Kieslowski chamou uma cena de Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovsky, de “milagre”. Não vou dizer que cena é; assistam ao filme inteiro.
O longa foi sendo filmado aos poucos. A intenção de Tarkovsky não era rodar um filme pesado ou tenso. Mas as circunstâncias não ajudaram: até de longe, os soviéticos continuaram a tentar transformar a vida do diretor em um inferno. Não permitiram que seu filho o acompanhasse. E nem que viajasse a seu bel-prazer. A saudade dos seus — o filme foi rodado inteiro na Itália — e a dificuldade de locomoção acabou por se derramar sobre o filme: “Irrespective of my own theoretical intentions, the camera was obeying first and foremost my inner state during filming”. Até que, finalmente, não uma nostalgia teórica — o tema do filme –, mas a própria nostalgia não intencional de Tarkovsky tomou conta da sua alma e o resultado é o que vemos na edição final, patrocinada pela RAI TV e pela Sovin Film de Moscou.
Como todos os outros, sem exceção, filmes de Tarkovsky, trata-se de um filme difícil. Mas um fato será notado ao longo do treinamento ascético necessário para apreciar o cineasta que é para mim (e para Bergman) o maior de todos: se tomadas ou seqüências demoradas são normalmente chatas, o mesmo não ocorre quando elas são realmente longas.
A vida é feita de planos-seqüência de mais ou menos 15 horas, se excluímos os sonhos. Se aprendemos a contemplar o que vemos, nada é chato. O tédio é ou o resultado de uma alma que se esforça por aprender (e ainda não aprendeu) a viver (meu caso, espero) ou então produto de uma pobreza espiritual quase irremediável. O primeiro tipo de tédio é comum e positivo; o segundo é um sinal de alerta, pois está quase definitivamente associado ao desespero. Todos experimentamos o tédio; mas nosso futuro depende fundamentalmente da nossa atitude diante dele.
Pois bem: os longos takes e seqüências de Tarkovsky são um sinal de esperança, no melhor sentido da palavra. Eles captam o mundo como ele é: misterioso, denso, mas sempre anfibológico (simultaneamente opaco e aberto à experiência). Olhe ao redor; não é isso o que você vê? Toda a gnoseologia, a teoria do conhecimento, surgiu dessa ambigüidade, dessa dúvida. Sem mistério não há sequer a filosofia dos céticos. Até os agnósticos — e eu sou um agnóstico, em certo sentido — estão envoltos em mistério.
Postado por , postado em 27 de julho de 2010 at 16:10, filed under Cinema, Filosofia, Handlung and tagged kosher food. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.


vou assistir, me convenceu.
Tu, Júlio, um agnóstico? Qual é o “certo sentido”?
Sonhos são vídeo-clipes dirigidos por um consórcio de diretores com baixo orçamento.
Sei não Júlio: às vezes o Tarkóvski é chato mesmo, não tem desculpa que justifique isso. Como quer que seja, acho que os seus filmes se encaixam bem naquilo que o Ortega dizia da poesia, que só é lida e apreciada como convém quando “estamos no clima” da coisa. Disputandum est.
Nochmal ein schöner Text Julio!
Também pensei nisso quando assisti Solyaris. É como viajar, ficar em fila para ser atendido, etc. Aproveitando esses momentos, um novo mundo se abre.
Vielen Dank, lieber Inda!
Mas sobre o assunto aí da anfibologia densa do mundo, isso leva as pessoas ao crack e outros vícios.
Normalmente quem gosta de Bergman não gosta muito de Tarkovsky e vice-versa (uma disputinha Corinthians vs. Palmeiras entre eles). O grande problema desse cinema, sei lá, “da lentidão”, são os maus diretores-cria. Aqueles curtas pernósticos que tem por aí, que as pessoas ficam fumando e chorando e falando de crises existenciais inventadas. Aí embarcam numa vibe de ir vender maconha na faixa de gaza e um jude atira neles.
Diria que Nosthalgia é um milagre do silêncio. Ou um milagre simplesmente, sem o peso metafísico desta palavra. Tarkovski pwnz.