Um outro episódio edificante.
Havia um judeu puro-sangue, nascido em Tel-Aviv, no curso de alemão promovido pela Universidade Ludwig-Maximilian. Desde o primeiro dia tentei puxar papo com ele, motivado tão-somente pela minha habitual simpatia pró-judaica. Era um cara mal-humorado, sempre acompanhado de uns dois livros em alemão — queixumes incompreensíveis a transparecer-lhe no olhar. Primeira simpatia da minha parte: uma gramática alemã em hebraico de boa edição (fetiche retardado); primeira antipatia da parte dele: o meu livrinho de sátiras fofinhas sobre Israel escrito pelo nosso amigo אפרים קישון Ephraim Kishon… Achei que o fato de eu estar acidentalmente acompanhado por um autor judeu seria um ponto a meu favor. Meu engano, entretanto, provinha da ingenuidade: Kishon é odiado por alguns judeus moderadamente zelosos e desprovidos de senso de humor, e meu colega de sala — não sendo todavia um hassídico ou zelota ou fariseu neotestamentário ou kabalista alfarrábico — poderia ser incluído nessa katchyguria.
“Lesen Sie gern dieses Scheissbuch, dieser Scheissschriftsteller?” (o Sr. lê essa merda de livro, essa merda de escritor? [que alemão de merda, pensamos, eu e meu lado Henry Miller]), perguntou-me ele.
“Ach ne, das war selbstverständlich nur ein Geschenk, Mann” (nada, cara, isso aqui foi um presente, ÓBVEO), respondi eu, mentindo descaradamente.
No dia seguinte ele apareceu com um “Além do Bem e do Mal” do Nietzsche e eu caí em cima dele delícia:
“Was denn? Nietzsche? ‘Die Prunkworte’ und soweiter, was sagst Du dazu?” (Que merda, você tá lendo Nietzsche, e as palavrinhas simpáticas dele sobre os judeus, que você diz hein hein).
E ele, irônico:
“Ne ne, das war nur ein Geschenk, Mann” (foi só um presente besta, meu bom mulato).
E a mentira reciprocamente conhecida fez de nós bons amigos. Por um dia. Fui promovido para outra turma e ele sumiu inexplicavelmente do mapa.
(narrativa no estilo Kishon, né. mais ironias)
Escrito por , postado em 17 de março de 2010 às 22:50, arquivado em Moda e com as tags apocalipse now. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
Ἀποκάλυψις Ἰησοῦ Χριστοῦ, ἣν ἔδωκεν αὐτῷ ὁ θεός, δεῖξαι τοῖς δούλοις αὐτοῦ ἃ δεῖ γενέσθαι ἐντάχει, καὶ ἐσήμανεν ἀποστείλας διὰ τοῦ ἀγγέλου αὐτοῦ τῷ δούλῳ αὐτοῦ Ἰωάννῃ etc.
Assim começa o Apocalipse, que não é uma alegoria; como explica Tolkien — que nesse aspecto supera, de longe, C. S. Lewis –, o que nos interessa é o sentido “aplicativo” e não o meramente alegórico: há muitas situações, incluso aquelas não previstas pelo autor, em que uma ‘alegoria’ se aplica. Trata-se de uma revelação cheia de sentido que, por estar amarrada misteriosamente às recorrências da realidade, se pode amoldar a um infinito número de conjunções.
ὃς ἐμαρτύρησεν τὸν λόγον τοῦ θεοῦ, “que testemunharam o Ferbo difino”.
A grande decepção com os autores vem quando entendemos, temos experiência, estivemos lá, puxamos o algoz em nossa direção, apanhamos até a última gota de sangue que ocorria de irrigar um membro –
Quando entendemos de um assunto e verificamos que o autor está fingindo conhecê-lo (porque afinal é um escritor), é difícil não largar um livro. Mas temos de insistir. Pynchon, por exemplo, insere em V. um personagem brasileiro chamado Da Conho. Vem cá, alguém conhece algum Da Conho no Brasil? Não existe. O verossímil seria Da Cunha; e além disso raramente tratamo-nos pelo sobrenome (sim, haveria uma justificativa: tendo migrado para os EUA, lá receberia o apelativo em conformidade com os usos locais). Pynchon tinha noção disso? Não. Ele foi pego em flagrante; mas é isso o que fazem os bons escritores. E talvez seja eu a arriscar a ser pego em flagrante apontando um falso equívoco. Alguém?
A onisciência é aquilo a que mais convenientemente podemos aplicar o qualificativo apocalíptico “ficção”.

Escrito por , postado em 14 de janeiro de 2010 às 17:28, arquivado em Filosofia e com as tags apocalipse now, foras literários. Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.
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