A ponto de dizer que quem não usa escapulário é retardado, exceto em casos de ignorância invencível. Capiche?
Quase tão retardado como levar a sério coisas como o Da Vinci Code. Há momentos em que a inteligência parece ter abandonado o Universo e nos deixado sozinhos com coisas simpáticas como o Eu Absoluto e a Imanentização do Schaton.
E quem não se sente burro parece também estar no mesmo deserto. Alguns livros nos deixam menos imbecis e outros reforçam essa condição repleta de candura. Seleção, brother. A burrice é uma espécie do gênero fanatismo.
Aproveitando uma conexão medieval: a inteligência (quando está em ato) constitui uma habitual disposição de adaptação analógica da mente às coisas. O critério são as coisas; a mente mede, mas é antes de mais nada medida. A capacidade de pensar analogicamente, salvando identidades e diferenças, é uma espécie de índice de aproveitamento intelectual. Um gênio filosófico será alguém capaz de levar essa disposição – por natureza algo extremamente prático – ao patamar da teoria. Filósofos se fazem com biografias.
Diga-me o que é isso:
Acarus, carpal, carpus, casual, causal, craals, cyprus, lascar, lauras, layups, parlay, pascal, pausal, playas, pulsar, rascal, sacral, salary, scalar, sprucy.
Mais do que evidente: um anagrama (-3 letras) para a palavra scapulary. Sejam felizes.
Escrito por , postado em 7 de janeiro de 2010 às 8:38, arquivado em Acaba com ele e com as tags estupidez, fanatismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Um fanático, segundo Santayana, é quem redobra os seus esforços mesmo tendo esquecido o seu objetivo.
Eu sempre usei a seguinte definição: escolher um traço secundário do espectro humano e trata-lo como se fosse a última bolacha do pacote (especialmente se esse traço for uma prescrição religiosa absurda, como usar cabelos longos, turbantes ou ‘esmagar a Igreja católica’, como queria Voltaire. Os revolucionários do Terror são o melhor exemplo de fanatismo).
Não importa a definição que usemos. Um fanático será um fanático mesmo que afirme com veemência que não acredita em nada. Basta que fique obcecado com uma idéia sem conviver prudentemente com ela; por isso um fanático é também quem não se preocupa com a razoabilidade de uma concepção. Aliás, esse é o principal caso de fanatismo, porque todo fanático é explicita ou implicitamente um niilista. Não mudar de assunto, pregar incansavelmente, insensatamente, é uma maneira de provar que não estamos seguros daquilo que supomos ser “verdadeiro” (mesmo que o verdadeiro em questão seja o Nada): seja a superioridade de um time de futebol, seja a ciência, seja uma religião.
Como os céticos muito bem sabem, afirmações sobre as coisas são sempre coisas complicadas. Por isso tudo passa pelo credo – eu creio. A ciência tem errado e continuará errando; mesmo assim, é necessário crer no método, nos experimentos, nas teorias. Checamos quando alguém diz que a tinta está fresca, mas não podemos fazê-lo quando dizem que a Terra gira em torno do Sol. Se fôssemos checar tudo, estaríamos fritos; a começar pela impossibilidade do empreendimento.
Só não podemos crer em coisas absurdas – coisas que realmente não possuem condição de possibilidade de serem verdadeiras (como a inexistência de um mundo exterior ou o fato de que os rouxinóis falam em chinês quando ninguém está olhando). Todavia está em moda cobrir de incerteza o evidente e fundar seitas segundo algum princípio imaginativo, como a Cientologia. Tertuliano escrevia muito bem, mas foi demasiado hiperbólico ao dizer “credo quia absurdum”, creio porque é absurdo; tanto é assim que acabou por abraçar um fanatismo qualquer.
Um episódio pouco mencionado é o do Terror. Os revolucionários adoravam perseguir os ‘fanáticos’. A pergunta usada nos interrogatórios sumários era quase sempre: “Você é um fanático?”. Era uma pergunta retórica, pois o juiz nunca estava a fim de perder tempo com argumentos e razões; a pessoa já estava destinada à guilhotina e pronto. “Uma nova Revolução está a caminho”, dizia um representante de um clube jacobino em 28 de Brumário, “Nada de suavidade! Nada de indulgência! O Fanatismo deve ser mandado de volta ao Inferno de onde veio!” (cf. M. L. Kennedy, The Jocobin clubs in the French Revolution, p. 155).
Se isso não é fanatismo, meu nome é Robespierre.
Escrito por , postado em 21 de outubro de 2009 às 8:31, arquivado em Handlung e com as tags fanatismo, revolução francesa. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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