Quando alguém me diz que leu meu blog inteiro, logo retruco: “cê podia ter lido três romances do Dostô com o tempo gasto, seu animal”.
E objetivamente estou certo.
Acabo de ler The Third Policeman, do nosso amigo de pseudônimo Flann O’Brien, menos conhecido como Brien O’Nolan -versão inglesa do seu nome real. Já o tinha lido quase inteiro há muitos anos; e esse quase inteiro realmente faz toda diferença, porque a novela tem final dos mais intrigantes. Não costumo ler romances pensando no plot; mas a trama desta conhecida ficção de Flann O’Brien é impressionante. (Embora eu arrisque dizer que ele meio que acertou acidentalmente). O processo de estranhamento começa no preciso momento em que o personagem central anônimo e narrador toma posse do produto do seu crime -uma espécie de cofre (uma caixa de cor negra) com muito dinheiro, pertencente ao homem que ele assassinou em co-autoria com seu amigo John Divney. O leitor não terá idéia do que realmente ocorreu até o final. Conhecida como obra cômica, na minha opinião é dos livros mais assustadores já escritos, pela trama por assim dizer ‘metafísica’ desenhada com invulgar habilidade pelo autor e pela atmosfera de crescente awkwardness. Creio que nessa novela há o exemplo mais bem sucedido de confusão autêntica -muito diferente da confusão mitômana, deliberada, induzida no leitor pelo narrador de Os Demônios de Dostoievsky-, que atinge não um mero personagem, mas a própria narrativa. O livro é um verdadeiro mindfuck. Isso, obviamente, sem prejuízo das suas cenas cômicas (a exemplo da descrição do genial De Selby por meio de prólogos de capítulo e enormes notas de rodapé, acompanhada da discussão acadêmica sobre a sua vida e seus feitos com o uso dos seus comentadores) e até incrivelmente comoventes (como a fuga do narrador numa bicicleta demasiado humana; sua melancolia e abandono).
Não sei por que motivo, não consegui escolher outro romance para ler depois desse. Eu queria era nunca o ter lido para iniciar, agora, a sua leitura e entrar na companhia distante de De Selby e seguir os personagens até a eternidade, que fica logo ali, virando à esquerda naquela estrada.
(Mais estranho ainda: logo após escrever o parágrafo anterior, tomei um exemplar de Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk do velho Leskov e fui almoçar. E, ahm, acabo de ler a novela -neste exato momento. A tradução direta do russo feita pelo Paulo Bezerra é bem cuidada, embora tenha Ns. D. T do tipo: “Entre os russos, o emprego do nome acompanhado do patronímico denota respeito”. Ah é, bicho? Acho que vou ali comprar o meu Англо-русский словарь математических терминов.)
E lá vai John W. Dawson, Jr., no prefácio da sua biografia de Kurt Gödel: ”I have not, however, presumed any acquintance with modern mathematical logic, since even among mathematicians of the first rank such knowledge is often wanting”. Isso é uma pena.
(Em protesto devido a frustração típica de sexta-feira, esta postagem ficará para sempre inacabada.)
Escrito por , postado em 30 de setembro de 2011 às 16:17, arquivado em Literatura e com as tags Flann O'Brien. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.