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Nihilominus

O matemático inglês John Conway é conhecido por ter criado em 1970 o “jogo da vida”. Trata-se de um algoritmo muito simples. Na prática, consiste num ‘autômato celular’: dada uma condição inicial, ‘células’ reproduzem-se ou morrem num plano bidimensional de acordo com 4 instruções simples. Por trás de tudo isso está a noção de que a complexidade pode ser obtida, em poucos passos, a partir de uma simplicidade quase absoluta. Muito antes dele, John von Neumann tinha tentado criar uma máquina — um computador hipotético, por assim dizer, no estilo Turing — capaz de criar cópias de si mesma; seu sucesso havia sido relativo, vez que o mecanismo concebido por ele era demasiado complexo. E, de fato, a invenção de Conway constitui uma máquina de Turing universal.

Desde que descobri, há mais de dez anos, o mundo de Conway, uma coisa me inquieta. Do ‘jogo da vida’ diz-se que é pura auto-organização, ordem emergente do caos, sendo dispensável um designer ou um design. Mas pensem comigo: de onde emerge a ordem? Observando uma ‘partida’ (o jogo não exige jogadores), percebe-se que alguns padrões emergem. Se podemos falar em padrões, entretanto, isso implica que alguém os reconheceu. Do ponto de vista não-objetivo, da mesma forma, esses padrões são fruto de regras simples que contêm um princípio suficiente de ordenação. Portanto, o designer não está ausente: ele é o criador do algoritmo. E aquele que reconhece padrões é precisamente um ser da mesma natureza do criador do algoritmo: um homem (ou um ser qualquer inteligente, no qual a ordem está presente). A ordem não emerge do caos, e muito menos do nada; o movimento das células parece imprevisível, mas na verdade ele já estava presente, em potência, nas células iniciais. Os axiomas são colocados por alguém e as conclusões são obtidas através de um procedimento inteligente e previamente criado. A partir de nenhuma regra, não se obtém alguma regra.

Ex nihil nil fit. E com isso não quero provar nada. Eu só quero saber onde foi parar a inteligência dos cientistas.

Postado por julio lemos, postado em 6 de maio de 2010 at 9:18, filed under Filosofia and tagged . Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.

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