Muitas vezes o que garante o sucesso de uma pessoa (sucesso aqui = excelência) é, além do talento, o exercício de atividades muito diferentes da, e até aparentemente incompatíveis com, a atividade principal.
Um exemplo que me veio como que por insight, até agora desprovido de uma boa explicação racional, é a ligação entre o estudo da lógica e da matemática e o ato de escrever. São poucos os escritores que conhecem essas matérias, ou que ao menos as têm como hobbies. A lógica ‘intuitiva’ dá conta do mínimo necessário para um escritor, e aliás para qualquer pessoa; de que serviria um estudo aprofundado, tanto quanto possível, da lógica formal? O único bom escritor de que me lembro agora — deve haver muitos outros — que estudou lógica matemática foi David Foster Wallace, mais conhecido no meio hip nojentinho como DFW. Se desprezo a grande maioria dos fãs desse cara, não é verdade que também despreze DFW ele-mesmo (assim como fãs de The Doors e Velvet Underground são insuportáveis, enquanto a música das bandas referidas é OK).
A lógica não explica a relação bom escritor -> estudar lógica, principalmente porque essa proposição é quase sempre empiricamente falsa; e mais falsa ainda se pensarmos A <=> B. A única coisa que poderia provar meu insight seria a repetição de experimentos bem sucedidos, e isso não me interessa.
A razão que me parece ter validade é paradoxal. Os estudantes de exatas e muitas vezes também os filósofos costumam escrever mal. A lógica é pouco poética em sua atitude metodológica: as tautologias e análises endurecem o espírito, [Oxford comma prosódica] e o rigor proposicional abomina as alegorias e a abertura analógica. Pois bem: passados em revista esses terríveis sed contra… vamos às razões.
(i) Conhecer os abismos do rigor e da necessidade ajuda a pensar sobre o terreno quase infinito da criatividade e da contingência do mundo exterior. O contato com o negativo (o não-ser) é um auxílio poderoso no processo de compreensão do positivo, do lado luminoso, aberto em possibilidades, do ser.
(ii) Apesar de aparentemente rigoroso, o espaço lógico exemplifica, por generalidade, as múltiplas possibilidades do real, e a superioridade deste sobre o pensado.
(iii) Wittgenstein, um dos maiores lógicos e filósofos do século XX, foi acusado — com razão — de se meter com o místico e comprovadamente levou uma vida poética. O rigor quase matemático do Tractatus serviu de ponto de partida, mesmo contrario sensu, para sua obra posterior, classificada, com razão, de complexa, polivalente e arredia à matematicidade estrita. (Wittgenstein, não sei se isso pesa em favor da minha tese, desprezava a matéria “Fundamentos da Matemática”).
(iv) A morte de Dante Alighieri, que será muito lido nos séculos seguintes, coincide com os primeiros passos da escolástica decadente e sua crescente obsessão com a lógica formal. Dante era um grande expert — para os padrões da época — em lógica e filosofia aristotélica (tendo estudado a primeira, provavelmente, num colégio dominicano chamado Santa Maria Novella).
(v) Como os melhores artistas modernistas do séc. XX chegaram a ser o que foram? Chutando o pau da barraca? Não. Aplicando-se com rigor à técnica e à escola clássica. Picasso era um excelente desenhista figurativo e realista.
(vi) Os matemáticos trabalham com a imaginação e o concreto. Teorias abstratas — a matemática é a mais abstrata das ciências — surgem freqüentemente de imaginações tresloucadas e da observação (propriedade de insofismável presença nos escritores) de ocorrências da natureza: o movimento aparentemente caótico das abelhas, a alternância das patas no modo de andar dos cães, a estrutura das árvores, raízes e folhas, o trânsito de veículos, etc. E o que dizer do sentido contrário? Seriam as implicações lógicas, o cálculo proposicional e a demonstração de teoremas boas inspirações para narrativas e descrições?
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Kieslowski chamou uma cena de Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovsky, de “milagre”. Não vou dizer que cena é; assistam ao filme inteiro.
O longa foi sendo filmado aos poucos. A intenção de Tarkovsky não era rodar um filme pesado ou tenso. Mas as circunstâncias não ajudaram: até de longe, os soviéticos continuaram a tentar transformar a vida do diretor em um inferno. Não permitiram que seu filho o acompanhasse. E nem que viajasse a seu bel-prazer. A saudade dos seus — o filme foi rodado inteiro na Itália — e a dificuldade de locomoção acabou por se derramar sobre o filme: “Irrespective of my own theoretical intentions, the camera was obeying first and foremost my inner state during filming”. Até que, finalmente, não uma nostalgia teórica — o tema do filme –, mas a própria nostalgia não intencional de Tarkovsky tomou conta da sua alma e o resultado é o que vemos na edição final, patrocinada pela RAI TV e pela Sovin Film de Moscou.
Como todos os outros, sem exceção, filmes de Tarkovsky, trata-se de um filme difícil. Mas um fato será notado ao longo do treinamento ascético necessário para apreciar o cineasta que é para mim (e para Bergman) o maior de todos: se tomadas ou seqüências demoradas são normalmente chatas, o mesmo não ocorre quando elas são realmente longas.
A vida é feita de planos-seqüência de mais ou menos 15 horas, se excluímos os sonhos. Se aprendemos a contemplar o que vemos, nada é chato. O tédio é ou o resultado de uma alma que se esforça por aprender (e ainda não aprendeu) a viver (meu caso, espero) ou então produto de uma pobreza espiritual quase irremediável. O primeiro tipo de tédio é comum e positivo; o segundo é um sinal de alerta, pois está quase definitivamente associado ao desespero. Todos experimentamos o tédio; mas nosso futuro depende fundamentalmente da nossa atitude diante dele.
Pois bem: os longos takes e seqüências de Tarkovsky são um sinal de esperança, no melhor sentido da palavra. Eles captam o mundo como ele é: misterioso, denso, mas sempre anfibológico (simultaneamente opaco e aberto à experiência). Olhe ao redor; não é isso o que você vê? Toda a gnoseologia, a teoria do conhecimento, surgiu dessa ambigüidade, dessa dúvida. Sem mistério não há sequer a filosofia dos céticos. Até os agnósticos — e eu sou um agnóstico, em certo sentido — estão envoltos em mistério.
This entry was written by , posted on 27 de julho de 2010 at 16:10, filed under Cinema, Filosofia, Handlung and tagged kosher food. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Acontece muitas vezes: um homem sutil, inteligente e prudente no afirmar deita sobre o papel uma ‘teoria’, ou melhor, um conjunto mais ou menos coerente de observações relevantes, e logo em seguida um sem-número de discípulos continua o seu trabalho jogando para o alto as sutilezas, as nuances, o mistério — e junto com ele a ‘teoria’ toda.
“Quer saber? Ele já esboçou uma rejeição da metafísica. Vamos terminar o trabalho. Nossa geração é mais corajosa”.
Eis a vantagem e a catástrofe dos jovens (dos xovens). Wittgenstein disse de William James: “That is what makes him a good philosopher; he was a real human being”. Alguns de seus discípulos mais afoitos acabam então por dizer: “Let’s cut this whole ‘human being’ crap”; e seguem-se considerações tecidas estritamente dentro da terminologia filosófica do mestre. E aí vira festa.
Não digo nem que os ‘mestres’ tenham sido ótimos seres humanos, e nem que esse negócio de “ser humano” não cheire mal. O fato é que, em homens realmente sutis, essa abertura não é nada piegas. Ela indica que estamos diante de alguém superior à média em todos os sentidos. Não sou contrário à filosofia — nem a qualquer outra disciplina — acadêmica. Só penso que esse desdém pelo conteúdo e pela honestidade intelectual parece sugerir mediocridade. Em outras palavras: deslocar o pensamento da sua fonte axiológica parece-me uma imprudência. Isso ocorre, por exemplo, quando consideramos Bach ou Mahler como gênios da técnica e desprezamos que aquela música tem um sentido; e que não poderia ser produzida por medíocres. Mesmo no serialismo há sensibilidade e conteúdo: veja Webern, Schoenberg e o inclassificável Witold Lutosławski (cuja obra, mais especificamente a Muzyka żałobna, até semana passada só conhecia dos livros).
Todo o drama do Dr. Fausto de Thomas Mann gira em torno desse eixo (estamos tontos e confusos até agora, eu e minha revisora).
* * *
A tensão escatológica. Todo homem, no fundo, espera um acontecimento absurdo e mágico que aplaque a sua sede de eternidade. Esperamos que o evento ocorra aqui, e que a metafísica se traduza em fatos concretos, em catástrofes alienígenas — naves em forma de corneta, seres mais ou menos gigantes compostos por pixels coloridos, como vitrais de Gerhard Richter –, messias, boddhisattvas, seres de n-dimensões e tudo o mais que a ficção científica privada e inconfessável pode conceber.
Mas isso não vai ocorrer. Por definição, um evento escatológico foge à experiência dos sentidos. Em termos sensíveis, temos de nos contentar com mais do mesmo; e não há messias que vá resolver nosso problema. O interior de Saturno, por místico que nos pareça, é mais do mesmo, e essa seria a impressão de um viajante no tempo que voltasse ao momento do bang-bang, digo, Big Ben, merda, big bang. Não há nada de essencialmente novo sob o Sol. Aceita essa premissa, o mistério permanece. O mundo mental — a imaterialidade do pensamento, os subtis movimentos d’alma — ainda não é nada diante do mistério das coisas. E se um filósofo disser o contrário, tenha a certeza de estar diante de um medíocre.
This entry was written by , posted on 2 de junho de 2010 at 10:55, filed under Filosofia and tagged xênios. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
O tema “tipos de inteligência” não parece merecer um tratamento geral. Antes, pequenas e desconexas observações, Bemerkungen, que logrem mostrar problemas e modos de proceder.
Qualquer trabalho intelectual rigoroso exige foco, mesmo temporário — parte de um “nerdismo serial”, na expressão do talvez mais caro entre meus amigos –, e um colossal horror às escolas de pensamento ready-made. São dois tipos de inteligência diferentes, aparentemente contraditórios mas, de qualquer modo, complementares. Provavelmente você só tem uma delas; e por isso deveria trabalhar para, tanto quanto possível, adquirir a que não tem.
Sobre o foco: não é possível trabalhar sem um objetivo; ou melhor, sem estar completamente tomado por uma obsessão com determinado tema. (Isso fez de Wittgenstein um dos homens mais chatos a pisarem em Cambridge; mas também um dos mais geniais). O foco é resultado, ou mesmo causa, em certo sentido(1), de uma paixão. Pois a paixão é das coisas mais ‘objetivas’, mais ‘dirigidas’ que há (basta pensar no vocábulo inglês drive — surpresos?).
“Em tudo tem em vista o fim”, so says the saying. O fim dirige toda a ação, mesmo na hipótese de uma ‘ação intelectual’. Se não sabemos, em linhas gerais, para onde caminhamos, é impossível que surja a paixão adequada. Ponto.
O horror ao pensamento estereotipado. A grande diferença entre um trabalho de gênio e um medíocre está na presença ou ausência de uma inserção precisa numa categoria trivial. O trabalho do Círculo de Viena não é genial porque é, simplesmente, positivista (e por isso ridículo). O trabalho de Wittgenstein é genial porque, ao tentar caracterizá-lo, não conseguimos em nenhum momento emprestar-lhe um nome adequado, nem inseri-lo um sistema trivial: idealista, realista, o que seja. O gênio possui uma aproximação maior com o real — e o real é inclassificável, está além das categorias mentais e dos esquemas. O sistema não carece, por isso, de utilidade; sua desvantagem essencial é, no entanto, a de reduzir a realidade.
Mais de um wittgensteiniano tem ficado surpreso ao ouvi-lo falar de ética ou do Cristianismo como único caminho para a felicidade (sim, somos livres para discordar disso), ou ainda do casamento como “a sacred act”, um ato sagrado. Ou que “what is good is also divine”.
Alegremo-nos, portanto, ao deparar-nos com esse tipo de situação: a da súbita e desconsertante mudança intelectual. “Mas que diabos. Ele não quis assinar o manifesto. Ele inspirou todo o trabalho que resultou nele!” (2) Merece eterno louvor aquele que não assina manifestos; aquele que muda de assunto; aquele que ousa fazer piada com a filosofia quando todos estão sérios, levando-a rigorosamente a sério no dia seguinte, quando todos fazem chacota dela.
___ Notas
(1) Aliás, num sentido muito preciso. Não se pode desejar um bem que não existe — considerando o ‘existir’ como admitindo ‘parecer-existir’. Explico-me. O amor é um bem; é um bem tão-somente por envolver um objeto de desejo, um fim. Por tautológico que pareça, a idéia de bem não pode ser dissociada da finalidade. Um bem é um bem porque é um fim buscado. Se buscamos, é porque é um bem, mesmo que seja apenas aparente. Explico a tautologia: como no caso do ’ser’, não é possível definir ‘bem’ senão recorrendo a um elemento já presente na definição — trata-se, afinal, de um conceito fundamental, já dado. Sua evidência procede da evidência imediata, sem a qual não é possível começar a emitir juízos e formular sentenças (ou recorrer a proposições).
(2) Não me refiro apenas a manifestos altamente estúpidos, como o comunista. Refiro-me a qualquer manifesto.
This entry was written by , posted on 8 de maio de 2010 at 17:39, filed under Filosofia and tagged modo foda-se :). Leave a comment or view the discussion at the permalink.
O matemático inglês John Conway é conhecido por ter criado em 1970 o “jogo da vida”. Trata-se de um algoritmo muito simples. Na prática, consiste num ‘autômato celular’: dada uma condição inicial, ‘células’ reproduzem-se ou morrem num plano bidimensional de acordo com 4 instruções simples. Por trás de tudo isso está a noção de que a complexidade pode ser obtida, em poucos passos, a partir de uma simplicidade quase absoluta. Muito antes dele, John von Neumann tinha tentado criar uma máquina — um computador hipotético, por assim dizer, no estilo Turing — capaz de criar cópias de si mesma; seu sucesso havia sido relativo, vez que o mecanismo concebido por ele era demasiado complexo. E, de fato, a invenção de Conway constitui uma máquina de Turing universal.
Desde que descobri, há mais de dez anos, o mundo de Conway, uma coisa me inquieta. Do ‘jogo da vida’ diz-se que é pura auto-organização, ordem emergente do caos, sendo dispensável um designer ou um design. Mas pensem comigo: de onde emerge a ordem? Observando uma ‘partida’ (o jogo não exige jogadores), percebe-se que alguns padrões emergem. Se podemos falar em padrões, entretanto, isso implica que alguém os reconheceu. Do ponto de vista não-objetivo, da mesma forma, esses padrões são fruto de regras simples que contêm um princípio suficiente de ordenação. Portanto, o designer não está ausente: ele é o criador do algoritmo. E aquele que reconhece padrões é precisamente um ser da mesma natureza do criador do algoritmo: um homem (ou um ser qualquer inteligente, no qual a ordem está presente). A ordem não emerge do caos, e muito menos do nada; o movimento das células parece imprevisível, mas na verdade ele já estava presente, em potência, nas células iniciais. Os axiomas são colocados por alguém e as conclusões são obtidas através de um procedimento inteligente e previamente criado. A partir de nenhuma regra, não se obtém alguma regra.
Ex nihil nil fit. E com isso não quero provar nada. Eu só quero saber onde foi parar a inteligência dos cientistas.
This entry was written by , posted on 6 de maio de 2010 at 9:18, filed under Filosofia and tagged mental disorder. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Atrás de um homem de notável erudição e agudo raciocínio está, afora a obscuridade prazenteira que o envolve, não o esforço mecânico por dedicar-se a matérias árduas, fugidios objetos de conhecimento, mas um insaciável interesse por todas as coisas. Como dizia o erudito francês Remi Brague numa palestra (Weidenau, 2009), o que está por trás da verdadeira idéia de Deus é o infinitamente interessante; e não precisamos passar daí à Teologia. Todo o Universo é interessante; se não vemos interesse nele, se não o queremos — delicadamente — esgotar, por inesgotável que seja (pois essa é, na verdade, a sua natureza), simplesmente não vivemos: desfazemo-nos do mistério como quem se desfaz da própria vida. E o faz quem se contenta com pouco — especialmente se se trata daqueles entre nós que possuem algum talento para a investigação, seja para as ciências do espírito (segundo o termo muito usado por Husserl e Dilthey, Geisteswissenschaften), seja para outras áreas, como as matemáticas.
A noção primordial de interesse, do lat. inter esse, já diz muito: cuida-se de um estar-nas-coisas, de fazê-las próprias e viver entre elas. Não conhecemos nada pelo qual não tenhamos interesse — o que significa que não podemos dizer nada sobre algo se não o visitamos ‘fisicamente’. Para conhecer uma pessoa é necessário uma espécie de Umgang-Begegnung contextual, “trato”, convivência. E é por essa razão que Platão diz numa de suas cartas que a verdade filosófica vem através do “comércio” com os homens que estão em algum contato com ela — daí a insistência platônica numa pólis bem constituída, cujo núcleo autoritativo seria a procura pela verdade (malgrado as implicações políticas que um “rei-filósofo” traz consigo). A palavra interesse, que designa, nesse sentido primordial, uma atividade de valor objetivo, tem sido substituída pela “motivação”: seria necessário encontrar algo pelo qual subjetivamente nos interessemos. É uma meia-verdade. Porque não é a motivação que dá valor ao objeto; é antes o objeto que dá valor — objetivo — ao interesse.
Por isso não vale a pena interessar-se por certas coisas: é preciso descobrir algo realmente interessante com que se ocupar. A tradição já fez o trabalho por nós: realmente interessantes são as artes, as ciências, a filosofia, a religião. São matérias que custam ao intelecto. E quanto mais custam, mais remuneram e por mais tempo duram, mais indestrutíveis são pela sua aderência ao intelecto que por elas é treinado e afinado. E porque a inteligência foi, de certo modo, feita para elas, pode-se afirmar com segurança que seu interesse, sua ‘capacidade’ (ou potência) de nos trazer para dentro delas, está associado à felicidade.
This entry was written by , posted on 13 de abril de 2010 at 23:35, filed under Filosofia and tagged sentido. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Apesar de ter ganho em vida a “Sylvester Medal” da Royal Society (em 1908; ele morrerá dez anos depois), a maior honra a que um matemático podia fazer jus em virtude da sua obra, Geord Cantor sofreu um leve martírio público. Lembro-me de ficar chocado ao ler a respeito das imprecações de Kronecker, que lhe aplicou os mesmos graciosos epítetos que outrora Sócrates — se confiamos nos seus estranhos biógrafos — recebera dos seus contemporâneos atenienses; entre eles, o de corruptor da juventude.
David Hilbert (acabo de encontrar na Internet o artigo — Über das Unendliche, publicado nos Mathematische Annalen em 1926), com quem sempre me simpatizei, salvou-o com aquela frase conhecida, de cuja literalidade não me lembro: a de que ninguém nos poderá tirar do paraíso em que Cantor nos colocou. Paraíso matemático, platônico até, mas um paraíso: porque a teoria dos conjuntos criada por ele, bem como os seus discursos sobre o Infinito — tanto o do maior quanto o do menor, das Kleinunendliche und das Grossunendliche — deram ou devolveram à Matemática um sabor divino, puro, metafísico em sentido impróprio mas merecido. Mais adiante o próprio Hilbert lançará um desafio — um programa, o “Programa Hilbert”, duh — cuja resposta, posto que em forma negativa, virá de outro gênio, Gödel, com o seu teorema da incompletude.
Praticamente tudo o que Cantor escreveu está compilado aqui, nos seus Gesammelte Abhandlungen mathematischen und philosophischen Inhalts, publicado em 1932; há traduções para o inglês, mas ainda não as encontrei. Travar contato direto com a obra de Cantor, para quem cultiva a filosofia mesmo sem se dedicar à Matemática, constitui um convite, se não agradável, ao menos bastante fértil em potencialidades (com o perdão da quase redundância semântica). Não há porque fugir das ciências exatas, especialmente quando estão em íntimo contato com a filosofia — aquelas sempre árduas e gratificantes, esta essencial para qualquer homem de cultura.
E vou dizer o que me levou à matemática, mais especificamente à lógica matemática: um livro instigante de Douglas Hofstadter, Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid (1979), que faz qualquer pessoa de boa vontade pensar a sério nos fundamentos da lógica matemática e nos seus paradoxos; e permite, de certo modo, compreender com alguma profundidade o mencionado teorema de Gödel, como dizia eu a resposta ao divertido programa de Hilbert. Lembro-me de ter adquirido logo depois do tijolinho de Hofstadter uma obra monográfica sobre Gödel dirigida a matemáticos iniciantes; compreendi apenas em parte e desisti, tendo-a emprestado a meu irmão, à época um ainda não consumado cientista da computação (não preciso dizer que ele o compreendeu muito bem). Cheguei à conclusão de que Hofstadter operava pequenos milagres — e que se o leitor quisesse se aventurar pelo mare magnum da teoria dos conjuntos e da teoria dos números, teria de passar mais algumas horas na companhia de manuais para estudantes de graduação, incluso fazendo exercícios e consultando entendidos. Com algum talento, poderia fruir das matemáticas, adentrando um pouquinho, timidamente, no inner circle dos platônicos apaixonados nas (ops, germanismo na cara dura) altas esferas. Boa sorte e boa noite.
This entry was written by , posted on 15 de março de 2010 at 20:42, filed under Filosofia and tagged matemática foda. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
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