Desde que paramos de acreditar em deuses artesanais, não cessamos de inventar outros mais de acordo com os tempos: UFOs, panelas voadoras, i-phones. Numa música do Mogwai, alguém se pergunta: what would you do / if you saw spaceships over Glasgow? E as observações subseqüentes compõem uma aula muito conveniente de ceticismo. E por que ser cético? Desde Pirro, entidade algo menos caricaturesca do que o próprio pirronismo (por óbvio), o ceticismo ganhou ares de importância; inflou-se e roubou ao mundo o seu mistério.
Mas o céu continua a mover-se; o que observamos é o mesmo que Eutrópio teve diante de si quando escrevia, acometido pela insônia, as suas crônicas um tanto furrecas sobre Roma; o mesmo que o comentador espertinho de Aristóteles, Aspásio (há uma matrona romana com o mesmo nome, salvo engano, em sua versão feminina; mas ela estava por demais ocupada com os seus filhos e netos que aguardavam, aqueles mais do que estes, a morte do paterfamilias para se tornarem indivíduos proprio iure), contemplava da sua casa na cidade-média, no meio da mais inefável decadência. As esferas celestes, doutrina vem doutrina vai, movimentam-se com o mesmo célebre cuidado: e por isso constituem uma tentação para os céticos (desta vez para os mecânicos da física, frustrados colecionadores de posters e piadas arrancadas ao baixo-ventre da ciência) e um motivo de esperanças para as demais figuras angustiadas.
Creio que os cigarros não trazem felicidade. São como subjuntivos ou mais-que-perfeitos mal empregados; diminuem, contudo, o peso do dia e têm a vantagem de não se enquadrarem na categoria de “pecados veniais” — ao contrário do que ocorre com a aristocracia segundo o Gordo Ches The Clown, vanglorioso integrante dos GHI; contrariando este último, e aqui peço vênia para pôr em jogo um novo porém, é bom notar que sigo defendendo, mesmo com certo peso na consciência — o estado de dúvida: o juízo não pende nem para um lado, nem para o outro, como um pêndulo desprovido de energia –, as glórias da aristocracia. E não para o passado, e muito menos para o futuro: hodie et nunc.
(Abaixo as armas: ceticismo, cigarros e aristocracia habitam as nuances da filosofia. O presente veio do alto; cobiçou nossa atenção; recebemos com contentamento, rimos e pedimos desculpas; e agora chegou a nossa vez de restituí-lo ao seu antigo dono).
Mas que tipo de aristocracia temos em mente? Não será, certamente, aquela das casacas e dos charutos. Não consta que tenham outrora feito a alegria de ninguém (leia-se The Decline and Fall of the British Aristocracy, de David Cannadine). A dos talentos: que cada homem seja melhor, e basta. E que se guarde o direito de ser pior, desde que não evoque o que quer que seja de Declaração dos Direitos Humanos. Ninguém pode ser melhor se não contempla, no morrer e nascer das horas, a sua possibilidade de escolher. Pende a dúvida: até quando seremos livres? A liberdade nasceu aristocrata, como Platão e seus sequazes. Não há sincronia em nossas histórias pessoais. Ahoy.
Acredito na morte pela ternura.
Escrito por , postado em 20 de janeiro de 2010 às 8:25, arquivado em Filosofia e com as tags aristocracia, felicidade, ufologia. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Ahm, os mistérios da burocracia. Lá atrás vivia eu nos Fóruns pensando estar numa novela obscura, onde juízes praticavam 23 Skidoo, estudavam sânscrito escondidos sob a mesa da sala de audiências, subvertiam a maçonaria e colecionavam pistolas alemãs. Observar atentamente os funcionários, os advogados e promotores me fornecia idéias para romances – e é uma pena dizer isso, eu que não sou gnóstico, eu. Roubava livros e os devolvia, inseria piadas internas em petições, sonhava com 12 milhões de euros e uma BMW modelo 1994 (uma relíquia de tempos sombrios). Sempre querendo fugir do comum, entrando ironicamente no esquema para conservar intactas as hipotecas e os penhores metafísicos.
A vida literária onde não há.
Mas agora abandonei tudo. Abandonei tudo no ontem e continuo seguro de que os erros são diabólicos, malgrado haja esperança de que o plano B não seja tão ruim. Sim, é fato que QWERTY não é o meu esquema. Inverteste as letras? HUMPTY terás. A pergunta um tanto bizantina é se és retardado o suficiente para não o notar, Horace Lemos. Ser melhor – ahm, podemos declarar que são cinco as virtudes cardeais ou é necessário que sejam quatro, vez que os cardines são paritários? – é uma questão de brios e escadas rolantes.
Fazei o mal que não quereis, e invertereis SAMSARA. Porque de crises orientais estamos cheios, nicht wahr?
Em torno dos cadáveres reunir-se-ão, com fogo selvagem, os abutres. Aham, cof cof, yes – congregabuntur et AQUILAE.
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Não há romance na economia; mas há poesia nos algoritmos por trás dos códigos de programação – direi, nos próprios códigos, já que code is poetry. Também há na estranha tipografia dos artigos de Cantor publicados enquanto ele vivia (Cantor aparece até nas teses de direito romano). Maus exemplos, aos montes.
A perda de um olho atrai algum tipo de inteligência. Não sei se profundidade. Perguntem a Épipo, que foi rei e está por dentro do negócio.
Escrito por , postado em 18 de dezembro de 2009 às 8:26, arquivado em Caolhices e com as tags felicidade, independência, tabu. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Lembro-me de uma aula de alemão. Eram muitos estrangeiros: poloneses, gregos, italianos. O tema era a felicidade; sabe aquela coisa de soltar opiniões a esmo?
Uma polonesa inteligente citou Aristóteles; e aproveitei para desenvolver um pouco o que dizia o Ari. “Bem, disse uma italiana no estilo escolástico, podemos ver que são várias as opiniões a respeito da felicidade”. Como ninguém disse nada – todos pareciam concordar com ela -, resolvi jogar a farpa que qualquer retardado jogaria. “Há de fato muitas opiniões. É estatística. Mas a filosofia não serve justamente para julgar a validade das opiniões? Há opiniões boas e opiniões imbecis. Vamos discutir esse troço então”.
Vi que o pessoal não concordou – aquilo parecia ditatorial demais, embora fosse, pelo contrário, um convite ao diálogo -, mas que não tinha, todavia, nenhum argumento; estavam sem palavras. Como aquilo não era um ambiente propício, sorri e deixei barato.
Mas isso mostra uma coisa. A discussão mais séria sobre um assunto, ainda mais em se tratando de um tema prático como esse, é o único modo de submeter aquilo em que acreditamos ao teste da consistência. Não há outro modo. Afirmar sem mais que a felicidade consiste no sucesso não diz absolutamente nada. Será que essa opinião resiste a uma análise de 2 minutos? Não. Então é uma bosta de um argumento, e deve ser abandonado; mais importante, disso se segue que agir com base nele é pouco inteligente. Nossa vida está cheia dessas conversinhas. E, incrível, ninguém tem opinião, propriamente, sobre nada. Mesmo quando estudam filosofia, mal sabem conduzir a própria vida. O nome disso é fracasso. Não sabem o que estão fazendo aqui; portanto estão perdidos. Não adianta citar Heidegger ou o Tao ou Lair Ribeiro ou Aristóteles. Está na cara que a pessoa está perdida – e se não reconhece isso, está afundando a narrativa em que consiste a sua vida, uma narrativa escrita em chinês com a sintaxe hebraica. Reconhecer a perda do sentido (obviamente em sentido subjetivo) é começar a buscá-lo. E para buscar é preciso andar, mesmo mancando.
“Viver dói”, como diz um grafite que tem aparecido em São Paulo. Mas se vivemos bem, a dor na alma, a confusão, acaba se tornando suave. Só o corpo é que vai reclamar um pouco, no começo. Mas aí basta bancar o diplomata.
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Já falei mil vez que o fato de a palavra ‘felicidade’ soar sempre piegas – eu sou o primeiro a concordar com isso – não dispensa ninguém de procurá-la. O hobgoblin mais sarcástico que você conhece está sempre agindo em busca desse fim. Ele gosta de carne crua e fubá. É um idiota. Mas ele gosta de certas coisas e age com base nesse gosto. Ele procura a felicidade, mesmo que solte um risinho pelo nariz (como eu mesmo faço. Prazer, sou um hobgoblin) cada vez que ouça essa palavra. Parte da educação mínima dirigida a essa raça de sarcásticos da qual faço parte é aprender a olhar as coisas mesmas, esquecendo um pouco a sua imagem distorcida e colocando entre parênteses o hiperbólico senso estético.
Outras palavras sinistras: Deus, amor, família. A lista é longa. Mas essas realidades não têm nada que ver com a imagem que o sentimentalismo lhes emprestou, como sempre trabalhando para o diabo.
Ignorá-las porque parecem adocicadas, datadas ou burras – porque com isso estamos nos referindo a “Deus!!”, “amor!!” e “família!!”, coisas verdadeiramente repulsivas e nauseantes – é ser um perfeito idiota.
Escrito por , postado em 23 de outubro de 2009 às 9:50, arquivado em Handlung e com as tags felicidade, sentimentalismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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