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	<title>Feliz Nova Dieta</title>
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		<title>Lógica e mistério</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 21:45:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Muitas vezes o que garante o sucesso de uma pessoa (sucesso aqui = excelência) é, além do talento, o exercício de atividades muito diferentes da, e até aparentemente incompatíveis com, a atividade principal.
Um exemplo que me veio como que por insight, até agora desprovido de uma boa explicação racional, é a ligação entre o estudo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muitas vezes o que garante o sucesso de uma pessoa (sucesso aqui = excelência) é, além do talento, o exercício de atividades muito diferentes da, e até aparentemente incompatíveis com, a atividade principal.</p>
<p>Um exemplo que me veio como que por <em>insight</em>, até agora desprovido de uma boa explicação racional, é a ligação entre o estudo da lógica e da matemática e o ato de escrever. São poucos os escritores que conhecem essas matérias, ou que ao menos as têm como <em>hobbies</em>. A lógica &#8216;intuitiva&#8217; dá conta do mínimo necessário para um escritor, e aliás para qualquer pessoa; de que serviria um estudo aprofundado, tanto quanto possível, da lógica formal? O único bom escritor de que me lembro agora &#8212; deve haver muitos outros &#8212; que estudou lógica matemática foi David Foster Wallace, mais conhecido no meio hip nojentinho como DFW. Se desprezo a grande maioria dos fãs desse cara, não é verdade que também despreze DFW ele-mesmo (assim como fãs de The Doors e Velvet Underground são insuportáveis, enquanto a música das bandas referidas é OK).</p>
<p>A lógica não explica a relação bom escritor -&gt; estudar lógica, principalmente porque essa proposição é quase sempre empiricamente falsa; e mais falsa ainda se pensarmos A &lt;=&gt; B. A única coisa que poderia provar meu <em>insight</em> seria a repetição de experimentos bem sucedidos, e isso não me interessa.</p>
<p>A razão que me parece ter validade é paradoxal. Os estudantes de exatas e muitas vezes também os filósofos costumam escrever mal. A lógica é pouco poética em sua atitude metodológica: as tautologias e análises endurecem o espírito, [Oxford comma prosódica] e o rigor proposicional abomina as alegorias e a abertura analógica. Pois bem: passados em revista esses terríveis <em>sed contra</em>&#8230; vamos às razões.</p>
<p>(i) Conhecer os abismos do rigor e da necessidade ajuda a pensar sobre o terreno quase infinito da criatividade e da contingência do mundo exterior. O contato com o negativo (o não-ser) é um auxílio poderoso no processo de compreensão do positivo, do lado luminoso, aberto em possibilidades, do ser.</p>
<p>(ii) Apesar de aparentemente rigoroso, o espaço lógico exemplifica, por generalidade, as múltiplas possibilidades do real, e a superioridade deste sobre o pensado.</p>
<p>(iii) Wittgenstein, um dos maiores lógicos e filósofos do século XX, foi acusado &#8212; com razão &#8212; de se meter com o místico e comprovadamente levou uma vida poética. O rigor quase matemático do <em>Tractatus</em> serviu de ponto de partida, mesmo <em>contrario sensu</em>, para sua obra posterior, classificada, com razão, de complexa, polivalente e arredia à matematicidade estrita. (Wittgenstein, não sei se isso pesa em favor da minha tese, desprezava a matéria &#8220;Fundamentos da Matemática&#8221;).</p>
<p>(iv) A morte de Dante Alighieri, que será muito lido nos séculos seguintes, coincide com os primeiros passos da escolástica decadente e sua crescente obsessão com a lógica formal. Dante era um grande expert &#8212; para os padrões da época &#8212; em lógica e filosofia aristotélica (tendo estudado a primeira, provavelmente, num colégio dominicano chamado Santa Maria Novella).</p>
<p>(v) Como os melhores artistas modernistas do séc. XX chegaram a ser o que foram? Chutando o pau da barraca? Não. Aplicando-se com rigor à técnica e à escola clássica. Picasso era um excelente desenhista figurativo e realista.</p>
<p>(vi) Os matemáticos trabalham com a imaginação e o concreto. Teorias abstratas &#8212; a matemática é a mais abstrata das ciências &#8212; surgem freqüentemente de imaginações tresloucadas e da observação (propriedade de insofismável presença nos escritores) de ocorrências da natureza: o movimento aparentemente caótico das abelhas, a alternância das patas no modo de andar dos cães, a estrutura das árvores, raízes e folhas, o trânsito de veículos, etc. E o que dizer do sentido contrário? Seriam as implicações lógicas, o cálculo proposicional e a demonstração de teoremas boas inspirações para narrativas e descrições?</p>
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		<title>The wisdom of Hashem</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 19:10:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Kieslowski chamou uma cena de Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovsky, de &#8220;milagre&#8221;. Não vou dizer que cena é; assistam ao filme inteiro.
O longa foi sendo filmado aos poucos. A intenção de Tarkovsky não era rodar um filme pesado ou tenso. Mas as circunstâncias não ajudaram: até de longe, os soviéticos continuaram a tentar transformar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Kieslowski chamou uma cena de <em>Nostalghia</em> (1983), de Andrei Tarkovsky, de &#8220;milagre&#8221;. Não vou dizer que cena é; assistam ao filme inteiro.</p>
<p>O longa foi sendo filmado aos poucos. A intenção de Tarkovsky não era rodar um filme pesado ou tenso. Mas as circunstâncias não ajudaram: até de longe, os soviéticos continuaram a tentar transformar a vida do diretor em um inferno. Não permitiram que seu filho o acompanhasse. E nem que viajasse a seu bel-prazer. A saudade dos seus &#8212; o filme foi rodado inteiro na Itália &#8212; e a dificuldade de locomoção acabou por se derramar sobre o filme: &#8220;Irrespective of my own theoretical intentions, the camera was obeying first and foremost my inner state during filming&#8221;. Até que, finalmente, não uma nostalgia teórica &#8212; o tema do filme &#8211;, mas a própria nostalgia não intencional de Tarkovsky tomou conta da sua alma e o resultado é o que vemos na edição final, patrocinada pela RAI TV e pela Sovin Film de Moscou.</p>
<p>Como todos os outros, sem exceção, filmes de Tarkovsky, trata-se de um filme difícil. Mas um fato será notado ao longo do treinamento ascético necessário para apreciar o cineasta que é para mim (e para Bergman) o maior de todos: se tomadas ou seqüências demoradas são normalmente chatas, o mesmo não ocorre quando elas são <em>realmente longas</em>.</p>
<p>A vida é feita de planos-seqüência de mais ou menos 15 horas, se excluímos os sonhos. Se aprendemos a contemplar o que vemos, nada é chato. O tédio é ou o resultado de uma alma que se esforça por aprender (e ainda não aprendeu) a viver (meu caso, espero) ou então produto de uma pobreza espiritual quase irremediável. O primeiro tipo de tédio é comum e positivo; o segundo é um sinal de alerta, pois está quase definitivamente associado ao desespero. Todos experimentamos o tédio; mas nosso futuro depende fundamentalmente da nossa atitude diante dele.</p>
<p>Pois bem: os longos <em>takes </em>e seqüências de Tarkovsky são um sinal de esperança, no melhor sentido da palavra. Eles captam o mundo como ele é: misterioso, denso, mas sempre anfibológico (simultaneamente opaco e aberto à experiência). Olhe ao redor; não é isso o que você vê? Toda a gnoseologia, a teoria do conhecimento, surgiu dessa ambigüidade, dessa dúvida. Sem mistério não há sequer a filosofia dos céticos. Até os agnósticos &#8212; e eu sou um agnóstico, em certo sentido &#8212; estão envoltos em mistério.</p>
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		<title>Not enough silence</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jul 2010 17:22:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como disse há um tempo, rola um pouco de death metal nas bancas de doutorado das melhores faculdades (e às vezes um pouco de black metal norueguês). Uma vez assisti a uma defesa de doutorado em que os primeiros 10 minutos foram marcados por uma ausência completa de elogios &#8212; sabemos que é costume elogiar um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como disse há um tempo, rola um pouco de death metal nas bancas de doutorado das melhores faculdades (e às vezes um pouco de black metal norueguês). Uma vez assisti a uma defesa de doutorado em que os primeiros 10 minutos foram marcados por uma ausência completa de elogios &#8212; sabemos que é costume elogiar um pouco para só em seguida, preparado o terreno, partir para as objeções. E sem tempo para que o candidato pudesse anotá-las; tudo muito bem calculado para provocar <em>havoc and destruction</em>. Ao final o candidato nem entendou como foi aprovado. Mas eu entendi. O show acaba e os headbangers voltam felizes e embriagados para as suas casas e dizem boa noite para a vovó e para seus ursinhos de pelúcia.</p>
<p>A fórmula acadêmica é: terror, terror, terror, e depois aprovação.</p>
<p>Quase tudo na vida é sofrimento temporário &#8212; antes que possamos pensar na dor que sentimos, a coisa se vai. A dor é sempre uma expectativa. Dia desses fui fechar o portão do prédio e meti o cotovelo, naquela partezinha &#8216;por favor não encoste nada aqui&#8217;, no trinco. A coisa parece que entrou até o osso. Depois passou. Mas se me dissessem: &#8220;por favor, me dá o seu cotovelinho aqui que eu lhe vou aplicar uma leve bordoada com esse trinquinho de ferro&#8221;, eu sairia correndo. Numa cena de <em>Andrei Rublev</em>, um mártir é torturado até a morte com essa técnica de antecipação: os instrumentos são mostrados, muitas palavras são gastas a fim de dar um ar infernal de sofrimento à ocasião. Isso é sofrimento. Mas depois o sujeito morre e está em paz (presume-se).</p>
<p>Uma vida de antecipações, planos e frustrações e blump, agonizamos por 3 minutos e lá se vai o miocárdio. Para que tanta antecipação? Afasta esses pensamentos. A vida vale mais para o é do que para o que será. A memória potencializa e aprofunda o presente, humaniza-o. Mas só o presente é <em>poiésis</em>, criação. A potencialidade existe para actualizar-se.</p>
<p>&#8220;A juventude precisa de silêncio&#8221;, disse Andrei Tarkovsky. O diretor passou um tempo na Sibéria numa expedição geológica, e seu contato com o silêncio e a natureza lhe deu alimento para todo o seu trabalho posterior, quando se tornou cineasta. Silêncio não exige votos; não exige sequer pouco contato com as pessoas; não exige ausência de ruídos. Exige parar e pensar. Pode-se passar uma vida em completo retiro e não se experimentar, por um segundo que seja, o silêncio. Ele é uma atitude, não um lugar e muito menos ausência de ruído ou comunicação.</p>
<p>É mais que evidente que o modo pan-urbano de estilo de vida dificulta as coisas. Por isso eu e uns amigos fizemos muitas excursões ao redor de São Paulo e de Londrina. Recordo-me de uma em particular, na zona rural cultivada ao redor de Londrina, num &#8220;patrimônio&#8221; (um nome local para uma forma jurídica de pequena municipalidade) do qual não me recordo o nome. Estudamos um mapa cedido por um instituto geográfico &#8212; um mapa exato e bastante técnico &#8212; e traçamos uma rota. Saímos muito cedo. Andamos, eu e mais dois, por muitos quilômetros até chegarmos a uma fazenda que parecia abandonada. Em dado momento como que nos perdemos, talvez de propósito. Fiquei só, observando antigos utensílios agrícolas, armazéns abandonados, detritos e árvores estranhas. O caminho parecia não levar a lugar algum. Não sei porque, esses momentos nunca me saíram da memória, como se constituíssem uma experiência &#8216;mística&#8217;. Pensei em voltar muitas vezes, mas deliberadamente nunca mais voltei.</p>
<p>Ali estava o silêncio, e ali deveria ficar.</p>
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		<title>Grażyna Szapołowska</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 14:19:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[matemática foda]]></category>

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		<description><![CDATA[Kieslowski realizou duas versões do mesmo filme: aquele que integra a sexta parte do Decálogo (Dekalog, sześć, 1989), para televisão, e o longa Não Amarás (Krótki film o miłości, 1988). Embora tenham durações diferentes (este último tem 86 minutos) e finais diferentes, a história e os takes são praticamente os mesmos.
Raramente alguém acertou tão bem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Kieslowski realizou duas versões do mesmo filme: aquele que integra a sexta parte do <em>Decálogo </em>(<em>Dekalog, sześć, </em>1989), para televisão, e o longa <em>Não Amarás </em>(<em>Krótki film o miłości</em>, 1988). Embora tenham durações diferentes (este último tem 86 minutos) e finais diferentes, a história e os takes são praticamente os mesmos.</p>
<p>Raramente alguém acertou tão bem a mão ao fazer um filme sobre o amor platônico. O filme &#8212; eu prefiro a versão estendida &#8212; pode ser visto em várias fases da sua vida sem perder a importância, sempre ganhando em significado, em sentido. O roteiro é simples, com toda aquela &#8216;unidade de ação&#8217; aristotétlica: o jovem Tomek passa seus dias observando a vizinha Magda, de início instigado pelo amigo Marci, com intenção &#8216;juvenil&#8217;, e depois, segundo ele, porque estaria apaixonado por ela. Além disso, sendo carteiro, deixa em sua caixa postal avisos falsos a fim de vê-la e, mais tarde, trabalha como leiteiro para poder entregar leite à porta de Magda. Eles acabam tendo uma conversa, na qual Magda toma conhecimento da &#8216;espionagem&#8217;; de início o repele, mas em seguida lhe pede desculpas e procura conhecê-lo. Os dois saem juntos e depois vão ao apartamento dela. Quando Tomek experimenta um contato minimamente físico com ela, Magda diz: &#8220;isso é o amor, nada mais que isso&#8221;. Envergonhado, Tomek foge desesperadamente e tenta suicídio, cortando os &#8216;pulsos&#8217; numa bacia com água. Madga, vendo que ele não volta, vai até a casa de Tomek perguntar por ele; a mãe de seu amigo, que mora com ele, diz que não é nada, mas que ele terá de passar uma ou duas semanas no hospital. Mais tarde ela descobre que ele tentou suicídio, através de um funcionário do Correio, e sua obsessão &#8212; a sua paixão &#8212; por Tomek cresce. Os finais variam conforme a versão; omito-os aqui.</p>
<p>Ambos, Magda e Tomek, desconhecem o amor. Tomek o vê como uma admiração voyeur, e Magda não acredita nele, reduzindo-o ao contato carnal. A descoberta do amor, para ambos, vem do incidente. Ela o descobre vendo-o através dos olhos de Tomek; e ele, provavelmente, ao decidir não mais a espionar, na versão do <em>Decálogo</em>. No primeiro caso, a descoberta a leva a buscar o contato com Tomek; no segundo, a descoberta do amor leva Tomek a evitar Magda. O mesmo fenômeno leva a atitudes diferentes. É um desencontro trágico que se estende para além do filme.</p>
<p>O amor entre os sexos não é nem apenas contato carnal e nem apenas distanciamento &#8216;platônico&#8217;. No filme, o amor não se realiza exatamente por faltar maturidade para ambas as partes. No momento em que tem um contato físico com Magda, Tomek tem talvez a maior desilusão de sua vida: sua paixão se realiza bruscamente, de forma impura (aos seus olhos; mas objetivamente também, em minha opinião). A mulher idealizada &#8212; mesmo tendo Tomek consciência da sua forma promíscua de vida &#8212; se torna verdadeiramente uma prostituta. Tomek passa, de <em>voyeur</em>, a ser humano, a única experiência de amor de Magda. Cessar de existir é a única saída para Tomek. Mas Magda passa a existir nesse momento; na versão estendida, ela imagina, pela luneta do quarto de Tomek, uma cena em seu apartamento em que ela está desconsolada (Tomek a vira assim alguns dias atrás). E o imagina consolando-a. Vendo-a como Tomek a via, Magda desperta, ecoando a frase da senhora que vive com ele em seu apartamento: &#8220;no fundo, as moças preferem os homens suaves, [capazes de amar]&#8220;. Curiosamente, esse final foi sugerido pela atriz que faz Magda, Grażyna Szapołowska.</p>
<p>O amor pode ser descoberto pelos olhos do amante. Uma recorrência na literatura.</p>
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		<title>In memoriam DFW</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2010 00:23:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Handlung]]></category>
		<category><![CDATA[colhões]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>

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		<description><![CDATA[A grande dúvida dos filósofos da psiquiatria, entendendo-se por &#8216;filósofos&#8217; quem quer que qoloque em questão (qqqqq) as conclusões desta última: se a depressão é ou não um fenômeno uno (ou cujos efeitos se equivalem mesmo quando a estrutura que os produz é diversa em dois ou mais casos dados) e se ele pode ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A grande dúvida dos filósofos da psiquiatria, entendendo-se por &#8216;filósofos&#8217; quem quer que qoloque em questão (qqqqq) as conclusões desta última: se a depressão é ou não um fenômeno uno (ou cujos efeitos se equivalem mesmo quando a estrutura que os produz é diversa em dois ou mais casos dados) e se ele pode ser explicado meramente por causas exógenas ou endógenas. E, para os leigos, se a depressão é um fenômeno biológico ou psicológico; ou pior, moral.</p>
<p>Um fato: o nome &#8216;histeria&#8217; trouxe mais histéricos. Terá o nome &#8216;depressão&#8217; e a cultura, alta e baixa, associada a ela produzido mais depressivos? O velho caso da profecia auto-realizável, se pecamos por analogia; ou melhor, se a analogia é, aqui, um recurso válido. [Ou pior, ou melhor: bipolar].</p>
<p>A depressão é também um fato. Um fato histórico, biológico, jornalístico. Eu, que nunca a sofri, não sei o que &#8217;seja&#8217;, a não ser que possamos acessá-la (e também <em>access it</em>)<em> </em>pela imaginação (tenho-a, modéstia às favas, razoavelmente poderosa; nasci com isto e não posso negar). O que me parece é que uma certa cultura do não-sentido da vida tem contribuído para disseminá-la entre os melhores e os piores. Os meios de comunicação de massa; a fofoca; a superficialidade cultuada como <em>ultima ratio</em> do viver; o urbanismo; o fanatismo dos religiosos que mataram a religião; o ateísmo irresponsável; o agnosticismo piada interna; o Bozo.</p>
<p>Há os inautênticos, que buscam a depressão como a Dra. Silvana, advogada de sucesso, busca os óculos Channel. E há as pessoas sinceras de sempre, que a encontram sem a desejarem. Por fim, temos os confusos, que se sentem obrigados a ela porque no passado se sentiram obrigados à felicidade (os opostos se atraem; e aqui o problema é estrutural: o desejo, a obsessão, a dependência excessiva do parecer alheio geram males quase irreversíveis no âmbito da busca por felicidade).</p>
<p>Maturidade é aceitar a realidade e viver de decisões e não de sentimentos. Uma relação qualquer entre duas pessoas se mantém antes por amor (=decisão) que por paixão. Amor significa cultivar escolhas anteriores que surgiram do mistério (por incrível que pareça, decisões conscientes são mais misteriosas que a paixão, que se explica com curvas e orelhas). Para quem ama, não existe &#8220;isso vai mal&#8221;; existe o ser que se ama e a escolha de adesão a ele, e ponto final: essa é a realidade, e a realidade se respeita (as rebeldias são imersões na falsidade).</p>
<p>Os depressivos inautênticos vivem de sentimentos; os de verdade saberão respeitar escolhas e, se maduros, saberão ir adiante pela selva obscura. As pequenas decisões é que permitem encontrar o sentido perdido. Entenda-se: decisões que realmente poderiam ser desistências, mas não são. O necessário não é decidido; ele vem e acabou. Mas na vida, só o morrer é necessário.</p>
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		<title>אִיּוֹב</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Jun 2010 02:46:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moda]]></category>

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		<description><![CDATA[Que homens passearam pelo Velho Testamento? Homens de carne e osso ou homens desenhados em hebraico? Se o Sr. pensar bem, perceberá que esse é o problema da memória (da história inclusive).
Oi. 666. Don&#8217;t call me Job.
 ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que homens passearam pelo Velho Testamento? Homens de carne e osso ou homens desenhados em hebraico? Se o Sr. pensar bem, perceberá que esse é <em>o problema</em> da memória (da história inclusive).</p>
<h1>Oi. 666. Don&#8217;t call me Job.</h1>
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		<title>Overlapping fans</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 16:32:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Caolhices]]></category>
		<category><![CDATA[foi mal]]></category>

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		<description><![CDATA[A desordem irrita-me e deixa-me desanimado. Um empreendedor de nascença vê um apartamento destruído (e sequer é esse o meu caso) e diz: mãos à obra. A expressão nunca me sai. Penso, ao invés disso: mãos no bolso (para contratar alguém para ser empreendedor por mim).
Ainda vou terceirizar a Via Láctea.
* * *
Ela está chegando. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A desordem irrita-me e deixa-me desanimado. Um empreendedor de nascença vê um apartamento destruído (e sequer é esse o meu caso) e diz: <em>mãos à obra</em>. A expressão nunca me sai. Penso, ao invés disso: <em>mãos no bolso </em>(para contratar alguém para ser empreendedor por mim).</p>
<p>Ainda vou terceirizar a Via Láctea.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Ela está chegando. O sol da tarde não é prenúncio de nada; mas os cigarros em seqüência constituem um sinal de vitória.</p>
<p><em>Solyaris</em>, o filme de Tarkovsky, usa imagens de plantas aquáticas movendo-se à correnteza do rio para indicar o fluxo do tempo.</p>
<p>Vou comprar um aquário.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>A tragédia é muito. O mundo não nasceu para a tragédia; nós, sim. Exageramos, imaginamos, antecipamos. O sofrimento mais temível não existe fora da imaginação. Isso aprendi com S. Josemaría Escrivá, cujo dia se aproxima. Escrivá existe fora da imaginação &#8212; além disso, viveu, sofreu e foi homem.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Muitas vezes nosso maior valor está não em nós, mas no nós que vive nos outros. Em Deus? Em quem nos ama.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: left;">O primeiro passo para a liberação consiste em defender, ao menos por um dia, o Estado de Israel.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: left;">Even when I&#8217;m so far away, how close I am! To quote the Scriptures: to buy this Pearl, everything&#8217;s been sold.</p>
<p style="text-align: left;">Even Time and Space have been sold, o Lord.</p>
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		<title>Fatwa</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 13:55:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[xênios]]></category>

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		<description><![CDATA[Acontece muitas vezes: um homem sutil, inteligente e prudente no afirmar deita sobre o papel uma &#8216;teoria&#8217;, ou melhor, um conjunto mais ou menos coerente de observações relevantes, e logo em seguida um sem-número de discípulos continua o seu trabalho jogando para o alto as sutilezas, as nuances, o mistério &#8212; e junto com ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acontece muitas vezes: um homem sutil, inteligente e prudente no afirmar deita sobre o papel uma &#8216;teoria&#8217;, ou melhor, um conjunto mais ou menos coerente de observações relevantes, e logo em seguida um sem-número de discípulos continua o seu trabalho jogando para o alto as sutilezas, as nuances, o mistério &#8212; e junto com ele a &#8216;teoria&#8217; toda.</p>
<p>&#8220;Quer saber? Ele já esboçou uma rejeição da metafísica. Vamos terminar o trabalho. Nossa geração é mais corajosa&#8221;.</p>
<p>Eis a vantagem e a catástrofe dos jovens (dos xovens). Wittgenstein disse de William James: &#8220;That is what makes him a good philosopher; he was a real human being&#8221;. Alguns de seus discípulos mais afoitos acabam então por dizer: &#8220;Let&#8217;s cut this whole &#8216;human being&#8217; crap&#8221;; e seguem-se considerações tecidas estritamente dentro da terminologia filosófica do mestre. E aí vira festa.</p>
<p>Não digo nem que os &#8216;mestres&#8217; tenham sido ótimos seres humanos, e nem que esse negócio de &#8220;ser humano&#8221; não cheire mal. O fato é que, em homens realmente sutis, essa abertura não é nada piegas. Ela indica que estamos diante de alguém superior à média em todos os sentidos. Não sou contrário à filosofia &#8212; nem a qualquer outra disciplina &#8212; acadêmica. Só penso que esse desdém pelo conteúdo e pela honestidade intelectual parece sugerir mediocridade. Em outras palavras: deslocar o pensamento da sua fonte axiológica parece-me uma imprudência. Isso ocorre, por exemplo, quando consideramos Bach ou Mahler como gênios da técnica e desprezamos que aquela música tem um sentido; e que não poderia ser produzida por medíocres. Mesmo no serialismo há sensibilidade e conteúdo: veja Webern, Schoenberg e o inclassificável Witold Lutosławski (cuja obra, mais especificamente a <em>Muzyka żałobna</em>, até semana passada só conhecia dos livros).</p>
<p>Todo o drama do <em>Dr. Fausto</em> de Thomas Mann gira em torno desse eixo (estamos tontos e confusos até agora, eu e minha revisora).</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: left;">A tensão escatológica. Todo homem, no fundo, espera um acontecimento absurdo e mágico que aplaque a sua sede de eternidade. Esperamos que o evento ocorra aqui, e que a metafísica se traduza em fatos concretos, em catástrofes alienígenas &#8212; naves em forma de corneta, seres mais ou menos gigantes compostos por pixels coloridos, como vitrais de Gerhard Richter &#8211;, messias, boddhisattvas, seres de n-dimensões e tudo o mais que a ficção científica privada e inconfessável pode conceber.</p>
<p style="text-align: left;">Mas isso não vai ocorrer. Por definição, um evento escatológico foge à experiência dos sentidos. Em termos sensíveis, temos de nos contentar com <em>mais do mesmo</em>; e não há messias que vá resolver nosso problema. O interior de Saturno, por místico que nos pareça, é <em>mais do mesmo</em>, e essa seria a impressão de um viajante no tempo que voltasse ao momento do bang-bang, digo, Big Ben, merda, big bang. Não há nada de essencialmente novo sob o Sol. Aceita essa premissa, o mistério permanece. O mundo mental &#8212; a imaterialidade do pensamento, os subtis movimentos d&#8217;alma &#8212; ainda não é nada diante do mistério das coisas. E se um filósofo disser o contrário, tenha a certeza de estar diante de um medíocre.</p>
<p style="text-align: left;">
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		<title>printf(“oinc:”)</title>
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		<pubDate>Wed, 19 May 2010 17:29:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[matemática]]></category>
		<category><![CDATA[xênios]]></category>

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		<description><![CDATA[Fazer o que, a vida é mais interessante do que a Internet.
Retorno Espiral (Victor Lazzarini, piano e sintetizador; Guto Caminhoto, baixo elétrico; Eduardo Battistela, bateria; Wagner Nogueira, percussão), do projeto jazz-fusion Essência.
Isso é o que eu ouvia quando tinha uns 5 anos, na Sala de Estar Lado B (ou Número Dois) do apartamento dos meus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fazer o que, a vida é mais interessante do que a Internet.</p>
<p><a href="http://music.nuim.ie/mp3/retorno.mp3">Retorno Espiral</a> (Victor Lazzarini, piano e sintetizador; Guto Caminhoto, baixo elétrico; Eduardo Battistela, bateria; Wagner Nogueira, percussão), do projeto jazz-fusion <em>Essência</em>.</p>
<p>Isso é o que eu ouvia quando tinha uns 5 anos, na Sala de Estar Lado B (ou Número Dois) do apartamento dos meus avós, o Ed. Independência, em Londrina-PR, perto daquela catedral de gosto duvidoso. Quando compôs essa música, o irmão da minha mãe &#8212; o caçula geninho de cinco irmãos &#8212; tinha 15 ou 16 anos; o registro foi encontrado numa antiga fita K-7. Agora entendo de onde vem meu gosto estranho por música, e porque sempre admirei a mistura do clássico com o fuzzy: a sala ao lado, chamada Escritório, estava cheia de poltronas de couro, estantes, madeira escura e papéis de parede. Ali se podia ouvir música e assistir ao noticiário nos anos 70-80. A Cozinha ficava atrás do Hall de Entrada, acessada através da Sala de Jantar. Grande tristeza veio quando o apartamento foi vendido e trocado por um muito menos simpático e muito mais moderno. Ali morei por uns 2 anos, antes de me mudar para o Velho Oeste.</p>
<p>Alguns anos depois, ele compôs</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://music.nuim.ie/mp3/silencio.mp3"><img class="size-medium wp-image-877 aligncenter" title="silêncio partitura" src="http://www.juliolemos.com/wp-content/uploads/2010/05/silêncio-partitura-300x47.jpg" alt="silêncio partitura" width="300" height="47" /></a></p>
<p>para piano (no link da partitura, a Introdução, Fuga &amp; Passacaglia), uma peça difícil mas bastante audível, que nunca vi executada ao vivo. Vale a pena conferir. Dá pra ver que ele odeia Paganini (dá?).</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: left;">Poucos se interessam pela Teoria dos Números; a razão é que quase ninguém estudou isso no colégio, e no máximo de passagem numa faculdade de matemática. Por algum motivo &#8212; talvez por ser, no início, mais acessível e aparentemente menos complicada do que as demais áreas da matemática pura &#8211;, o assunto tem fascinado matemáticos amadores desde os tempos de Pierre de Fermat (1601-1665), um advogado francês (o sujeito conhecido por deixar um enigma anotado em sua cópia de um antigo clássico da matemática, a <em>Aritmética </em>de Diofante, o chamado teorema de Fermat, segundo o qual a igualdade x<sup>n</sup> + y<sup>n</sup> = z<sup>n </sup>para n inteiro, positivo e &gt; 2 nunca se verifica (sendo também x, y e z inteiros e positivos), o que só veio a ser provado nos anos 90), homem genial responsável por contribuições relevantes no campo do cálculo infinitesimal e da teoria da probabilidade.</p>
<p style="text-align: left;">Encontrei um livro interessante, <em>Excursions on Number Theory</em>, de C. S. Ogilvy, da Oxford U. Press (trechos <a href="http://books.google.com.br/books?id=efbaDLlTXvMC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=excursions+number+theory&amp;source=bl&amp;ots=3_k7Ve_90L&amp;sig=amFTzmUWdjDmdJwD9vbJq2RIJqY&amp;hl=pt-BR&amp;ei=LR30S4uNEYSglAeWrPiaDQ&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=3&amp;ved=0CCMQ6AEwAg#v=onepage&amp;q&amp;f=false">aqui</a>). Pode ser uma boa e acessível &#8212; inclusive no preço, em se tratando de um livro da Oxford &#8212; introdução a esse universo a um tempo desconhecido e familiar.</p>
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		<title>Gopala</title>
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		<pubDate>Sat, 08 May 2010 20:39:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>julio lemos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[modo foda-se :)]]></category>

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		<description><![CDATA[O tema &#8220;tipos de inteligência&#8221; não parece merecer um tratamento geral. Antes, pequenas e desconexas observações, Bemerkungen, que logrem mostrar problemas e modos de proceder.
Qualquer trabalho intelectual rigoroso exige foco, mesmo temporário &#8212; parte de um &#8220;nerdismo serial&#8221;, na expressão do talvez mais caro entre meus amigos &#8211;, e um colossal horror às escolas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O tema &#8220;tipos de inteligência&#8221; não parece merecer um tratamento geral. Antes, pequenas e desconexas observações, <em>Bemerkungen</em>, que logrem <em>mostrar</em> problemas e modos de proceder.</p>
<p>Qualquer trabalho intelectual rigoroso exige foco, mesmo temporário &#8212; parte de um &#8220;nerdismo serial&#8221;, na expressão do talvez mais caro entre meus amigos &#8211;, e um colossal horror às escolas de pensamento ready-made. São dois tipos de inteligência diferentes, aparentemente contraditórios mas, de qualquer modo, complementares. Provavelmente você só tem uma delas; e por isso deveria trabalhar para, tanto quanto possível, adquirir a que não tem.</p>
<p>Sobre o foco: não é possível trabalhar sem um objetivo; ou melhor, sem estar completamente tomado por uma obsessão com determinado tema. (Isso fez de Wittgenstein um dos homens mais chatos a pisarem em Cambridge; mas também um dos mais geniais). O foco é resultado, ou mesmo causa, em certo sentido(1), de uma paixão. Pois a paixão é das coisas mais &#8216;objetivas&#8217;, mais &#8216;dirigidas&#8217; que há (basta pensar no vocábulo inglês <em>drive &#8212; </em>surpresos?).</p>
<p>&#8220;Em tudo tem em vista o fim&#8221;, <em>so says the saying</em>. O fim dirige toda a ação, mesmo na hipótese de uma &#8216;ação intelectual&#8217;. Se não sabemos, em linhas gerais, para onde caminhamos, é impossível que surja a paixão adequada. Ponto.</p>
<p>O horror ao pensamento estereotipado. A grande diferença entre um trabalho de gênio e um medíocre está na presença ou ausência de uma inserção precisa numa categoria trivial. O trabalho do Círculo de Viena não é genial porque é, simplesmente, positivista (e por isso ridículo). O trabalho de Wittgenstein é genial porque, ao tentar caracterizá-lo, não conseguimos em nenhum momento emprestar-lhe um nome adequado, nem inseri-lo um sistema trivial: idealista, realista, o que seja. O gênio possui uma aproximação maior com o real &#8212; e o real é inclassificável, está além das categorias mentais e dos esquemas. O sistema não carece, por isso, de utilidade; sua desvantagem essencial é, no entanto, a de reduzir a realidade.</p>
<p>Mais de um wittgensteiniano tem ficado surpreso ao ouvi-lo falar de ética ou do Cristianismo como único caminho para a felicidade (sim, somos livres para discordar disso), ou ainda do casamento como &#8220;a sacred act&#8221;, um ato sagrado. Ou que &#8220;what is good is also divine&#8221;.</p>
<p>Alegremo-nos, portanto, ao deparar-nos com esse tipo de situação: a da súbita e desconsertante mudança intelectual. &#8220;Mas que diabos. Ele não quis assinar o manifesto. Ele inspirou todo o trabalho que resultou nele!&#8221; (2) Merece eterno louvor aquele que não assina manifestos; aquele que muda de assunto; aquele que ousa fazer piada com a filosofia quando todos estão sérios, levando-a rigorosamente a sério no dia seguinte, quando todos fazem chacota dela.</p>
<p>___ Notas</p>
<p>(1) Aliás, num sentido muito preciso. Não se pode desejar um bem que não existe &#8212; considerando o &#8216;existir&#8217; como admitindo &#8216;parecer-existir&#8217;. Explico-me. O amor é um bem; é um bem tão-somente por envolver um objeto de desejo, um fim. Por tautológico que pareça, a idéia de bem não pode ser dissociada da finalidade. Um bem é um bem porque é um fim buscado. Se buscamos, é porque é um bem, mesmo que seja apenas aparente. Explico a tautologia: como no caso do &#8217;ser&#8217;, não é possível definir &#8216;bem&#8217; senão recorrendo a um elemento já presente na definição &#8212; trata-se, afinal, de um conceito fundamental, já dado. Sua evidência procede da evidência imediata, sem a qual não é possível <em>começar </em>a emitir juízos e formular sentenças (ou recorrer a proposições).</p>
<p>(2) Não me refiro apenas a manifestos altamente estúpidos, como o comunista. Refiro-me a qualquer manifesto.</p>
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