juliolemos.com | kosher mathematics

Cave canem

Uma das delícias do G.U.R.P.S. Cyberpunk era meter para dentro do role-playing os mano que invadiam computadores. Quando mestrava G/S, fazia questão de mapear toda a rede de computadores de NY; e ai dos PCs (=playing characters) a isso aptos que não se arriscassem a quebrar senhas e a serem persistentes quando o carrier se perdia: era impossível cumprir a missão. Meus mapas, em folhas A4, com quadradinhos minúsculos representando terminais, se perderam; mas não a nostalgia do sonho -o sonho de quem de dia consumia literatura de ficção científica e tentava todas as combinações de configuração possíveis da BIOS do meu 486 com 2MB de RAM a fim de fazer a coisa entrar nos trilhos, e de noite lia o “Livro do Desassossego” e pensava em poltronas e lareiras longínquas, casa de avô, navios, boa tipografia, garotinhas ruivas e seu horror à cultura pop, e de madrugada escrevia um memorial ridìculamente inspirado no do Cons. Ayres.

Eram tempos de G. G., o formoso e timorato rapaz de mesmo bairro e escola, sofrer o pior tipo de bullying: o integral. Como era molenga, empurrávamos o rapaz na piscina, que dali não conseguia sair. Não é brincadeira: ele não conseguia sair da piscina. Óbvio, não sem a escada, que lembrávamos de retirar antes do empurrão. Passar três horas na piscina pode ser divertido, se o passatempo é voluntário. Mas G. não tinha o que fazer, porque estava sozinho e era desprezado.

“Fica aí, já já a gente recoloca a escada; ou então cê tenta sair, vai, sua bicha, faz um esforço”.

Outra nostalgia é com a central de observação de objetos voadores não identificados (não identificados por nós; e voluntariamente, porque o ceticismo, nessas horas, era um balde de água fria para quem queria se enganar e se divertir -perspectiva a evitar). Nunca vimos nada de estranho. Com exceção de gárgulas. Gárgulas com asas, como aquelas posicionadas no alto da fachada da catedral de Notre Dame. Wingèd beasts ao redor da torre de transmissão da TV Globo.  Mas gárgulas voadoras não são extraterrestres, são? Têm mais de intra (libros) do que de extra o que seja. Mas o que intentávamos era justamente encobrir o intra.

Eu mencionei o Charlie Brown? Mas é para falar do tempo que gasto com essas memórias -mais tempo escrevendo-as, é verdade, do que com as vivenciar. Sempre relutei em vivenciar; sempre preferi viver. Mesmo que a perder de vistas o que é bom e importante. Porque viver é preferir as marginalia, meu, é ser comentador (não comedor), ou pior, glosador. Do tipo mais obscuro, que nunca rabisca os livros que tem porque “os grifos do momento nada valem em contraste com os grifos paralelos  que poderiam ser” (provavelmente a pior frase que ocê vai ler em muito tempo, se costuma evitar, como sói, os progressistas e os companheiros).

E uma conseqüência de não vivenciar é esquecer. Consumir sistemas hídricos inteiros de informação sem nada reter de essencial. Qual era o plot mesmo de ET – O Extraterrestre? Num sei. Me diz aí, em linhas gerais, o que acontece em Badlands, um dos filmes de que cê mais gosta. Num sei. Quantos artigos tem o Código Tributário? Num sei. Quantos versos tem em média um canto da Commedia, que cê leu trocentas vezes antes, sequer, de ter sido alfabetizado em italiano? Num sei. Qual é o verbo grego para “cavar um buraco perfeitamente circular”, que cê conferiu mais de oito vezes no Liddell-Scott? Num sei. Quais os nomes das garotas mais importantes na fila de trás, na seqüência? Cyn., P., M. Ca., E., B., C., D., V., L. A., M., M. C., L., L., A., L. Ou seja, num sei, porque ocê pensou e num falou, uai. Quantos poemas do Auden cê decorou? Num sei. E do Pessoa? Num sei. Como cê escreveu tantos artigos, sobre assuntos tão díspares? Num sei. Por que todo mundo diz que cê é superdotado? Num sei. Cê fez teste de Q.I.? Num sei. Qual era o nome daquele professor de Português que disse ”eta menino assombroso”? Geraldo. Parabéns. O mais improvável cê lembra.

Tudo o que é irrelevante está no meu coração, i. e., eu sei de cor. (Minha persona literária: aquela que tem a impressão de que as mulheres têm a impressão de que meu dinheiro é infinito).

* * *

Vamos, meu, queremos algo relevante.

Era uma vez um cachorro que atendia pelo nome de Paulo. As crianças apelidaram-no “Espantalho” -não porque fosse amarelo, despenteado ou assustador, mas porque adorava espantar todas as coisas, muitas das quais sem sucesso; e porque tinha um sorriso morto em decorrência da frustração.

[Se alguém duvida da frustração dos cães, faça o 'teste do biscoito'. Não há cão que não adore um biscoito. Tire um biscoito do pacote e dê a ele. Ele pode comer ou não. O fato importante é que ele vai cobiçar não o biscoito saído do pacote, mas sim o biscoito dentro do pacote. A brincadeira de nunca deixá-lo ver o que há lá dentro, exceto pelas fragmentárias e "a-perder-a-identidade-ao-sair" amostras exteriores, deixá-lo-á mesoclìticamente frustrado, i. e., torturado a não mais poder, entre a fome, a sua/seu self-restraint e a curiosidade com o conteúdo que, quando visto, deixa de ser conteúdo visado e/ou desejado (a distinção é entre a volição intelectual, possuída também pelos cães, e a volição impregnada de saliva) para ser um biscoito imbecil. E por isso Paulo era frustrado, tão frustrado quanto G. G.].

Mas era o que ele fazia, para espantar toda a sorte de coisas.

O Espantalho latia, latia a não mais poder, a cabeça e os olhos na posição de quem encara um fantasma. Era esta, ao menos, a impressão do observador deslocado. Para a terceira pessoa, a voz narrativa, o cão, na verdade, latia para seu passado.

Ele vira-se para o passado e late, gane, chega a balir, até a rouquidão, até a afonia.

Um cão triste e afônico. Eis algo relevante. 

Postado por julio lemos, postado em 8 de agosto de 2011 at 14:57, filed under Caolhices, Geral and tagged , . Faça bookmark de permalink. Siga os comentários RSS feed for this post.

|LinhaTemporal|

2 Comments

Manda bala

Comente ou dê trackback do seu site. Assinar esses comentários.

:

: