Chegamos ao post de número mil, duzentos e dezoito, se contamos alguns rascunhos não publicados. Eu poderia ter escrito um Infinite Jest com essas mais de duas mil páginas, mas o que temos é só blogum istum. Contentem-se, que meu célebro é incapaz de outra coisa.
(Mentira: ele é capaz também de ler um artigo da Analytica ou do Journal of Symbolic Logic enquanto o resto do corpo toma café -perdoe-me ela, que me extraiu delicadamente este item da dieta-* e se senta confortavelmente numa cadeira, ignorando o nó da gravata e a Grande e Não-Adleriana Conversação que ocorre nas imediações.)**
Há anos ensaio adquirir para a biblioteca doméstica a edição de 1987 do imortal Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, o “Caldas Aulete”. (Já me disseram: “Julio Lemos, quando cê recomenda algo com ênfase, provoca uma sub-revolução editorial no mundo underground“). Cinco volumes de puro amor, de pura nerdice, de puro na dúvida, vai constar até isso. Como diz o provérbio latino, de sobejo e jesuítico manejar:
quod non est in Caldas Aulete, non est in mundo.
E é verdade. Aprendi a amar o Caldas Aulete na casa de minha avó, Londrina 1988 –>, e não sei em que lugar desse mundo de meu deuzio foi parar o exemplar da família. Num surto de não-procura motivado pela crise que atingiu os polímatas e a inteligência deste pays desde a publicação dos Estudos Alemães do Tobias Barreto, o preço baixou um pouco, para estacionar nos estatisticamente médios R$ 350,00, para cópias em bom estado.
O dicionário tem raízes editoriais que começam (e praticamente terminam) no século retrasado, o XIX. Chico Julio Caldas Aulete, mártir lusitano da nerdice lexicográfica, foi o responsável pela primeira edição, de 1881; as edições subseqüentes de 1925 e 1948, em Portugual; e de 1958, 1964, 1974, 1980 e 1987, no Brasil, vieram sempre acompanhadas do apelido “Caldas Aulete”, apesar de o fato de que apenas o contiúdo da letra “A” estava pronto no momento do passamento do Chico Júlio. E eu disse “…e praticamente terminam” porque a primeira edição já é daquele século amado.
Basta pensar: o vocabulário shakespeariano, que fez gerações tremerem nas base, não é nada perto do vocabulário caldas-auleteano, que ultrapassa os 220 mil verbetes. Não é, obviamente, um OED,*** mas é mais charmoso que o seu primo inglês metido pra carai.
Ia dizendo que há tempos penso em adquiri-lo. Mas não para a minha pessoa e esfera jurídica: eu o comprei para dar de presente! (Não constitui repetição do caso da bola de boliche com o nome “Homer”, transferida a título gratuito, liberalitatis causa,**** de Homer a Marge Simpson -porque a nerdição, no caso da presenteada, é maior ou igual à do dador.)*****
Há poucas coisas melhores que dar um presente. (Uma delas é ganhar presente, mas opa: é assunto alheio à minha alçada). O ato entra na categoria do “êxtase”, em sentido original: o dador sai de si por meio do objeto de valor entregue ao outro e, assim, entrega-se a este. É evidente que o arquétipo do ato de presentear aparece de modo muito imperfeito na maioria das ocorrências do verbo na ação històricamente considerada;****** todavia, mesmo sob a suspeita de platonismo, devemos reconhecer que o esforço é realizado com essa meta: entregar-se.
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* Tenho um novo plano de saúde e julgo-me imortal.
** Opa, un-Harvard parenthetical hommage de novo, subseqüente à concessão feita às novas regras da tipografia anglo-saxã. A musa merece, mesmo no abstrair dos cabelos alaranjados.
*** Se ocê não sabe o que é OED, foi mal, não farei o favor de explicar. (E eis aqui a prova de que notas de rodapé não ajudam nada. Mas são lindas.)
**** Está em C. 5. 3. 11 (Dioclec., Maxim.): Si tibi res proprias liberalitatis causa sponsus tuus tradidit, eo, quod ab hostibus postea interfectus est, irrita donatio fieri non potest.
***** ”Dador” está devidamente registrado no Chico Júlio. Meu saudözo orientador de doutorado, meu eterno Doktorvater Marchi, nunca deixa vocábulo duvidoso entrar na sua prosódia ou em texto de sua autoria sem antes certificar-se se “o dá o Caldas Aulete”. (O Caldas Aulete é um dador de usos.) Lembro-me das longas tardes de discussão e tradução de fontes latinas -e às vezes até gregas, como tarefa extracurricular, porque vez ou outra os estóicos ou ecléticos romanos inventavam de inserir no Digesto vocábulos ou frases inteiras em grego (o que é ainda mais corrente, por outros motivos, nas Novelae e no Codex)-, em que o uso duvidoso de um vocábulo como “abordar”, galicismo pavoroso, era omitido com a invocação da auctoritas caldas-auletiana. (Registre-se ainda o uso brasiliense de dador de teco, ref. ao abuso de substância extraída do Erythroxylum coca, quando exemplar da espécie obtém na realidade empírica.)
****** Uma digressão wittgensteiniana nos obrigaria a esclarecer que aquilo que todas as ocorrências do ato de presentear têm em comum é a categoria das ”semelhanças de família” (uma das traduções possíveis de family likeness para este contexto sintático), e nada mais. Minha tendência, nesse ponto, é seguir o nosso Wunderbeere (Synsepalum dulcificum) austríaco e aceitar apenas com grão de sal a concepção escolástica de “analogia”, que tende ao essencialismo, mesmo contra quem Aquinas.*******
******* Explicar a expressão contra quem Aquinas exigiria uma nota de rodapé útil.
This entry was written by , posted on 29 de setembro de 2011 at 10:19, filed under Handlung and tagged Luciana, nerdice, typographia. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
X: Pense nos felinos. Gatos, por exemplo. Eles te olham nos olhos, como os cães? A memória relativa a essas situações -a de ser-olhado por um gato- deve estar em algum lugar.
Y: Ahm. Sim, eu me lembro. O Julien Sorel, gato na verdade, ahm, sem nome de um casal de amigos. Ele foi encontrado dentro de um bueiro em Porto Alegre, perto da Universidade. Foi trazido para cá em seguida, para Higienópolis, imagine, morar na Rua Tupi.
X: Tá, mas que tem esse gato? Lembrou de algo que tem a ver com o que eu dizia?
Y: É por isso, ô. Estávamos na sacada, que dá para o Pacaembu. O gato andou pelo parapeito, tem também uma rede de nylon pra evitar que o gato caia, e ficou perseguindo algum inseto. O bicho fica vidrado. Depois ele reparou em mim. Me olhou. Mas ele não olhava para mim, ele olhava pra minha cara, entende? Não havia nenhum tipo de contato pessoal, do tipo que existe entre homens & cães, melhor amigo do homem, essa merda toda.
X: É disso justamente que eu falava, cara. E você já pensou que há pessoas assim? Que não olham pra você, mas para a superfície física do seu rosto, mesmo para a superfície dos seus olhos?
Y: Estranho. Quer dizer. Parece antipático.
X: Minha intuição é que isso tem algo a ver com tipicidade neurológica. Vou pular os detalhes técnicos. E nem vou usar os termos corretos, que ia soar pedantismo. Sabe quando você fica mais atento às palavras do que ao contexto emocional de uma conversa?
Y: Ih, lá vem você com esse ‘sabe quando você etc’. Não, não sei. Isso nunca aconteceu comigo.
X: É, você é um pouco feminino nesse ponto.
Y: Ué, e não existe muié literal, incapaz de pegar uma ironia?
X: Não é isso. Não é que elas, ou sei lá, qualquer pessoa, não seja capaz de pegar ironias. Até porque essa literalidade mental ocorre fora de contextos irônicos.
Y: Estou confuso.
X: É assim. O cara que é muito literal costuma ser hábil com palavras.
Y: Como você, seu pedante.
X: Não falo de mim. Isso você vê na literatura, no cinema, etc. Sendo hábil com palavras, ele sabe lidar com contextos imediatos, de curto quote unquote prazo.
Y: Que foi isso? Quote unquote? Faltou você fazer dois risquinhos no ar com os dedos.
X: Porra, não enche. Esses contextos imediatos não são emocionais. São contextos, por assim dizer, textuais.
Y: Essa nossa conversa conta como um contexto literário?
X: Uma conversa não é um contexto. Ela não prescinde de contextos, mas ela em si é uma troca de sinais literais, orais, digo, que remetem a uma estrutura, aí sim, mental, e de sinais não-verbais, isso, verbal e não verbal, assim é uma conversa. E creio que tanto o aspecto verbal quanto o não verbal remetem a contextos.
Y: Esse negócio de contexto vai virar um trunfo. Super Trunfo.
X: Você disse ‘super trunfo’ ou ‘Super Trunfo’, com maiúsculas?
Y: Você não viu as maiúsculas?
X: Não vi, uai, é justamente por isso. Usei a categoria verbal pra me referir a aspectos literais e orais; é uma categoria geral. No caso, odeio dizer ‘no caso’, nossa conversa é verbal-oral, e não podemos ver maiúsculas, acentos, essas c…
Y: A-há! Acentos eu não vejo. Eu escuto. E acabo de escutar o acento em ‘maiúsculas’.
X: Mas não vi nada de aspas. Você usou aspas francesas ou alemãs?
Y: Não entendo de tipografia.
X: Mas o fato é que pessoas literais entendem de contextos. Mas o seu contexto é imediato, como eu dizia. É quase que desprovido de conteúdo emocional. E justamente por isso, uma cara muito literal tem problemas de comunicação -ele é masculino demais. Viril demais. O logos é do homem. O homem é classicamente um ser discursivo. Quando está apaixonado -digo, o homem literal-, ele leva tudo a sério. A sua cabeça é contratual. Ele quer, já, imediatamente, estabilizar a relação por meio de laços contratuais. O casamento é uma instituição masculina. Essa rejeição atual, esse horror ao casamento é clássico sintoma de falta de virilidade.
Y: Faz sentido. Eu tendo a ser chato com você. E não é porque eu estudo física e penso que não existe nada fora de equações. É que eu me surpreendo que um cara como você possa dizer algo que faça sentido. E isso fez sentido, entende?
X: Lógico que faz. Você é o cara das exatas, mas, sei lá, você parece tão pouco esperto às vezes.
Y: Começou.
X: Tá. Vamos voltar ao ponto.
Y: Vou abrir uma cerveja.
X: A geladeira é minha. Vade retro.
This entry was written by , posted on 27 de agosto de 2011 at 17:32, filed under Filosofia, Geral, Handlung and tagged typographia. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Passei a infância fazendo, periodicamente, “cálculos de má sorte” — pensando nas coisas ruins que trazem, além do mal em-si, males anexos. Por exemplo o verão: o calor, que é a causa primeira, que traz consigo os insetos, as queimaduras de sol, o desconforto geral ao trabalho, as roupas de mau gosto. Bem como “cálculos de boa sorte com má sorte”: o inverno, com o frio bom, mas que traz consigo conforto excessivo no dormir, banhos gelados (quando se trata de uma questão de honra), as saudades antecipadas dos amores e dos invernos que acabam. São exercícios tolos, de pouco uso, mas que trazem uma vantagem: os jogos internos peculiares nos fazem diferentes dos outros, fazendo de nós elementos da função de variedade no Lebenswelt.
Outro jogo interno, partilhado tão somente pelo meu irmão — não sei se ele ainda se recorda disso — era o do “maior número concebível”. Sem termos contatos com a terminologia e o mundo dos computadores (eu não tinha mais de 7 anos: 1985), imaginávamos como que uma memória independente e interior que calculava nossas adições, multiplicações e potências ao longo dos dias sem fim, partindo de um número x. Chamávamos esse “x” de “meu número”, e nos divertíamos imaginando o quão grande ele estaria em determinada época como resultado de fórmulas recorrentes. “Multiplico agora meu número pelo de fios de cabelo da minha mãe elevado ao número de fios de cabelo de meu pai no próximo inverno”. Isso era o que fazíamos. Não sei se meu irmão abandonou o seu número; o meu ainda existe. Semana passada, elevei-o à potência igual ao número de lágrimas — limitadas ao padrão variável de meio centímetro cúbico — derramadas em São Paulo em razão de frustrações amorosas (PS: NÃO AS MINHAS, QUE NÃO AS TENHO, MAS AS DOS PAULISTANOS; PAREM DE MANDAR E-MAILS DE SOLIDARIEDADE). Tínhamos consciência da regra tácita: nunca adicionar a, ou multiplicar por, ou elevar a, o infinito. Isso porque não conhecíamos, aos sete e cinco anos, a recém-mencionada matemática transfinita; porque em realidade não haveria problema em quebrar essa regra tácita. Há infinitos maiores que outros, e isso foi provado.
Muitos outros jogos internos surgiram. Um muito bom chama-se haruspício, e descende dos Etruscos (certamente recua muito mais no tempo, mas mantenhamos essa convenção mitológico-histórica), com o qual muito tempo depois viria a topar escrevendo minha tese de doutorado. Trata-se da observação de eventos naturais — curiosamente, muita vez dependentes da vontade humana — e da atribuição, a eles, de uma causalidade supersticiosa. “Se fulano encostar na raia da piscina, fulana vai se casar com beltrano”. (Esse jogo era recorrente nas minhas aulas de natação). Ou: se a próxima linha do programa for um “endif”, meu Natal será uma merda. E geralmente dava certo. Daí a conclusão de que esses jogos internos tinham tudo para se converterem em tradições, com a potencialidade de moldar culturas inteiras. O surgimento da superstição.
Na adolescência surgem as piadas internas. Sua vida não será mais a mesma, com o perdão do cliché.
This entry was written by , posted on 30 de abril de 2010 at 13:49, filed under Handlung and tagged jogos internos. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
O telefone — eis-me falando de coisas passadas & obscenas, no sentido Baudrillard da palavra — é outro dos mistérios da mudernidadhy. Pitágoras teria dito que o telefone nos descobriu, e não que foi descoberto [por nós, a.k.a gramáticos bizantinos]. Porque nossa reação diante dele é afetiva: odiamo-lo ou amamo-lo conforme a qualidade da voz que ele faz chegar aos nossos ouvidos. O conteúdo da mensagem contribui deveras para nossa apreciação: uma má notícia, como nos tempos áureos de Pérsia 2 x Grécia 1, dá-nos vontade de assassinar o embaixador (o telefone). Foi o que fez o pai de um amigo; uma chamada insistente na hora do almoço e o telefone do Bart Simpson espatifou-se. Fui o autor do crime telefônico, mas nenhuma palavra de censura me foi dirigida pelo genitor do amigo. Só morreu o embaixador.
Uma novela radiofônica de Orwell bastou para set things up for a non-existing conspiracy. Serão todas as conspirações, pelo fato de o serem, mentiras relacionais? Entes de razão que só fazem viajar de receptor a receptor (porque o emissor não existe ou sofreu nas mãos do General Failure), a colocar à disposição dos interlocutores o luxo de uma excitação prolongada? Por isso os autores inexistentes de conspirações são homens superficiais, mas poderosos. Eles sabem que a paranóia, mais do que resultado obscuro de uma ou outra enfermidade no catálogo das muléshtias mentais, constitui um traço característico de todas as kaliyugas da vida e de quase todas as pessoas. Com isso não quero dizer que alguma dose de paranóia não seja divertida, e até saudável para nós outros. Havia uma grande para-nóia na Guerra do Peloponeso. O próprio Heródoto não quis se esquivar dela; os sonhos premonitórios, personagens centrais da História, estão lá para demonstrar ao público que os gregos eram gente, tipo assim, cheia de mania de perseguição até o pescoço do Cavalo de Tróia do Bandido.
Os gramáticos bizantinos foram a aurora da decadência. E somos gente que, tipo assim, adora uma decadência, a começar pela ausência de cuidado com a linguagem. Eu sou gente que, tipo assim, adora uma quedinha, desde que haja Glória & Glamour, e que esteja com o controle remoto na mão para mudar de idéia — caso os bárbaros resolvam entrar horizontal ou verticalmente na sala (citando MFS, que quase encontrou para o sindicato dos GHI ao morrer de pé; parte da biblioteca dele está no andar de baixo).
Façam a experiência. Não há guia mais prático para a mudernidadhy do que as tabelas de correspondência grego-latim dos bizantinos; e não há direito mais divertido do que o contido nas Basílicas (paráfrase ferradã do Digesto + muitos escólios). A filologia, dizia um amigo, é o conhecimento do conhecimento; e como tudo já foi mesmo desenterrado, basta comentar. E comentar com graça, donaire e sacanagem, que é pra não estragar o velório.
Só é possível compreender o Submundo de todas as coisas subindo até o alto — pelo que me consta, só quem não é gnóstico pode fazê-lo com autoridade. Por isso são poucos, e felizes, os integrantes dessa elite “agnóstica” (sentido impróprio; vai ver se eu tou na esquina, brother). Fazer parte dela é garantia de que sempre sairemos na frente num debate com as pessoas espertas.
Habitar muitos mundos, seletivamente. Salvo-conduto em todas as embaixadas, em todos os países.
A suprema rebeldia de ligar e desligar a ironia quando se queira — uma escolha que poucos estão aptos a fazer.
This entry was written by , posted on 20 de janeiro de 2010 at 18:55, filed under Handlung and tagged conspirações, sacanagem. Leave a comment or view the discussion at the permalink.