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A COMGÁS completa 139 anos esse mês. Um serviço prestado desde o século XIX.

Não estou fazendo propaganda. Realmento fico contente com que eles aqueçam minha água; embora eu tenha pago caro por um aquecedor que eles não sabem construir. (Meu aquecedor funciona. É robusto, compacto e não nega fogo).

Passa das dez e meia e a moça ainda não me respondeu o e-mail. Imagino-a encontrando uma amiga ou dormitando no sofá. Mas nada parece motivo justo o suficiente para ela sumir.

Antigamente eu ficava uns tantinho bravo com essa situação. Mas hoje não. Fico como o cowboy que acende um misterioso cigarro e contempla a paisagem. Como o filólogo que (na peça de Tom Stoppard) se prepara para enfrentar um texto grego difícil durante o dia, gastando a manhã com o colocar uma vírgula e a tarde com o retirá-la.

Eu ando paciente. Por vezes vem o desespero de um instante; porque penso ter sido cortado por palavra especialmente razorblade-like ou passo por uma situação demasiado desconfortável (ficar cinco minutos longe de A ou perto demais de B). Mas eu sei que depois estarei em paz.

A moça respondeu o e-mail. Olho pela janela e lembro da antiga advertência: “Consider the environment before printing this e-mail”. Eu olho pela janela, considero o ambiente e aperto print na caixa de diálogo.

É muito melhor ler o coiso no papel.

Não menciono issue ecológica, política ou algum manifesto em favor dos livros ou dos e-readers. O mundo para mim é palco desprovido de ideologias; nada do que eu faço me preocupa nesse contexto. As conseqüências de minhas ações só me interessam sob a perspectiva da ética prática (e não utilitarista), de padrões de nobreza, elegância, elevação. Eu mando um grande fuck you para todas as causas sociais, direitos dos gays, das mulheres, dos brancos, dos bonbons, das árvores e focas e gatinhos. Só me interessam os meus deveres. Não digo isso para chocar, porque cês já me conhecem. É que vem mesmo do coração. Depois de me desfazer das culpas burguesas de toda sorte, esse fuck you tornou-se algo natural e constante, donairoso como o bater do coração. Interessa-me a minha sala de trabalho; o meu vizinho judeu; os meus amigos; a minha cidade, o meu bairro; interessa-me the girl I love e alguns teoremas, os meus livros, o artigo que eu tenho de escrever.

Foda-se, Nelson Mandela. E eu fico feliz em saber que esse gente boa diria o mesmo pra mim: “foda-se, Julio Cesar”.

Foda-se, Zumbi de Palmares e todos os capoeiristas.

O e-mail não foi bem respondido. Só disse que ia ver um amigo e fazer compras, confessando alegria diante do fato. Não é que seja narcisista. Mas como pode alguém se alegrar por não me ver? É um absurdo. Como se eu não fosse o centro do seu universo. Folgada.

A maré de carros subindo na marginal Pinheiros. São Paulo fica novamente cinza; e abaixo das nuvens, uma configuração particularmente casual de peças de uma versão sombria do ”Pequeno Construtor”, brinquedo desaparecido nos anos 80.

E cê inventou de mandar lavar o carro em dia de chuva.

Provérbio napoliano: “Una mano lava l’altra e tutt’e due si lavano la faccia“.

Escrito por julio lemos, postado em 10 de agosto de 2011 às 11:31, arquivado em Contos e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.