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Fatwa

Acontece muitas vezes: um homem sutil, inteligente e prudente no afirmar deita sobre o papel uma ‘teoria’, ou melhor, um conjunto mais ou menos coerente de observações relevantes, e logo em seguida um sem-número de discípulos continua o seu trabalho jogando para o alto as sutilezas, as nuances, o mistério — e junto com ele a ‘teoria’ toda.

“Quer saber? Ele já esboçou uma rejeição da metafísica. Vamos terminar o trabalho. Nossa geração é mais corajosa”.

Eis a vantagem e a catástrofe dos jovens (dos xovens). Wittgenstein disse de William James: “That is what makes him a good philosopher; he was a real human being”. Alguns de seus discípulos mais afoitos acabam então por dizer: “Let’s cut this whole ‘human being’ crap”; e seguem-se considerações tecidas estritamente dentro da terminologia filosófica do mestre. E aí vira festa.

Não digo nem que os ‘mestres’ tenham sido ótimos seres humanos, e nem que esse negócio de “ser humano” não cheire mal. O fato é que, em homens realmente sutis, essa abertura não é nada piegas. Ela indica que estamos diante de alguém superior à média em todos os sentidos. Não sou contrário à filosofia — nem a qualquer outra disciplina — acadêmica. Só penso que esse desdém pelo conteúdo e pela honestidade intelectual parece sugerir mediocridade. Em outras palavras: deslocar o pensamento da sua fonte axiológica parece-me uma imprudência. Isso ocorre, por exemplo, quando consideramos Bach ou Mahler como gênios da técnica e desprezamos que aquela música tem um sentido; e que não poderia ser produzida por medíocres. Mesmo no serialismo há sensibilidade e conteúdo: veja Webern, Schoenberg e o inclassificável Witold Lutosławski (cuja obra, mais especificamente a Muzyka żałobna, até semana passada só conhecia dos livros).

Todo o drama do Dr. Fausto de Thomas Mann gira em torno desse eixo (estamos tontos e confusos até agora, eu e minha revisora).

* * *

A tensão escatológica. Todo homem, no fundo, espera um acontecimento absurdo e mágico que aplaque a sua sede de eternidade. Esperamos que o evento ocorra aqui, e que a metafísica se traduza em fatos concretos, em catástrofes alienígenas — naves em forma de corneta, seres mais ou menos gigantes compostos por pixels coloridos, como vitrais de Gerhard Richter –, messias, boddhisattvas, seres de n-dimensões e tudo o mais que a ficção científica privada e inconfessável pode conceber.

Mas isso não vai ocorrer. Por definição, um evento escatológico foge à experiência dos sentidos. Em termos sensíveis, temos de nos contentar com mais do mesmo; e não há messias que vá resolver nosso problema. O interior de Saturno, por místico que nos pareça, é mais do mesmo, e essa seria a impressão de um viajante no tempo que voltasse ao momento do bang-bang, digo, Big Ben, merda, big bang. Não há nada de essencialmente novo sob o Sol. Aceita essa premissa, o mistério permanece. O mundo mental — a imaterialidade do pensamento, os subtis movimentos d’alma — ainda não é nada diante do mistério das coisas. E se um filósofo disser o contrário, tenha a certeza de estar diante de um medíocre.

Postado por julio lemos, em 2 de junho de 2010 às 10:55, arquivado sob Filosofia e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

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Fazer o que, a vida é mais interessante do que a Internet.

Retorno Espiral (Victor Lazzarini, piano e sintetizador; Guto Caminhoto, baixo elétrico; Eduardo Battistela, bateria; Wagner Nogueira, percussão), do projeto jazz-fusion Essência.

Isso é o que eu ouvia quando tinha uns 5 anos, na Sala de Estar Lado B (ou Número Dois) do apartamento dos meus avós, o Ed. Independência, em Londrina-PR, perto daquela catedral de gosto duvidoso. Quando compôs essa música, o irmão da minha mãe — o caçula geninho de cinco irmãos — tinha 15 ou 16 anos; o registro foi encontrado numa antiga fita K-7. Agora entendo de onde vem meu gosto estranho por música, e porque sempre admirei a mistura do clássico com o fuzzy: a sala ao lado, chamada Escritório, estava cheia de poltronas de couro, estantes, madeira escura e papéis de parede. Ali se podia ouvir música e assistir ao noticiário nos anos 70-80. A Cozinha ficava atrás do Hall de Entrada, acessada através da Sala de Jantar. Grande tristeza veio quando o apartamento foi vendido e trocado por um muito menos simpático e muito mais moderno. Ali morei por uns 2 anos, antes de me mudar para o Velho Oeste.

Alguns anos depois, ele compôs

silêncio partitura

para piano (no link da partitura, a Introdução, Fuga & Passacaglia), uma peça difícil mas bastante audível, que nunca vi executada ao vivo. Vale a pena conferir. Dá pra ver que ele odeia Paganini (dá?).

* * *

Poucos se interessam pela Teoria dos Números; a razão é que quase ninguém estudou isso no colégio, e no máximo de passagem numa faculdade de matemática. Por algum motivo — talvez por ser, no início, mais acessível e aparentemente menos complicada do que as demais áreas da matemática pura –, o assunto tem fascinado matemáticos amadores desde os tempos de Pierre de Fermat (1601-1665), um advogado francês (o sujeito conhecido por deixar um enigma anotado em sua cópia de um antigo clássico da matemática, a Aritmética de Diofante, o chamado teorema de Fermat, segundo o qual a igualdade xn + yn = zn para n inteiro, positivo e > 2 nunca se verifica (sendo também x, y e z inteiros e positivos), o que só veio a ser provado nos anos 90), homem genial responsável por contribuições relevantes no campo do cálculo infinitesimal e da teoria da probabilidade.

Encontrei um livro interessante, Excursions on Number Theory, de C. S. Ogilvy, da Oxford U. Press (trechos aqui). Pode ser uma boa e acessível — inclusive no preço, em se tratando de um livro da Oxford — introdução a esse universo a um tempo desconhecido e familiar.

Postado por julio lemos, em 19 de maio de 2010 às 14:29, arquivado sob Música, matemática e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

Gopala

O tema “tipos de inteligência” não parece merecer um tratamento geral. Antes, pequenas e desconexas observações, Bemerkungen, que logrem mostrar problemas e modos de proceder.

Qualquer trabalho intelectual rigoroso exige foco, mesmo temporário — parte de um “nerdismo serial”, na expressão do talvez mais caro entre meus amigos –, e um colossal horror às escolas de pensamento ready-made. São dois tipos de inteligência diferentes, aparentemente contraditórios mas, de qualquer modo, complementares. Provavelmente você só tem uma delas; e por isso deveria trabalhar para, tanto quanto possível, adquirir a que não tem.

Sobre o foco: não é possível trabalhar sem um objetivo; ou melhor, sem estar completamente tomado por uma obsessão com determinado tema. (Isso fez de Wittgenstein um dos homens mais chatos a pisarem em Cambridge; mas também um dos mais geniais). O foco é resultado, ou mesmo causa, em certo sentido(1), de uma paixão. Pois a paixão é das coisas mais ‘objetivas’, mais ‘dirigidas’ que há (basta pensar no vocábulo inglês drive — surpresos?).

“Em tudo tem em vista o fim”, so says the saying. O fim dirige toda a ação, mesmo na hipótese de uma ‘ação intelectual’. Se não sabemos, em linhas gerais, para onde caminhamos, é impossível que surja a paixão adequada. Ponto.

O horror ao pensamento estereotipado. A grande diferença entre um trabalho de gênio e um medíocre está na presença ou ausência de uma inserção precisa numa categoria trivial. O trabalho do Círculo de Viena não é genial porque é, simplesmente, positivista (e por isso ridículo). O trabalho de Wittgenstein é genial porque, ao tentar caracterizá-lo, não conseguimos em nenhum momento emprestar-lhe um nome adequado, nem inseri-lo um sistema trivial: idealista, realista, o que seja. O gênio possui uma aproximação maior com o real — e o real é inclassificável, está além das categorias mentais e dos esquemas. O sistema não carece, por isso, de utilidade; sua desvantagem essencial é, no entanto, a de reduzir a realidade.

Mais de um wittgensteiniano tem ficado surpreso ao ouvi-lo falar de ética ou do Cristianismo como único caminho para a felicidade (sim, somos livres para discordar disso), ou ainda do casamento como “a sacred act”, um ato sagrado. Ou que “what is good is also divine”.

Alegremo-nos, portanto, ao deparar-nos com esse tipo de situação: a da súbita e desconsertante mudança intelectual. “Mas que diabos. Ele não quis assinar o manifesto. Ele inspirou todo o trabalho que resultou nele!” (2) Merece eterno louvor aquele que não assina manifestos; aquele que muda de assunto; aquele que ousa fazer piada com a filosofia quando todos estão sérios, levando-a rigorosamente a sério no dia seguinte, quando todos fazem chacota dela.

___ Notas

(1) Aliás, num sentido muito preciso. Não se pode desejar um bem que não existe — considerando o ‘existir’ como admitindo ‘parecer-existir’. Explico-me. O amor é um bem; é um bem tão-somente por envolver um objeto de desejo, um fim. Por tautológico que pareça, a idéia de bem não pode ser dissociada da finalidade. Um bem é um bem porque é um fim buscado. Se buscamos, é porque é um bem, mesmo que seja apenas aparente. Explico a tautologia: como no caso do ’ser’, não é possível definir ‘bem’ senão recorrendo a um elemento já presente na definição — trata-se, afinal, de um conceito fundamental, já dado. Sua evidência procede da evidência imediata, sem a qual não é possível começar a emitir juízos e formular sentenças (ou recorrer a proposições).

(2) Não me refiro apenas a manifestos altamente estúpidos, como o comunista. Refiro-me a qualquer manifesto.

Postado por julio lemos, em 8 de maio de 2010 às 17:39, arquivado sob Filosofia e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

Nihilominus

O matemático inglês John Conway é conhecido por ter criado em 1970 o “jogo da vida”. Trata-se de um algoritmo muito simples. Na prática, consiste num ‘autômato celular’: dada uma condição inicial, ‘células’ reproduzem-se ou morrem num plano bidimensional de acordo com 4 instruções simples. Por trás de tudo isso está a noção de que a complexidade pode ser obtida, em poucos passos, a partir de uma simplicidade quase absoluta. Muito antes dele, John von Neumann tinha tentado criar uma máquina — um computador hipotético, por assim dizer, no estilo Turing — capaz de criar cópias de si mesma; seu sucesso havia sido relativo, vez que o mecanismo concebido por ele era demasiado complexo. E, de fato, a invenção de Conway constitui uma máquina de Turing universal.

Desde que descobri, há mais de dez anos, o mundo de Conway, uma coisa me inquieta. Do ‘jogo da vida’ diz-se que é pura auto-organização, ordem emergente do caos, sendo dispensável um designer ou um design. Mas pensem comigo: de onde emerge a ordem? Observando uma ‘partida’ (o jogo não exige jogadores), percebe-se que alguns padrões emergem. Se podemos falar em padrões, entretanto, isso implica que alguém os reconheceu. Do ponto de vista não-objetivo, da mesma forma, esses padrões são fruto de regras simples que contêm um princípio suficiente de ordenação. Portanto, o designer não está ausente: ele é o criador do algoritmo. E aquele que reconhece padrões é precisamente um ser da mesma natureza do criador do algoritmo: um homem (ou um ser qualquer inteligente, no qual a ordem está presente). A ordem não emerge do caos, e muito menos do nada; o movimento das células parece imprevisível, mas na verdade ele já estava presente, em potência, nas células iniciais. Os axiomas são colocados por alguém e as conclusões são obtidas através de um procedimento inteligente e previamente criado. A partir de nenhuma regra, não se obtém alguma regra.

Ex nihil nil fit. E com isso não quero provar nada. Eu só quero saber onde foi parar a inteligência dos cientistas.

Postado por julio lemos, em 6 de maio de 2010 às 9:18, arquivado sob Filosofia e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

Superstição

Passei a infância fazendo, periodicamente, “cálculos de má sorte” — pensando nas coisas ruins que trazem, além do mal em-si, males anexos. Por exemplo o verão: o calor, que é a causa primeira, que traz consigo os insetos, as queimaduras de sol, o desconforto geral ao trabalho, as roupas de mau gosto. Bem como “cálculos de boa sorte com má sorte”: o inverno, com o frio bom, mas que traz consigo conforto excessivo no dormir, banhos gelados (quando se trata de uma questão de honra), as saudades antecipadas dos amores e dos invernos que acabam. São exercícios tolos, de pouco uso, mas que trazem uma vantagem: os jogos internos peculiares nos fazem diferentes dos outros, fazendo de nós elementos da função de variedade no Lebenswelt.

Outro jogo interno, partilhado tão somente pelo meu irmão — não sei se ele ainda se recorda disso — era o do “maior número concebível”. Sem termos contatos com a terminologia e o mundo dos computadores (eu não tinha mais de 7 anos: 1985), imaginávamos como que uma memória independente e interior que calculava nossas adições, multiplicações e potências ao longo dos dias sem fim, partindo de um número x. Chamávamos esse “x” de “meu número”, e nos divertíamos imaginando o quão grande ele estaria em determinada época como resultado de fórmulas recorrentes. “Multiplico agora meu número pelo de fios de cabelo da minha mãe elevado ao número de fios de cabelo de meu pai no próximo inverno”. Isso era o que fazíamos. Não sei se meu irmão abandonou o seu número; o meu ainda existe. Semana passada, elevei-o à potência igual ao número de lágrimas — limitadas ao padrão variável de meio centímetro cúbico — derramadas em São Paulo em razão de frustrações amorosas (PS: NÃO AS MINHAS, QUE NÃO AS TENHO, MAS AS DOS PAULISTANOS; PAREM DE MANDAR E-MAILS DE SOLIDARIEDADE). Tínhamos consciência da regra tácita: nunca adicionar a, ou multiplicar por, ou elevar a, o infinito. Isso porque não conhecíamos, aos sete e cinco anos, a recém-mencionada matemática transfinita; porque em realidade não haveria problema em quebrar essa regra tácita. Há infinitos maiores que outros, e isso foi provado.

Muitos outros jogos internos surgiram. Um muito bom chama-se haruspício, e descende dos Etruscos (certamente recua muito mais no tempo, mas mantenhamos essa convenção mitológico-histórica), com o qual muito tempo depois viria a topar escrevendo minha tese de doutorado. Trata-se da observação de eventos naturais — curiosamente, muita vez dependentes da vontade humana — e da atribuição, a eles, de uma causalidade supersticiosa. “Se fulano encostar na raia da piscina, fulana vai se casar com beltrano”. (Esse jogo era recorrente nas minhas aulas de natação). Ou: se a próxima linha do programa for um “endif”, meu Natal será uma merda. E geralmente dava certo. Daí a conclusão de que esses jogos internos tinham tudo para se converterem em tradições, com a potencialidade de moldar culturas inteiras. O surgimento da superstição.

Na adolescência surgem as piadas internas. Sua vida não será mais a mesma, com o perdão do cliché.

Postado por julio lemos, em 30 de abril de 2010 às 13:49, arquivado sob Handlung e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

Start Today

Muitos artigos para escrever e revisar, mas sim, vamos complicar as coisas.

Agora, livros que estou lendo:

1) Infinite Jest, de David Foster Wallace. Após o frisson do começo dos anos 00, já é possível ler calmamente a obra mais importante do escritor, morto em 2008. As 1000 páginas, com notas de rodapé, do romance inserem-no na tradição If It’s Fucking Huge It Gotta Be Fyne. Uma antiga professora de literatura dizia semanalmente: “Eu não entendo como se pode escrever tanto. Eu não entendo”. E seu lindo rostinho permanecia naquele que estado que indica incompreensão. Com DFW isso se torna qualificado: como tanto, e sobre essas coisas? Engenharia, química, biologia, matemática, física, marketing, cartas comerciais, burocracia universitária, terrorismo, psiquiatria, ‘drogadição’. E mais. E muitas abreviaturas misteriosas. E muitos personagens. Incongruências temporais. E blah blah. Mas DFW escreve bem. E se afeta uma erudição que não tem — consultando uma bibliografia invejável –, isso acontece no escurinho do cinema. E para justificar que seus conhecimentos de matemática são maiores do que os do público leigo e menores do que o dos experts, escreve

2) Everything and More – A Compact History of ∞, um ensaio sobre o infinito cujo tema central é a matemática transfinita de Cantor, de que falamos aqui. Apenas comecei a ler; e já estou ciente de que há críticas vindas da comunidade especializada. Creio, contudo, que o trabalho de DFW é legítimo — trata-se de pop technical writing, nas palavras do autor. As passagens mais difíceis estão sob o rótulo-sigla IYI (If You’re Interested), e podem ser evitadas sem grandes prejuízos.

3) E, ahm, o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein. No segundo semestre pretendo pegar umas aulas na USP com o “dono de Wittgenstein” no Brasil. A fama o precede.

E os de costume.

E, se querem hardcore do bom, ouçam “Start Today” (1989), do Gorilla Biscuits.

Postado por julio lemos, em às 11:45, arquivado sob Geral. Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

Wahrheitsfunktion

Atrás de um homem de notável erudição e agudo raciocínio está, afora a obscuridade prazenteira que o envolve, não o esforço mecânico por dedicar-se a matérias árduas, fugidios objetos de conhecimento, mas um insaciável interesse por todas as coisas. Como dizia o erudito francês Remi Brague numa palestra (Weidenau, 2009), o que está por trás da verdadeira idéia de Deus é o infinitamente interessante; e não precisamos passar daí à Teologia. Todo o Universo é interessante; se não vemos interesse nele, se não o queremos — delicadamente — esgotar, por inesgotável que seja (pois essa é, na verdade, a sua natureza), simplesmente não vivemos: desfazemo-nos do mistério como quem se desfaz da própria vida. E o faz quem se contenta com pouco — especialmente se se trata daqueles entre nós que possuem algum talento para a investigação, seja para as ciências do espírito (segundo o termo muito usado por Husserl e Dilthey, Geisteswissenschaften), seja para outras áreas, como as matemáticas.

A noção primordial de interesse, do lat. inter esse, já diz muito: cuida-se de um estar-nas-coisas, de fazê-las próprias e viver entre elas. Não conhecemos nada pelo qual não tenhamos interesse — o que significa que não podemos dizer nada sobre algo se não o visitamos ‘fisicamente’. Para conhecer uma pessoa é necessário uma espécie de Umgang-Begegnung contextual, “trato”, convivência. E é por essa razão que Platão diz numa de suas cartas que a verdade filosófica vem através do “comércio” com os homens que estão em algum contato com ela — daí a insistência platônica numa pólis bem constituída, cujo núcleo autoritativo seria a procura pela verdade (malgrado as implicações políticas que um “rei-filósofo” traz consigo). A palavra interesse, que designa, nesse sentido primordial, uma atividade de valor objetivo, tem sido substituída pela “motivação”: seria necessário encontrar algo pelo qual subjetivamente nos interessemos. É uma meia-verdade. Porque não é a motivação que dá valor ao objeto; é antes o objeto que dá valor — objetivo — ao interesse.

Por isso não vale a pena interessar-se por certas coisas: é preciso descobrir algo realmente interessante com que se ocupar. A tradição já fez o trabalho por nós: realmente interessantes são as artes, as ciências, a filosofia, a religião. São matérias que custam ao intelecto. E quanto mais custam, mais remuneram e por mais tempo duram, mais indestrutíveis são pela sua aderência ao intelecto que por elas é treinado e afinado. E porque a inteligência foi, de certo modo, feita para elas, pode-se afirmar com segurança que seu interesse, sua ‘capacidade’ (ou potência) de nos trazer para dentro delas, está associado à felicidade.

Postado por julio lemos, em 13 de abril de 2010 às 23:35, arquivado sob Filosofia e com as tags . Deixe um comentário ou participe da discussão em permalink.

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