Como disse há um tempo, rola um pouco de death metal nas bancas de doutorado das melhores faculdades (e às vezes um pouco de black metal norueguês). Uma vez assisti a uma defesa de doutorado em que os primeiros 10 minutos foram marcados por uma ausência completa de elogios — sabemos que é costume elogiar um pouco para só em seguida, preparado o terreno, partir para as objeções. E sem tempo para que o candidato pudesse anotá-las; tudo muito bem calculado para provocar havoc and destruction. Ao final o candidato nem entendou como foi aprovado. Mas eu entendi. O show acaba e os headbangers voltam felizes e embriagados para as suas casas e dizem boa noite para a vovó e para seus ursinhos de pelúcia.
A fórmula acadêmica é: terror, terror, terror, e depois aprovação.
Quase tudo na vida é sofrimento temporário — antes que possamos pensar na dor que sentimos, a coisa se vai. A dor é sempre uma expectativa. Dia desses fui fechar o portão do prédio e meti o cotovelo, naquela partezinha ‘por favor não encoste nada aqui’, no trinco. A coisa parece que entrou até o osso. Depois passou. Mas se me dissessem: “por favor, me dá o seu cotovelinho aqui que eu lhe vou aplicar uma leve bordoada com esse trinquinho de ferro”, eu sairia correndo. Numa cena de Andrei Rublev, um mártir é torturado até a morte com essa técnica de antecipação: os instrumentos são mostrados, muitas palavras são gastas a fim de dar um ar infernal de sofrimento à ocasião. Isso é sofrimento. Mas depois o sujeito morre e está em paz (presume-se).
Uma vida de antecipações, planos e frustrações e blump, agonizamos por 3 minutos e lá se vai o miocárdio. Para que tanta antecipação? Afasta esses pensamentos. A vida vale mais para o é do que para o que será. A memória potencializa e aprofunda o presente, humaniza-o. Mas só o presente é poiésis, criação. A potencialidade existe para actualizar-se.
“A juventude precisa de silêncio”, disse Andrei Tarkovsky. O diretor passou um tempo na Sibéria numa expedição geológica, e seu contato com o silêncio e a natureza lhe deu alimento para todo o seu trabalho posterior, quando se tornou cineasta. Silêncio não exige votos; não exige sequer pouco contato com as pessoas; não exige ausência de ruídos. Exige parar e pensar. Pode-se passar uma vida em completo retiro e não se experimentar, por um segundo que seja, o silêncio. Ele é uma atitude, não um lugar e muito menos ausência de ruído ou comunicação.
É mais que evidente que o modo pan-urbano de estilo de vida dificulta as coisas. Por isso eu e uns amigos fizemos muitas excursões ao redor de São Paulo e de Londrina. Recordo-me de uma em particular, na zona rural cultivada ao redor de Londrina, num “patrimônio” (um nome local para uma forma jurídica de pequena municipalidade) do qual não me recordo o nome. Estudamos um mapa cedido por um instituto geográfico — um mapa exato e bastante técnico — e traçamos uma rota. Saímos muito cedo. Andamos, eu e mais dois, por muitos quilômetros até chegarmos a uma fazenda que parecia abandonada. Em dado momento como que nos perdemos, talvez de propósito. Fiquei só, observando antigos utensílios agrícolas, armazéns abandonados, detritos e árvores estranhas. O caminho parecia não levar a lugar algum. Não sei porque, esses momentos nunca me saíram da memória, como se constituíssem uma experiência ‘mística’. Pensei em voltar muitas vezes, mas deliberadamente nunca mais voltei.
Ali estava o silêncio, e ali deveria ficar.
Postado por , postado em 21 de julho de 2010 at 14:22, filed under Handlung and tagged alma. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.


Belo! Olha que estou no meio da Toscana, entre colinas, vinhas, oliveiras, mas não tem sido um tempo cheio de silêncio. Qualquer ser humano poderia dizer que estou no paraíso, ontem mesmo vi um della Robbia perto da sorveteria que costumo frequentar. Mas não é tão simples. O percurso de trem suburbano, quando no Natal eu trabalhava até mais tarde, entre Presidente Altino e a Lapa, com o trem vazio e a luz cobreada de São Paulo. Ali encontrei o silêncio. Estranho. Valeu, Julio!
experimentei silêncio na leitura do teu texto. valeu.
Bacana. Existe uma meditação que se chama “mauna” (’silêncio’ em sânscrito).
Julio,
meu silêncio explicita internamente minhas expectativas. COMOFAS?
O camarada conseguir encontrar o silêncio no trem da CPTM entre Presidente Altino e a Lapa é um herói! No trem da CPTM eu não consegui encontrar p. nenhuma a não ser um paraíba querendo me vender óleo de peixe elétrico que curava até câncer.
Julio, permita-me, sinceramente, sem demagogia: este é o melhor post de todo o blog. Seu melhor texto, na minha opinião.
Santini, o último trem do dia 23 de dezembro, às 24h. Outra coisa, Ryanair não deve nada à CPTM, é até pior…