A grande dúvida dos filósofos da psiquiatria, entendendo-se por ‘filósofos’ quem quer que qoloque em questão (qqqqq) as conclusões desta última: se a depressão é ou não um fenômeno uno (ou cujos efeitos se equivalem mesmo quando a estrutura que os produz é diversa em dois ou mais casos dados) e se ele pode ser explicado meramente por causas exógenas ou endógenas. E, para os leigos, se a depressão é um fenômeno biológico ou psicológico; ou pior, moral.
Um fato: o nome ‘histeria’ trouxe mais histéricos. Terá o nome ‘depressão’ e a cultura, alta e baixa, associada a ela produzido mais depressivos? O velho caso da profecia auto-realizável, se pecamos por analogia; ou melhor, se a analogia é, aqui, um recurso válido. [Ou pior, ou melhor: bipolar].
A depressão é também um fato. Um fato histórico, biológico, jornalístico. Eu, que nunca a sofri, não sei o que ’seja’, a não ser que possamos acessá-la (e também access it) pela imaginação (tenho-a, modéstia às favas, razoavelmente poderosa; nasci com isto e não posso negar). O que me parece é que uma certa cultura do não-sentido da vida tem contribuído para disseminá-la entre os melhores e os piores. Os meios de comunicação de massa; a fofoca; a superficialidade cultuada como ultima ratio do viver; o urbanismo; o fanatismo dos religiosos que mataram a religião; o ateísmo irresponsável; o agnosticismo piada interna; o Bozo.
Há os inautênticos, que buscam a depressão como a Dra. Silvana, advogada de sucesso, busca os óculos Channel. E há as pessoas sinceras de sempre, que a encontram sem a desejarem. Por fim, temos os confusos, que se sentem obrigados a ela porque no passado se sentiram obrigados à felicidade (os opostos se atraem; e aqui o problema é estrutural: o desejo, a obsessão, a dependência excessiva do parecer alheio geram males quase irreversíveis no âmbito da busca por felicidade).
Maturidade é aceitar a realidade e viver de decisões e não de sentimentos. Uma relação qualquer entre duas pessoas se mantém antes por amor (=decisão) que por paixão. Amor significa cultivar escolhas anteriores que surgiram do mistério (por incrível que pareça, decisões conscientes são mais misteriosas que a paixão, que se explica com curvas e orelhas). Para quem ama, não existe “isso vai mal”; existe o ser que se ama e a escolha de adesão a ele, e ponto final: essa é a realidade, e a realidade se respeita (as rebeldias são imersões na falsidade).
Os depressivos inautênticos vivem de sentimentos; os de verdade saberão respeitar escolhas e, se maduros, saberão ir adiante pela selva obscura. As pequenas decisões é que permitem encontrar o sentido perdido. Entenda-se: decisões que realmente poderiam ser desistências, mas não são. O necessário não é decidido; ele vem e acabou. Mas na vida, só o morrer é necessário.
Escrito por , postado em 1 de julho de 2010 às 21:23, arquivado em Handlung e com as tags colhões, depressão. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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