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Augurio scherzoso di buona fortuna

Era uma vez um cachorro que atendia pelo nome de Paulo.

Vamos começar de novo.

“Manfred, Prince of Otranto, had one son and one daughter: the latter, a most beautiful virgin, agèd eighteen, was called Matilda”.

Opa, peraí, Matilda? Como todo medievalista enrustido, nego dá nomes assim a personagens femininos (sim, eu uso no marrculino) -Matilda, Segismunda, Lucrécia- e pensa que a gente não vai perceber. Todo germanista sabe que coisas como Bertha combinam muito com antigos nomes bárbaros latinizados -e latinizar significa, basicamente, socar vogais indiscriminadamente, ou melhor, violentamente, até que o nome confesse: “Soy latino, romanus sum”.

“Cê não tem critério, meu”.

Dizia W. hoje, caprichando no hábito das elite do esporte cuja raiz é o verbo grego kataphroneo:

“Meu, pobre em São Paulo só usa vogal. Cortaram todas as consoantes. Cê ouve o cobrador conversando com a velhinha e soa algo assim como ã ô aiai oão. Eu num entendo nada”.

Eu disse que ia gravar a fala do W. para a posteridade, insisti em que me contasse a história dos pobre em São Paulo de novo enquanto eu acionava o gravador do iPhone, mas ele não quis repetir o que disse. Quod dixit, dixit. Como ocorre com as cenas de amor quente (amor quente? caceta) no cinema, é impossível “repetir” o ato in coena, digo, in cena: sexo só existe na intimidade. E misturar sexo com comida é tudo o que a cultura, em favor até da animalidade, poderia e deveria evitar.

E eu digo: o troller acaba de emitir um sonido de animal.

Germanismo é fogo. Mal você começa, e não divagar não é opção. Alemão quinhentista não sabia dizer nada sem dizer duas vezes, com mil barroquismos -com o perdão da expressão-, intróitos, admoestações, arcaísmos a afrontar o novel estilo (bem, talvez fossem arcaísmos para o futuro, porque eu reconheço que Lutero era moderno, o “gordinho tarado e estudioso”, na expressão da saLDOSA maloca). Melhor exemplo é a reconstrução de Thomas Mann do diálogo entre Adrian e Mefistófeles. Não há nada mais delicioso, iterativo e obscuro do que as falas do segundo. Eu sei que cês não gostam de obscuridade; vou parar de fingir. Essas passagens são chatas para caráleo:

Richtig ist, dass es in der Schalldichtigkeit recht laut, masslos und bei weitem das Ohr überfüllend laut sein wird von Gilfen unde Girren, Heulen, Stöhnen, Brüllen, Gurgeln, Kreischen, Zetern, Griesgramen, Betteln und Folterjubel, etc.

Deu, né.

Um dos temas do romance no séc. XIX é a influência -às vezes benfazeja, às vezes marfazeja- da amada sobre o herói (o que volta até o século XX, nas baladas do The Cure: why can’t I be you tãrã tãtãtãtãtã-rã, etc). É um medo do individualismo equivocado que deixa os escritores tão, mas tão cautelosos, que eles acabam por se proteger jogando tudo nos ombros do carinha do romance. Explico-me (como sempre, a explicação vai piorar tudo, mas aham senta lá, Cláudia). O individualismo é um carro-chefe das moderrnidade; contudo, existe mais imbricação, entailment (safadeza nada, isso é lógica) e elisão do objeto amado nos heróis românticos do que em toda a literatura antiga e clássica. Isso tudo me leva a crer que o clássico é mais “sou mais eu”; e que, sem prejuízo disso, o romantismo não deixa de ser belo ao aceitar fusões misteriosas de corpos aparentemente imiscíveis.

Parte da historiografia da literatura como objeto de estudo se ocupa com o desfazer e refazer da realidade de acordo com conceitos desse tipo: individualismo, romantismo, classicismo. Quando o último scholar enterra algum, ou todos, esses estereótipos, outro vem -alguém de porte- e os desenterra, geral ou particularmente. The King is dead, lon…, re-animators lovecraftianos, miolos, etc.

Por isso eu desisti de encher meus textos de parênteses, apostos e palavrões.

Escrito por julio lemos, postado em 7 de agosto de 2011 às 17:42, arquivado em Caolhices e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.