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Paleography doefn’t fuck שנה

Recentemente troquei e-mails com o brother Thiago Blumenthal — do blog Kapores — sobre o filme “Um Homem Sério” (2009), que assisti antes de chegar aos cinemas (não me perguntem como). Alguns comentários dele, que conhece a cultura judaica muito melhor que eu, confirmaram a impressão que tive quando o filme chegou ao fim: há muito ali a ser descoberto. As falas não legendadas, por exemplo, são muito engraçadas para quem entende hebraico moderno (é o caso das cenas de alfabetização do menino); e o iídiche do prólogo é naturalíssimo, sem sotaque dos EUÁ. Isso para ficar na questão do idioma. Outro ponto é o paralelo com “No Country For Old Men”, cujo personagem principal — na minha visão heterodoxa — é um anti-herói que, aparentente, se dá bem; enquanto em “A Serious Man” trata-se de um homem honesto que só quebra a cara. Extremamente vetero-testamentário: Deus muitas vezes manda pirlimpimpim (argh, de onde tirei isso) sobre os maus e faz chover a cântaros sobre os bons, aquela coisa toda. O paralelo maior, entretanto, é a questão da ‘arbitrariedade’ do destino — a realidade como deserto de indiferença — e a liberdade humana (como na recusa da mocinha, numa das últimas cenas do filme anterior, de jogar a moeda que decidirá a respeito da sua vida, momento supremo de fidalguia). Mas Larry Gopnik de “A Serious Man” entra para o rol de ‘personagens esféricos’ ao praticamente ficar com o proveito do suborno recusado…

Que fica por ser explorado no cinema de Ethan e Joel Coen? Difícil imaginar uma saída; ao que parece, esgotaram magistralmente as suas possibilidades de roteiro, produção e direção com este último. Meu chute, todavia, é que o futuro ainda nos reservas surpresas. Supera o meu talento e minhas energias escrever uma crítica sobre o filme. Por aí sobra gente mais competente do que eu. Mas assistam-no e considerem as seguintes questões de fundo e de forma: a) é possível obliterar a distância entre o roteiro e sua realização (neste caso, não parece haver uma história e uma realização, mas uma coisa só)?; b) Deus escreve em hebraico, com ou sem sinais massoréticos (MT ou Tanakh), I mean, haveria algo que LER na realidade (Tomás de Aquino diz que sim; e com isso os Coen parecem concordar de um modo velado e irônico)?; c) nosso destino está traçado de antemão?; d) deve o homem justo sofrer em silêncio?; e) paralelos entre Gopnik e Jó, etc.

Há uma espécie de inteligência, como comentei num post anterior, que supera a erudição e a capacidade de raciocinar e argumentar. E só ela pode tornar um homem feliz; ou ao menos mostrar a ele que há, sim, um caminho justo. É possível transmiti-la através da arte fazendo uso da ironia e sem necessidade de um tom apologético (é o que o filme prova).

* * *

Há menos de um ano estive perto de conhecer Reuven Yaron, um jurista judeu que escreveu sobre meu tema de doutorado (cito um trecho da Mishnah משנה e precisava de ajuda; nunca consegui). Um dos personagens do filme me lembrou de alguém que é minha ponte com Yaron na Alemanha: o Prof. S. K., um judeu simpaticíssimo que estuda Leibnitz e lógica matemática, lecionando numa idílica cidadezinha bávara . Pois bem: quando terminou o filme, fui atrás do e-mail dele, mas uma forte chuva começou. Daí caiu a luz.

Postado por julio lemos, postado em 6 de março de 2010 at 19:25, filed under Cinema. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.

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2 Comments

Manda bala

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