A desordem irrita-me e deixa-me desanimado. Um empreendedor de nascença vê um apartamento destruído (e sequer é esse o meu caso) e diz: mãos à obra. A expressão nunca me sai. Penso, ao invés disso: mãos no bolso (para contratar alguém para ser empreendedor por mim).
Ainda vou terceirizar a Via Láctea.
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Ela está chegando. O sol da tarde não é prenúncio de nada; mas os cigarros em seqüência constituem um sinal de vitória.
Solyaris, o filme de Tarkovsky, usa imagens de plantas aquáticas movendo-se à correnteza do rio para indicar o fluxo do tempo.
Vou comprar um aquário.
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A tragédia é muito. O mundo não nasceu para a tragédia; nós, sim. Exageramos, imaginamos, antecipamos. O sofrimento mais temível não existe fora da imaginação. Isso aprendi com S. Josemaría Escrivá, cujo dia se aproxima. Escrivá existe fora da imaginação — além disso, viveu, sofreu e foi homem.
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Muitas vezes nosso maior valor está não em nós, mas no nós que vive nos outros. Em Deus? Em quem nos ama.
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O primeiro passo para a liberação consiste em defender, ao menos por um dia, o Estado de Israel.
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Even when I’m so far away, how close I am! To quote the Scriptures: to buy this Pearl, everything’s been sold.
Even Time and Space have been sold, o Lord.
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Quase ninguém sabe que fundei uma sociedade secreta. Eu mesmo só vim a sabê-lo após uma conversa cheia de indiretas e mútuas concessões com Herr Julius Holofernes, autor das tiras com o mesmo nome. O caballeroso amigo pronunciou três palavras e lá estávamos: à beira do abismo, perdidos numa sessão eterna de “Anjos da Noite” acompanhados por um moço junkie e blasé vestido de Johnny Depp (muito, mas muito gel na cabela).
Quando a Rua Augusta se torna um recanto propício à imediata imanentização do Eschaton (o adiantamento, mediante cartão VISA, do fim do mundo; a consumação súbita de todas as coisas e de todos os desejos), lá está a recordista de menções nos diários do Boddhisattva da Vingança, a musa desconhecida dos 5 dólares perdidos. E tudo enfim se consumou com gosto de cigarros apagados; cinzas de propósitos mortos sopradas sobre o que somos de despertos.
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Wann wird es geschehen, das herzliche Ende des Menschen? Wenn es unmöglich ist, ‘was zu sagen… ‘was aus Deiner Lippen zu stehlen (und noch was zu stehlen: Küsse). Dazu die Leute, die man ‘Chaoskinder’ nennt… ‘was Unvorstellbares… Die letzte Küsse (Gal, Du trinkst gar eine Menge!)… Beute- und Prunkworte vor allem…
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Se fores cobarde o suficiente para escrever como Louis-Ferdinand Céline; ao menos faze uso do ponto-e-vírgula.
This entry was written by , posted on 3 de março de 2010 at 22:11, filed under Caolhices and tagged memórias do subsolom. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
H. passou a vida recolhendo informações para um dossiê sobre a seita “N”, cujo objetivo — posto por escrito nos documetnos fudancionais — era provar que o perigo da ausêcnia da letra “n” em “Santa”, ou pior, o seu potencial deslocametno ou esquecimetno (=Sa[-n]ta, Satan) é a prova de que só podem haver *homens* na categoria dos santos. Descobriu ao final que todos os seus membros, com excepçãn do fundador, eram alfabetizados, obedientes e secretametne feministas (=femiinstas).
Revisores, vigiai, porque o leão está a rugir, buscando a quem devoraire.
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F. C. S., brasileiro, cútis branca, 46 anos, incomodado com o barulho produzido pelo vizinho em pleno carnaval — bastante elevado, embora não a ponto de chocaire um técnico da polícia administrativa ambiental –, tomou do seu 380 carregado com 22 “projetís”, foi até o proprietário da casa em ritmo de festa e desferiu sobre ele, nele e através dele, 8 tiros. Não errou nenhum. O pessoal todo parou de dançar e ficou boquiaberto.
As fotos não são simpáticas, mas conquistaram nossos corações.
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O processo de compreensão do que é a moral, mesmo do ponto de vista disciplinar da filosofia, é semelhante àquele intentado por Pablo Picasso: (des-)(re-)aprender a desenhar e a ver as coisas como uma criança. Quem pôs as mãos e os olhos no monumental “Praktische Vernunft und Vernunftigkeit der Praxis” de Martin Rhonheimer sabe a que ponto chegou a filosofia moral em refinamento conceitual e sutileza argumentativa; mas aprende também que a ação moral é extremamente simples, límpida, e que justamente por isso é impossível descrevê-la completamente e compreendê-la — em sentido estrito — conceitualmente; e que o erro dos idealistas, praticamente repetido em Kant, é crer que seja possível “colocar a ética no papel”, permitindo que o agente aja com base em normas formuladas (onto?)logicamente.
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Costumo julgar o grau de inteligência de uma pessoa usando como critério: a) o bom gosto e a independência intelectual; b) a habilidade filosófica em tratar de distinções, formular logicamente os problemas e argumentar; c) a erudição, incluindo o conhecimento de línguas; d) o sentido de mistério e abertura à riqueza da existência (tenho em mente Victor Frankl e Chesterton).
Muitas pessoas que parecem inteligentes na verdade só brilham em um ou dois dos primeiros campos acima (”a”, “b” e “c”). O quarto campo é excepcionalmente difícil; e acaba por excluir meio mundo (na verdade, 99,999%) do campo das pessoas *realmente* inteligentes. Pessoalmente conheço só um ou dois caras assim; o resto vive de aparências ou, muito melhor, não se gaba de ter o que não tem, contentando-se com suas limitações (o que é nobre e louvável).
This entry was written by , posted on 22 de fevereiro de 2010 at 9:51, filed under Caolhices, Filosofia and tagged independência. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Imagino o que se passará nessa parte do mundo, M., onde os astros são negros e as pessoas altas e magras. Tudo parece sem mácula, posto que obscuro.
Foi o que disse Marco Polo: “Arrivederci, Roma”, como na canção, entre uma cerimônia de chá verde e um uísque escocês para encerrar a noite melancólica. O Porto nunca vai pela direita (sim, trata-se do dito inglês inserido na disciplina ‘etiqueta & boas maneiras’); mas foi assim que conheci um daqueles habitantes magros, horizontais, da outra parte do mundo — caucasianos dados ao luar e à conversação à meia-voz. “Venha mais para cá”, disse um deles, “o rio está baixo como o Tâmisa, isso acontece quando os turistas vão embora”. Demos-lhe uma chance e ouvimos pacientemente. O chá terminou e o habitante exclamou: “Compro a sua escrava por dez mil sestércios”. Rejeitamos a oferta. “Vinte mil”, 15, 19, 16, 19, 17, 19, 18, 18 (a alternância dos números representa o histórico pouco matemático da barganha oriental, aquela das ofensas imperdoáveis: Unter einer ‚Menge‘ verstehen wir jede Zusammenfassung M von bestimmten wohlunterschiedenen Objekten m unserer Anschauung oder unseres Denkens (welche die ‚Elemente‘ vonM genannt werden) zu einem Ganzen, na clássica definição de Georg Cantor).
T’invidio turista che arrivi / T’imbevi de fori e de scavi. Observar um turista constitui ação análoga a contemplar os olhos de quem se ama, de quem /cruel/ se ama (ela pensa: “pobrezinho do turista, pronto a ser decepcionado”). Insistimos na nossa estranheza, no nosso mistério: julgamo-nos mais entendidos, mais reconhecedores do singular que há nela do que a própria pessoa. Ela persiste no seu ceticismo, mas isso não nos faz renunciar.
No país estranho, tudo é mistério, a começar pela altura nauseante dos prédios e das pessoas. Depois elas se tornam baixas e amáveis, mas o caminho até lá é demasiado longo. Dura o encanto mais do que gostaríamos de admitir; com S. Tomás, o princípio da filosofia é a admiração. Mas quando algo é realmente descoberto; quando para nós se torna passado o pós-cópula da análise, da decomposição e do granular lógico; aí a surpresa ganha ares e substância de surpresa diante do esperado.
O MISTÉRIO SE RAMIFICA, M. É o que temos a declarar enquanto aguardamos o visto permanente.
This entry was written by , posted on 10 de fevereiro de 2010 at 19:23, filed under Caolhices and tagged matemática foda, união estável. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
A FACHADA de um solar habitado por um homem solitário parece, de longe, um palácio; quando vem o verão, um charco fundido ao terreno desigual; de perto, um simples solar. Olha e contempla: o homem já não se pertence a si mesmo. Existe juntamente com a sua casa, respira sobre as suas páginas como se estivesse morto e, se por um momento suspendêssemos o movimento dos pulmões, perceberíamos que ele mais finge do que diz a verdade (fenece!). Algumas lagartas comem as Hexenpflanzen e Hexenkräuter que, por engano terrível, se fixaram aos muros ao redor do solar. Nem tu nem eu podemos fazer nada.
O homem está imperturbável, perdido em não se sabe que de doutrinas quixotescas, que de ressentimentos, que de triunfos. O homem leu o suficiente para escrever com elegância; mas nada deita ao papel. Imbuído da ciência da epigrafia, nada decifra, nada esculpe, v. i. Crê-se um deus malogrado, um demiurgo impotente, mas um deus, um demiurgo (já diluíste, numa só, a natureza de ambos?).
A fábula termina quando três personagens de Dante, o leopardo, a loba e o pingüim por fim logram passar pela estreita porta de entrada (sempre aberta, mesmo de longe). A fábula termina quando o homem, aborrecido, exclama:
– Nada sei de alegorias. Fait accompli.
This entry was written by , posted on 22 de janeiro de 2010 at 17:20, filed under Caolhices and tagged vazio. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Há uma solução para tudo, que é amar completamente. “É a solução mais difícil de que até então temos notícia”, disse o Capitão Crook, referindo-se aos nativos e ao tabaco. Apostaria 100 mortes cruéis em que estou certo. Até um impalamento no estilo persa (o primeiro gol aos 17′ do primeiro tempo; de novo, Heródoto) eu suportaria, mano. Fácil fácil. O “eros aníkate” da solidão é aquela mesma angústia de sempre: desejo de não sei o que, quando o “não sei o que” é o mesmo amor que tudo vence. Não consta que o homem tenha trocado de natureza desde o último dilúvio despejado sobre o seu — o nosso — coração negro, solitário, contente.
O coração é um caçador solitário, dizia Carson McCullers (o melhor título de livro em décadas). O seu também é. O de um sumério obtuso, Marduk mit Namen, 5507 a.C., padecia do mesmo problema. É que tudo parecia tão fácil para você: cabelos contornando o rosto, o perfume do jasmim, as noites juntando peças oleosas de Lego. A paixão não ia embora; e quando encontrou acolhida no alheio coração, transformou-se em amor sereno e constante, como os mares de Azuk-bar-a-al e as mentes dos GHI. É, né. Fazer o que, você dizia. Cinara, Érica, Maíra; dê-lhe o nome que quiser. Horácio teve a sua secreta. A ela dedicou a sua ars poetica, os seus dáctilos e hexâmeros, nessa ordem, a matemática engendrada na afeição e no casto milímetro. Foi tudo muito prazeroso e não morreu.
E vem a dissertação: o café descansa e esfria no copo.
Uma receita para sôcos inglêses: tome um tijolo contendo uma área plana de pelo menos 10 centímetros quadrados, cave 1 cm de profundidade segundo a fôrma mais adequada ao objeto de lutas sangrentas; derreta numa panela antiga, delicadamente furtada aos cuidados maternos, o chumbo roubado ao balanceamento dos pneus dos carros estacionados à rua; despeje o chumbo sobre a fôrma que você esculpiu; deixe secar. Voilá.
Você pode provocar brigas quando quiser. Veja se a polícia não está por perto. Apalpe os bolsos, certificando-se de que o objeto de lutas sangrentas está lá. Chame alguém de feladaputa.
Se for para dar mau exemplo, capriche. Brother, vai ser um espetáculo.
This entry was written by , posted on 21 de janeiro de 2010 at 16:50, filed under Caolhices and tagged mau exemplo na cara dura. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Horácio construíra para si notável reputação de obscuro. Mares digitais infeccionados, enceradeiras perfeitamente reparadas, instalação do Linux num porco gigantesco (a ponto do host não reclamar da dor; o sistema operacional, com efeito, não estendera seus tentáculos para além da Primeira Camada Adiposa), contatos esporádicos com chineses na Áustria bolchevique.
Horário casa-se com Clarice. Têm dois filhos; e mais três depois do carnaval. A vaga para escritor fica para a sobremesa.
Em que cousas estás a te transformar?
Clarice tivera a última palavra: “Horário. Você é inesgotável. Vamos embora”.
Um arrepio percorre-lhe a espinha. Rach III.
O médico, húngaro que era, converte o português em outra língua de Baal:
“Desport gh malshuh, al’alarindek. Recesvindo”.
Era uma pergunta, mas Horácio julgou tratar-se — qual morsa em movimento — de uma afirmação.
Três anos de tumor e dois de samba.
This entry was written by , posted on 13 de janeiro de 2010 at 15:21, filed under Caolhices and tagged revolução francesa. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
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