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Às de costume disse nada

O fetichismo parece ser — para pegar leve com o assunto — uma espécie de último refúgio de homens vazios e desprovidos de espírito. É mais do que evidente que todos temos uma ou outra obsessão saudável com frivolidades: os livros como coisa-em-si, e assim carros, bolsas, armas de fogo, vidas de santos, ego-escritores gaúchos, etc. Mas isso não chega, nunca, a constituir um fetichismo — nós achamos MUITO legal determinada coisa mais ou menos superficial. E ponto. Nossa vinculação é irônica e não chega a nos tirar do sério (não nos leva, por exemplo, a fazer propaganda de que somos literalmente retardados por música erudita eletrônica; OPS). O fetiche, por outro lado, constitui vinculação virtualmente ‘mágica’ com um objeto desejado. Maior sintoma dele é a repetição: você vai reparar que tal assunto é nauseantemente recorrente nas palavras e ações da pessoa em questão — na prática o objeto é encarado como uma espécie de mantra coisificado, com propriedades mágicas capazes de transformar a pessoa na coisa caso o contato seja suficientemente intenso e obsessivo. Tem-se a leve impressão de que, com 60 anos, o cara ainda vai estar colocando as mesmas fotinhos bizarras no Google Reader.

Penso que a ‘liberação sexual’ após os anos 60 liberou muita gente foi do bom gosto e do senso de ridículo. Sim, sim, viva a liberdade; mesmo para ser objetivamente ridículo e desprovido de consciência. Mas é fato que continuam odiando o sexo e tudo o que está ligado a ele; por isso o reduzem a uma coisa abjeta como o fetiche. Gente que teria mantido para si as suas neuroses (porque muitas vezes se trata de casos médicos, de migs que precisam de ajuda profissional) agora as divulga na Internet como se fossem descolados & glamourosos. E como encontram muitos amiguinhos, dão-se por justificados e criam toda uma filosofia e uma cultura da neurose fofinha, do tipo “eu tenho tara e daí”.

E daí que faltou cinta quando tu não gostava de apanhar.

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Assisti a Love In The Afternoon (1957), o clássico de Billy Wilder, colocando a máxima atenção em três coisas: (i) o enquadramento/fotografia, (ii) o roteiro e suas implicações para a vida, (iii) a Audrey Hepburn. Para abusar do estilo Desembargador do Paço, do primeiro ponto digo que, mesmo para um leigo, o filme é uma aula de ironia e bom gosto (basta lembrar de como toda a cena se configura quando os ciganos saem do quarto de hotal de Frank Flannagan; os amantes em Paris; as lunetas durante a ópera; Mr. Flannagan enviando as bebidas aos ciganos pela mesa com rodinhas; etc etc etc). O roteiro de Mr. Diamond é magnífico — se bem que pautado no romance de Claude Anet –, tanto do ponto de vista da “trama em si mesma considerada” (o jogo imanente produzido pelos acontecimentos), que é toda acertada, toda verossímil e divertida, quanto pela sabedoria que traz consigo. Wilder se mostra mais uma vez um crássico: seu foco não é o público, o seu ego ou o sucesso; sem que o percebamos, o que lhe interessa é o homem, seu desejo de não sei o que e seus respectivos paradoxos (e pensando na atuação do diretor: a personagem cujo nome começa com A, Ariane Chavasse, interpretada por Audrey, apaixona-se pelo sem-vergonha cuja ficha inteira está nos arquivos do pai, um detetive particular contratado pelo marido-da-amante-do-canalha a fim de confirmar suas suspeitas; pensamos que está tudo errado, mas o pai sorri de um modo magistral no final do filme). E Audrey, bem, Audrey. A mocinha nunca decepcionou — é verdade que está muito mais inefável em Breakfast At Tiffany’s (1961) e em My Fair Lady (1964), mas a fofa Achtzehnjährige (na vida real ela tinha quase a minha idade, 28 anos!) de Love In The Afternoon é ainda algo difícil de não se querer levar para casa; especialmente pela última cena, que para mim é uma das melhores dela — quando suas palavras estão tão dissociadas da realidade e dos gestos que o espectador quer morrer de ternura (das minhas cenas preferidas de filmes até 1957; admito que quase deixei cair uma lagriminha viril por causa da Heineken e da minha fidanzata [que não deixa passar nem typos em italiano]). /o/

<3 olha aí cará

<3 olha aí cará

Escrito por julio lemos, postado em 12 de março de 2010 às 22:30, arquivado em Cinema, Handlung e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

We learn to pity and rebel

Steve Jobs deve ter um pacto com o demônio. Depois que ele entrou na minha vida com o seu MacBook sedutor, o mundo desabou. Mas fique claro, Mr. Jobs, que quem assinou contrato com aquele ser ctônico hijodeputa foi usted.

COMOFAS, joga o Mac pela janela? Eu estou no térreo.

Fosse o caso de nos darmos as mãos, de nos coroarmos de rosas e despencar em algum tipo de paraíso-estacionamento particular, [...]

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Chegamos ao pub às três da manhã e tanto o gerente como os garçons nos esperavam ao meio-fio, mezzo inclinados, mezzo calabreza.

À meia-noite termina o romantismo e estão todos a chamar as suas mães de senhoras. E melhor para nós, que temos mamãs jovens: não somos obrigados a, cabalisticamente, usar a expressão “minha velha genitora”. Você se sente confortável?

Para os atenienses foi uma experiência nova, comparável à da heroína e do pneumotórax, a visão daquela obscura nação formada à sua sombra / como formigas do vale do Pó / a subjugar a poesia com armas e direito romano.

Supertrunfo: Poetas Ingleses.

Acabo de descobrir que o único romance que comecei, terminei e depois joguei fora estava num disquete, a última cópia de que tive repentina notícia. E que esse disquete, como todos os disquetes de 1995, parou de funcionar. Grande notícia do dia. Adieu retriutga, farewell, auf Wiederschau!

Comecei a escrever “A volta de retriutga” em 2006 – uma novela destinada a habitar apenas o FILE NOT FOUND da inteligência divina. Plotino ascende ao Uno no ano de 224 d.C. O dia ignoro.

Escrever para chocar é o mesmo que mentir numa entrevista de emprego. Você pode até esquecer-se de que está mentindo; o entrevistador já entoara o seu “próximo!” mentalmente há muito tempo.

Feliz Nova Dieta destina-se a um público de alma jovem, punk e aristocrático ao mesmo tempo, que (i) ama assuntos sobre os quais não é lícito escrever, (ii) busca a virtude bebendo em quantidades variáveis, (iii) tem uma quedinha pela Audrey Hepburn e (iv) não se vende, NEM A PAU, ao Sacro Império Romano-Germânico.

Escrito por julio lemos, postado em 22 de dezembro de 2009 às 8:26, arquivado em Acaba com ele e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.