“Só encontra o sentido, esse vizinho inatingível”, disse ela, “quem enfrentou a sua ausência de modo prolongado”.
Culturas antigas — pensem nos ameríndios, ou não pensem — proveram rituais, rotinas, costumes; eram ‘habitualidades de sentido’ cristalizadas em formas sociais, no sentido mais radical do termo. A figura do líder tinha sempre a grave tarefa de não mexer com o fundo das coisas, mantendo implícita a sua absoluta ausência de questionamento (sejam quais forem as doutrinas em voga sobre os tabus). É um dever moral, um escudo contra a dissolução, a decadência, a corrupção. Esse mesmo personagem transmitia, com segurança, o mencionado senso de dever aos mais jovens. Assim o sentido entrava na tradição.
As sociedades pós-industriais (com o perdão do termo) continuam insistindo na mesma idéia; a tarefa, contudo, se tornou muito mais árdua: o trabalho, os ciclos institucionais, as superstições dificilmente dão conta de dar a cada um a sua parcela de sentido. Basta conhecer o Japão; é entrar numa universidade, formar-se, entrar numa empresa, casar-se, ter filhos e envelhecer. E depois? E depois? Qualquer um que questione esse ciclo radicalmente acaba por se isolar: “não quero entrar nesse barco furado no qual meus pais entraram”, dizia um estudante anônimo. E então jogar videogames e receber o sushi por debaixo da porta. O entretenimento é aí encarado como atitude de contestação, embora se saiba que a infelicidade da diversão eterna é maior do que a produzida pelas rotinas socialmente fixadas. O entretenimento se torna então o centro para o qual tudo converge, fonte inextinguível de tédio e desejos não atendidos. Moda, música, jogos, sexo fácil, comportamentos de massa — incluso o sentir-se parte da minoria da minoria e lograr entrar para o menor rebanho do universo – fringe religions, compras, fusões, incorporações, joint ventures.
A gente ama tanto que precisa ir fazer compras. A ausência da vírgula é proposital (find the missing coma! it’s a game!).
Postado por , postado em 1 de fevereiro de 2010 at 9:42, filed under Filosofia and tagged sentido, vazio. Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.


Eu ia comentar exatamente o missing coma.
a diversão só funciona pelo contraste, em suma. deixo a mão gelando na bacia do trabalho e da rotina para que ela sinta algo ao ser mergulhada em qualquer tina de diversão.
Essa discussão de sentido e ausência de é sempre mui pertinente. digo isso com certo pesar porque afinal discutir sentido só se torna relevante quando se percebe mesmo a ausência dele. Posso estar parecendo redundante (e a redundância não é uma insistência do sentido? bobagem), mas acho que isso demonstra bem o quanto o tema se aproxima do binarismo da linguagem (sentido / não-sentido…eu funciono nesse sistema ou não funciono… isso ao infinito).
E isso tá bem no começo do post, por sinal. E sim, o sentido se cristaliza quando é ritualizado mas nada nem ninguém pode me afirmar que o “homem arcaico” realmente sentia que fazia sentido ritualizar. A estrutura nunca vai ser o fundo último das coisas. Levi Straus e sua falta de eu unitário, sua capacidade de fazer-se sistema, toma muito pra este lado, mas e o pensamento realmente selvagem? no meu particular penso muito no processo de individuação junguiano (nao individualização) pras coisas terem sentido. E lembro o mircea eliade, sabe, falando sobre como não percebemos a nossa forma de hierofanizar a vida. muita gente pensa que arquetipos são padroes estruturais mas não são. e eu sei que essa divagação aqui mostra as rachaduras do meu proprio discurso mas é sempre a forma de roer até o osso o encontro com o sentido. O sentido é um lugar sagrado, ui, muito sagrado…tanto que deve ter interditos pra chegar nele puramente. o sentido no fim é um pouco impuro, talvez. bem nem sei mais, ah…sim, o lance da quebra com o sistema, o menino que decide ir jogar video game (me faz lembrar O Iluminado na cena do muito trabalho e pouca diversão fazem de jack um bobão…) é justamente o centro do argumento de que o humor (e nele todas as suas nuances…sendo principalmente aqui o humor da carnavalização) é uma ferramenta de alteridade para a construção do sentido. A quebra é tão constante que mesmo carnavalizar tornou-se um ritual vazio…o riso, o riso nervoso, derrisório, obsceno como a senhora D. aff…tasquei as digitais nas teclas. Vai fazer falta os posts diários, júlio.
Assistiu “Hanami: cerejeiras em flor?”. Toca na questão do Japão.
Comentário melhor que o post, Daniela. Valeu por gastar as digitais.
E morram esses emoticons automáticos. : )
Garçom! Traz uma Brahma.
È mesmo, a Daniela, caprichou!. Discupe meu português, näo sou brasileiro… (sou estudante da língua). O qué acontece com essa gente (os que fizeram o desfile ou pularon, etc) depois do Carnaval?… cuando esas pessoas començam a “enfrentar a sua ausência de modo prolongado (só tem o ano que vem)”?
José, prefiro uma Stella Artois, se é que tem ahí no Brasil…
Rod, totalmente welcome. Vc não é o cara da história né? I’m sure, totally (valley girl accent). E sim, felizmente temos Stella Artois por aqui, em qualquer lugar.
Brahma, o Ser-Supremo. De onde tem-se Bar Brahma, o logradouro essencial. Ou Brahma Extra – não confundir com Âtman, que tem gosto de Kaiser (e aí a gangue do René te pega na saída).