Código Civil francês, ler anualmente a Eneida, enfurecer cachorros protegidos pelos portões e fazer libações aos deuses. Sonhar com a obscuridade de um pagão. Escutar as lições dos gnósticos como se fôssemos tão ou mais estúpidos.

E depois perder da vida por W. O.

Escrito por julio lemos, postado em 24 de novembro de 2009 às 8:04, arquivado em Caolhices e com as tags , , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.