O franzino que, de tão puto que estava com a sua inferioridade física, encontra forças para afugentar um Hooligan; o rapazinho vulnerável, outrora tão seguro dos seus sentimentos, que termina o namoro com a Srta. Loveless, deixando-a incapacitada para suas ocupações habituais por mais de 30 dias (lesão corporal grave no coração); o borderline retardado que passa no concurso para Delegado; o jornalista que brilha como escritor de clássica estirpe; eis os membros secretos da aristocracia do paradoxo.
* * *
Queremos em uníssono que a vida siga o seu curso esperado. Compomos hinos de execração ao paradoxo naquele latim vulgar de 800 d.C, cheios de longas palavras terminadas em -tio e -ptio declinadas no ablativo, tecidos segundo os princípios da retórica vazia, enfeitados com a gloriosa pompa dos pronomes de tratamento compostos.
Mas não, meus senhores, não o afastaremos nunca da nossa matemática (por não-euclidiana que seja).
Nessa linha, escreveu Gomez Dávila, campeão de menções honrosas no presente espaço, que o mais sensato, no que diz respeito à História, é confiar em milagres e desconfiar dos planos; abdicar, enfim, do controle (da fíbula ao metacarpo).
Aos poucos aprendemos que as coisas só saem na base do milagre. Os instáveis e inseguros aprendem a neles confiar (nos milagres); e isso os faz mais fortes do que os humanamente confiantes e aparentemente vencedores – e aprendemos, não sendo por natureza inseguros, a respeitar os primeiros como se fossem modelos de comportamento bem-sucedido. Tudo por baixo dos panos, misteriosamente, como senhores que admiram seus escravos (e que, se pudessem, certamente gostariam de lhes tomar o lugar).
O reino do infindável em profundidade e extensão — o reino dos Inseguros.
Postado por , postado em 26 de fevereiro de 2010 at 7:14, filed under Handlung and tagged insegurança, matemática foda, milagres. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.


Bonito pra cacete isso! Veja porque: a última das “teorias” vedantinas, a de Caitanya, coloca o paradoxo como “coisa de Deus”, é o acintya-bhedâbheda (a igualdade e diferença inconcebíveis, e simultâneas). Bem, isso quebra o princípio aristotélico, por certo, mas quem disse que Deus segue a lógica de Aristóteles?! (E olha que sou fã do Estagirita!)
E agora, Julio, tenho encontrado este mesmo approach (!) na… matemática védica.
É mole?! São os mistérios do Infindável, meu caro…
matemática védica? cáspite!
Um sujeito aqui do interior estava para ir para São Paulo fazer sua inscrição para um concurso de Juiz Federal da 3a. Região, no último dia. Estava tudo decidido, mas na véspera seu coração encheu-se de dúvidas quanto a ir ou não. Passou o dia todo numa terrível tensão, num should I stay or should I go pavoroso, com angústias quanto à conveniência de ir ou não já que tinha pouco tempo para estudar, sem saber se o caminho do concurso que lhe subtrairia até o último grama de energia se quisesse passar mesmo era o caminho que de fato queria trilhar, etc. À noite sobreveio um temporal medonho em nossa cidade, houve black-out total. Era à meia noite que iriam partir (700km até São Paulo), ele e seu companheiro motorista. Às dez horas o interfone tocou, era o companheiro, veio lhe dizer que não poderiam mais ir porque seu pai tinha caído da lage onde consertava antena parabólica e fora hospitalizado. Embora estivesse tentando respeitar a quaresma, desistiu e acabou sua noite num bordel de estrada coberta por bruma densa, com muita cerveja e tequila. Algo misterioso o impediu de ir, ou era só a sua insegurança?
Hmm acho que algo mysteriosso
é, bem