Vivem me pedindo conselhos envolvendo o que o vulgo esclarecido chama de ´maturidade nas relações´, uma mistura indigesta de duas coisas odiosas (a saber, ‘maturidade’ e ‘relação’ — lembrando que é muito pior ‘relação interpessoal’, já que, indicando o contexto que se trata de pessoas, o ‘interpessoal’ definitivamente sobra delícia). Além de não acertar nos conselhos dados a mim mesmo, costumo cometer o crime de os dar a quem quer que mos peça. Não raro o arrependimento me vem bater à porta.
Mas as relações existem — embora o foco deva ser não as relações, mas as pessoas — e a maturidade não é palavra vazia. De nada importa o ridículo no soar das palavras, como venho repetindo há anos: amorrr, maternidade, casamento, fidelidade, mousse de maracujá. Nossa estupidez às vezes é tanta que deixamos de considerar um assunto por trazer consigo uma carga aparentemente reacionária ou indigna do nosso status de pessoas descoladas. A realidade tem um sentido que transcende o ridículo e o coolness — e fugir dela é, de qualquer modo, o que há de mais ridículo na fas da terr. Por isso o primeiro passo, sempre, é jogar para o alto os preconceitos das massas e adquirir um pouco de fidalguia e independência intelectual (o que, cá entre nós, é algo cool e charmoso).
Subseqvente é a questã — eis a questã — dos gostos e desgostos, que os traficantes lá da Augusta chamam “pegas e não-pegas”, rigososamente lógicos e conseqventes que são. Um relacionamento é, antes de mais nada, um vínculo; e um vínculo que, tendo sido criado por entes racionais, procede de uma escolha. Ela pode ter sido motivada em parte por um impulso irracional; mas esse impulso não é a sua substância. A sua natureza é sempre voluntária, fruto de pessoas livres. Isso é tão óbvio — após 2400 anos de debates com similar conclusão — que muitas vezes me vejo apontando para pessoas que não o compreendem, dizendo: “isto não é um homem, isto é um celenterado”. Obviamente há o direito de discordar (só lembrando que argumentos irracionais sempre excluem uma pessoa de um debate).
Por isso um relacionamento – argh, eca – maduro é, antes de mais nada, um relacionamento entre pessoas inteligentes e conseqventes, que não estão ao sabor dos gostos, humores e vezenquãs sim venzenquãs não, essas coisas fofinhas e muita vez babacas. Isso requer treino e disciplina — o que não é difícil e nem demasiado doloroso. A vida é sempre mais difícil para os caprichosos.
When full of whim, / heavyburden’d till death shall he be, etc
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De qualquer modo, nem eu me levo a sério. Palavras pesadas como “disciplina” e “trabalho” também me assustam hein.
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Segunda-feira cinza em São Paulo; rodeado de paulistanos simultaneamente agitados e melancólicos. Sinto-me uma pessoa comparativamente realizada nesse ambiente soturno. Ame as segundas-feiras e o problema do sentido da vida estará resolvido (NOT).
Se vocês esquecerem que sou humano saio dando tiros aí ni vocês.
Postado por , postado em 1 de março de 2010 at 19:33, filed under Handlung and tagged wendigo. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.


raurrr
Disciplina! Trabalho! Relacionamento! Família! Amorrrrr! Casamento! MOUSSE DE MARACUJÁ! GROARRRRRR!
Se você quiser um revólver emprestado…