Aprender línguas, e muitas, para quê? Para submergir em culturas anexas e sair mais forte, talvez?
Línguas mortas: aprender algo sobre a verdadeira democracia, se há uma tal.
Línguas mortas II: être moderne, être amusant, raconter mieux les affaires de coeur.
Línguas mortas III: livrar-se do Eu, ou ao menos colocá-lo no seu lugar devido. Abençoada seja a métrica, dizia Auden, que nos livra dos automatismos, da escravidão.
Tudo o que exige muita explicação ou já nasceu eterno ou está fadado a morrer no momento seguinte.
O que fazemos sem a confiança? O hábito de mentir é mais destrutivo do que a heroína, mais demolidor do que um torcedor inglês dos outskirts.
O que fazemos sem a disciplina? Montamos um time de futebol, contratamos um técnico e perdemos, quantas vezes necessário for, por W. O.
Quem está apaixonado por uma pessoa, ou pela vida, que leia o Cântico dos Cânticos numa tradução autorizada. E pode ficar nisso, que está de bom tamanho.
Como disse o Martim, a notícia do nascimento do Menino não saiu na Folha de São Paulo. Tudo o que é realmente importante e belo está invisível, mesmo no rosto de uma pessoa.
Se não amas também o coração de carne, os rins e a pele, as manchas, as sardas, o modo como a pele se agarra aos músculos e ossos, enganas a ti mesmo. Se foges quando o momento é mau, quanto não “estás no mood”, não serves nem para o time dos abridores de lata anônimos.
O amor está sempre no singular, e morre quando o singular submerge no comum, no plural; e, o que é pior, no impessoal.
Não há um lugar perfeito. Há pessoas certas em lugares encantadores. O quidproquo (leia-se na pronúncia estadunidense) de um lugar é feito de pessoas, ou de uma pessoa. Só podemos dar nossa vida por um ser com alma; não a damos por coisas, por acidentes, por lugares.
Uma pessoa se mede pelo cuidado com os detalhes. Pela atenção com que observa o teu ser a externar-se em obras, em verbos, em canções de amor e de morte.
Foi o que viu Alphonsus de Guimaraens na prima Constança. E Constança estava presente até nos artigos de jornal, nas sátiras, nas suas sentenças de juiz de província.
Vamos ficar estupefatos quando, chegando ao Juízo Final, encontrarmos não um juiz severo, mas uma criança sem mácula, inocente, toda machucada e sem saber o que fazer diante de nós (a idéia é de André Frossard, o homem de Saint-Maurice-Columbier, em Dieu en questions).
Moema encontrou, no interior do Mato Grosso do Sul, os descendentes de George Bernanos; como fala bem o francês, julgaram-na civilizada o suficiente para conhecer de perto as histórias da família. A coincidência mostrou-me que Deus existe; e que permite, na cara dura, que moças chorem desconsoladamente depois de uma sessão de cinema.
Escrito por , postado em 21 de dezembro de 2009 às 7:38, arquivado em Handlung e com as tags cristianismo, mental disorder. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Relendo ‘A Handful of Dust’, de Waugh.
Um amigo meu ficou chocado com o cinismo desse Evelyn Waugh recém-convertido ao catolicismo – ele que tinha dito que tivera de escolher entre o cristianismo e o caos, acrescentando que “não é possível aceitar as vantagens da civilização sem dar crédito àquilo de sobrenatural que a fundou”. Pois bem, Waugh carregou no seu humor negro depois de abraçar a Cristo. Um paradoxo? O que se pode dizer, sem muita polêmica, é que sua congênita capacidade de enxergar as misérias do mundo foi apenas amplificada: como quem toca “Evil Has No Boundaries” do Slayer usando duas caixas estereofônicas (adoro esses termos da eletrônica do final dos anos 70) de 30 kg cada uma.
Já temos visto mais de um indivíduo derretendo-se diante de um i-phone (um dos grandes triunfos do cristianismo) e, ao mesmo tempo, curvando-se às superstições pagãs.
Às vezes é necessário conceder aos pagãos, que em muitos aspectos – naquilo que não interessa à moral do “veadinho contemporâneo” – têm sido jogados para escanteio. Voltemos um pouco ao paganismo. Vamos ceder, por exemplo, à sua maravilhosa ética sexual. Os romanos de raiz eram fanáticos pelo casamento, tolerando o divórcio como um recurso dos fracos; os filósofos e trágicos gregos abominavam qualquer excesso em matéria de castidade (porque faziam do homem uma besta), e nisto estavam apenas suavizando o espírito antigo, que apedrejava os adúlteros e presenteava os incontinentes com a execução sumária.
Êta mundo cretino.
Escrito por , postado em 16 de outubro de 2009 às 10:18, arquivado em Handlung, Literatura e com as tags civilização, cristianismo, Evelyn Waugh, i-phone, paganismo. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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