Toda quinta-feira, eu e meu carro nos encaixamos, em virtude do número aleatoriamente atribuído à placa do segundo, na categoria “veículos de circulação limitada no mini-anel rodoviário” em horário de pico -ou seja, é meu dia de rodízio.
Digo eu e meu carro porque nossa circulação -não só a dele- fica limitada, tendo em vista a legislação que eu e você, cidadão, aprovamos (aprovamos?). Se vocês me conhecem, sabem que eu não vou falar de política legislativa, e nem de nada que seja identificável. Vocês sabem (admitam) que aí vem alguma loucura sem tumano.
Minha crítica ao Google: em todos os navegadores, mano tem que levar o cursor do mouse até o quadradinho flutuante de pesquisa e clicar o botão esquerdo para, só assim, declarar seu critério de pesquisa. Se a página carregar e você simplesmente começar a escrever, o input será ignorado.** Não é assim na tela de login do Gmail: tão logo a página carrega, o código imediatamente tabeia para a caixa com o seu e-mail; você pode carregar a página e começar a escrever o seu e-mail/login (sem o @gmail.com).
Digo isto porque, cês sabem, o tempo perdido em alcançar o mouse é pequeno -mas a cada dia, a irritação cresce. A ponto docê começar a tundar o Google no seu blog like it’s party time. Vamos lá, programadores. Eu sei que cês mexeram recentemente no esquema todo da página de pesquisa; mas, por clemência, deixe os meus nervos em paz. Eu sou do tempo do teclado. Eu e meus amigos. A gente usa tab e teclas de atalho. Mouse é da geração seguinte. A gente só usava mouse quando estava no 3D Studio, no Animator Pro ou no AutoCad. Cês têm que pensar nas geração passada.
(Admitam, não foi uma ”loucura sem tumano”: zugegeben, foi uma crítica um pouco maníaca; mas eu não falei de recursividade e estética, nem soltei um poema em prosa de arrupiar os cabelo).
A temperatura caiu para 8 graus Celsius. (O pessoal fala Celsos, decerto a pensar que algum Celso andou experimentando com termômetros e era esquizofrênico. E é bom ter em conta que a metade dos casos de esquizofrenia não-congênita, segundo conclusão recente publicada na Nature Genetics, está associada a mutações genéticas espontâneas. Mas não; Anders Celsius é um cara só, de Ovanåker/Uppsala/Suécia, e o termômetro que ele construiu tinha escala inversa à do que usamos, cf. The Britannica Guide to Numbers and Measurements, p. 231: a água fervia a zero graus Celsius, e este post mortem passou a ferver no inferno, porque como todo sueco se dizia protestante e era um ateu que usava peruca).
O gato de Schumpeter: ou temos uma tempestade, e ela fica em São Paulo; ou continua fresquinho, mas tempo bom, e ela sai.
A minha idéia foi relacionar dois problemas: o de Schrödinger e o da batalha naval amanhã, que na tese do jovem DFW aparece com um dispositivo muitinteressante: a dependência, do iniciar-se a batalha naval, apenas do uso do telégrafo (suponho criptografado) pelo Almirante responsável. Vou explicar melhor o bagulho, mano. O experimento mental de Schumpeter[é só sacanagem, não precisam se assustar], digo, Schrödinger und seine Verschränkung envolve um gato numa caixa que nego não sabe, em virtude de um dispositivo que por sua vez depende de [...] se o gato estará vivo ou morto, com a liberação/não liberação do veneno que o matará (podem chamar a P.E.T.A, People Eating Tasty Animals; o que não adiantará, já que gatos não são nada bons de comer, exceção feita aos angorás mal-passados). A pergunta é: antes de abrirmos a caixa, a proposição o gato está vivo é verdadeira ou falsa? E antes de o Almirante enviar o telégrafo, a proposição amanhã haverá uma batalha naval é verdadeira ou falsa? As relações entre um problema e outro (veja, trata-se aqui de lógica, e não de física) são obscuras, mas existem.
Eu vou deixar vocês pensando, mesmo sabendo que vocês não estarão pensando, como diz aquela canção.
_____
* Sim, leitor, Schumpeter não foi o criador da expressão. Mas, como princípios aplicáveis, temos os conhecidos TANSTAAFL e TINSTAAFL.
** Parece mesmo sacanagem dos caras, porque se ocê aperta tab seguidas vezes, passeia pela página inteira; mas ocê nunca cairá na caixa de texto da pesquisa. Tarados.
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Uma das delícias do G.U.R.P.S. Cyberpunk era meter para dentro do role-playing os mano que invadiam computadores. Quando mestrava G/S, fazia questão de mapear toda a rede de computadores de NY; e ai dos PCs (=playing characters) a isso aptos que não se arriscassem a quebrar senhas e a serem persistentes quando o carrier se perdia: era impossível cumprir a missão. Meus mapas, em folhas A4, com quadradinhos minúsculos representando terminais, se perderam; mas não a nostalgia do sonho -o sonho de quem de dia consumia literatura de ficção científica e tentava todas as combinações de configuração possíveis da BIOS do meu 486 com 2MB de RAM a fim de fazer a coisa entrar nos trilhos, e de noite lia o “Livro do Desassossego” e pensava em poltronas e lareiras longínquas, casa de avô, navios, boa tipografia, garotinhas ruivas e seu horror à cultura pop, e de madrugada escrevia um memorial ridìculamente inspirado no do Cons. Ayres.
Eram tempos de G. G., o formoso e timorato rapaz de mesmo bairro e escola, sofrer o pior tipo de bullying: o integral. Como era molenga, empurrávamos o rapaz na piscina, que dali não conseguia sair. Não é brincadeira: ele não conseguia sair da piscina. Óbvio, não sem a escada, que lembrávamos de retirar antes do empurrão. Passar três horas na piscina pode ser divertido, se o passatempo é voluntário. Mas G. não tinha o que fazer, porque estava sozinho e era desprezado.
“Fica aí, já já a gente recoloca a escada; ou então cê tenta sair, vai, sua bicha, faz um esforço”.
Outra nostalgia é com a central de observação de objetos voadores não identificados (não identificados por nós; e voluntariamente, porque o ceticismo, nessas horas, era um balde de água fria para quem queria se enganar e se divertir -perspectiva a evitar). Nunca vimos nada de estranho. Com exceção de gárgulas. Gárgulas com asas, como aquelas posicionadas no alto da fachada da catedral de Notre Dame. Wingèd beasts ao redor da torre de transmissão da TV Globo. Mas gárgulas voadoras não são extraterrestres, são? Têm mais de intra (libros) do que de extra o que seja. Mas o que intentávamos era justamente encobrir o intra.
Eu mencionei o Charlie Brown? Mas é para falar do tempo que gasto com essas memórias -mais tempo escrevendo-as, é verdade, do que com as vivenciar. Sempre relutei em vivenciar; sempre preferi viver. Mesmo que a perder de vistas o que é bom e importante. Porque viver é preferir as marginalia, meu, é ser comentador (não comedor), ou pior, glosador. Do tipo mais obscuro, que nunca rabisca os livros que tem porque “os grifos do momento nada valem em contraste com os grifos paralelos que poderiam ser” (provavelmente a pior frase que ocê vai ler em muito tempo, se costuma evitar, como sói, os progressistas e os companheiros).
E uma conseqüência de não vivenciar é esquecer. Consumir sistemas hídricos inteiros de informação sem nada reter de essencial. Qual era o plot mesmo de ET – O Extraterrestre? Num sei. Me diz aí, em linhas gerais, o que acontece em Badlands, um dos filmes de que cê mais gosta. Num sei. Quantos artigos tem o Código Tributário? Num sei. Quantos versos tem em média um canto da Commedia, que cê leu trocentas vezes antes, sequer, de ter sido alfabetizado em italiano? Num sei. Qual é o verbo grego para “cavar um buraco perfeitamente circular”, que cê conferiu mais de oito vezes no Liddell-Scott? Num sei. Quais os nomes das garotas mais importantes na fila de trás, na seqüência? Cyn., P., M. Ca., E., B., C., D., V., L. A., M., M. C., L., L., A., L. Ou seja, num sei, porque ocê pensou e num falou, uai. Quantos poemas do Auden cê decorou? Num sei. E do Pessoa? Num sei. Como cê escreveu tantos artigos, sobre assuntos tão díspares? Num sei. Por que todo mundo diz que cê é superdotado? Num sei. Cê fez teste de Q.I.? Num sei. Qual era o nome daquele professor de Português que disse ”eta menino assombroso”? Geraldo. Parabéns. O mais improvável cê lembra.
Tudo o que é irrelevante está no meu coração, i. e., eu sei de cor. (Minha persona literária: aquela que tem a impressão de que as mulheres têm a impressão de que meu dinheiro é infinito).
* * *
Vamos, meu, queremos algo relevante.
Era uma vez um cachorro que atendia pelo nome de Paulo. As crianças apelidaram-no “Espantalho” -não porque fosse amarelo, despenteado ou assustador, mas porque adorava espantar todas as coisas, muitas das quais sem sucesso; e porque tinha um sorriso morto em decorrência da frustração.
[Se alguém duvida da frustração dos cães, faça o 'teste do biscoito'. Não há cão que não adore um biscoito. Tire um biscoito do pacote e dê a ele. Ele pode comer ou não. O fato importante é que ele vai cobiçar não o biscoito saído do pacote, mas sim o biscoito dentro do pacote. A brincadeira de nunca deixá-lo ver o que há lá dentro, exceto pelas fragmentárias e "a-perder-a-identidade-ao-sair" amostras exteriores, deixá-lo-á mesoclìticamente frustrado, i. e., torturado a não mais poder, entre a fome, a sua/seu self-restraint e a curiosidade com o conteúdo que, quando visto, deixa de ser conteúdo visado e/ou desejado (a distinção é entre a volição intelectual, possuída também pelos cães, e a volição impregnada de saliva) para ser um biscoito imbecil. E por isso Paulo era frustrado, tão frustrado quanto G. G.].
Mas era o que ele fazia, para espantar toda a sorte de coisas.
O Espantalho latia, latia a não mais poder, a cabeça e os olhos na posição de quem encara um fantasma. Era esta, ao menos, a impressão do observador deslocado. Para a terceira pessoa, a voz narrativa, o cão, na verdade, latia para seu passado.
Ele vira-se para o passado e late, gane, chega a balir, até a rouquidão, até a afonia.
Um cão triste e afônico. Eis algo relevante.
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Era uma vez um cachorro que atendia pelo nome de Paulo.
Vamos começar de novo.
“Manfred, Prince of Otranto, had one son and one daughter: the latter, a most beautiful virgin, agèd eighteen, was called Matilda”.
Opa, peraí, Matilda? Como todo medievalista enrustido, nego dá nomes assim a personagens femininos (sim, eu uso no marrculino) -Matilda, Segismunda, Lucrécia- e pensa que a gente não vai perceber. Todo germanista sabe que coisas como Bertha combinam muito com antigos nomes bárbaros latinizados -e latinizar significa, basicamente, socar vogais indiscriminadamente, ou melhor, violentamente, até que o nome confesse: “Soy latino, romanus sum”.
“Cê não tem critério, meu”.
Dizia W. hoje, caprichando no hábito das elite do esporte cuja raiz é o verbo grego kataphroneo:
“Meu, pobre em São Paulo só usa vogal. Cortaram todas as consoantes. Cê ouve o cobrador conversando com a velhinha e soa algo assim como ã ô aiai oão. Eu num entendo nada”.
Eu disse que ia gravar a fala do W. para a posteridade, insisti em que me contasse a história dos pobre em São Paulo de novo enquanto eu acionava o gravador do iPhone, mas ele não quis repetir o que disse. Quod dixit, dixit. Como ocorre com as cenas de amor quente (amor quente? caceta) no cinema, é impossível “repetir” o ato in coena, digo, in cena: sexo só existe na intimidade. E misturar sexo com comida é tudo o que a cultura, em favor até da animalidade, poderia e deveria evitar.
E eu digo: o troller acaba de emitir um sonido de animal.
Germanismo é fogo. Mal você começa, e não divagar não é opção. Alemão quinhentista não sabia dizer nada sem dizer duas vezes, com mil barroquismos -com o perdão da expressão-, intróitos, admoestações, arcaísmos a afrontar o novel estilo (bem, talvez fossem arcaísmos para o futuro, porque eu reconheço que Lutero era moderno, o “gordinho tarado e estudioso”, na expressão da saLDOSA maloca). Melhor exemplo é a reconstrução de Thomas Mann do diálogo entre Adrian e Mefistófeles. Não há nada mais delicioso, iterativo e obscuro do que as falas do segundo. Eu sei que cês não gostam de obscuridade; vou parar de fingir. Essas passagens são chatas para caráleo:
Richtig ist, dass es in der Schalldichtigkeit recht laut, masslos und bei weitem das Ohr überfüllend laut sein wird von Gilfen unde Girren, Heulen, Stöhnen, Brüllen, Gurgeln, Kreischen, Zetern, Griesgramen, Betteln und Folterjubel, etc.
Deu, né.
Um dos temas do romance no séc. XIX é a influência -às vezes benfazeja, às vezes marfazeja- da amada sobre o herói (o que volta até o século XX, nas baladas do The Cure: why can’t I be you tãrã tãtãtãtãtã-rã, etc). É um medo do individualismo equivocado que deixa os escritores tão, mas tão cautelosos, que eles acabam por se proteger jogando tudo nos ombros do carinha do romance. Explico-me (como sempre, a explicação vai piorar tudo, mas aham senta lá, Cláudia). O individualismo é um carro-chefe das moderrnidade; contudo, existe mais imbricação, entailment (safadeza nada, isso é lógica) e elisão do objeto amado nos heróis românticos do que em toda a literatura antiga e clássica. Isso tudo me leva a crer que o clássico é mais “sou mais eu”; e que, sem prejuízo disso, o romantismo não deixa de ser belo ao aceitar fusões misteriosas de corpos aparentemente imiscíveis.
Parte da historiografia da literatura como objeto de estudo se ocupa com o desfazer e refazer da realidade de acordo com conceitos desse tipo: individualismo, romantismo, classicismo. Quando o último scholar enterra algum, ou todos, esses estereótipos, outro vem -alguém de porte- e os desenterra, geral ou particularmente. The King is dead, lon…, re-animators lovecraftianos, miolos, etc.
Por isso eu desisti de encher meus textos de parênteses, apostos e palavrões.
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to an unknown Luciana
[post de 25 de maio de 2011]
Eu volto a este blog chocado: reli o post de 6 de janeiro deste ano, e lá está:
“Já vou indo, já vou indo, Luciana”.
Até agora tento descobrir de onde tirei essa frase, porque a referência anterior era a um livro infantil que li aos 8 anos, a história de uma lesma que chega atrasada para uma festa. Ela é convidada e, como anda muito devagar, chega à festa com dias de atraso (ou seja, perde a festa). A idéia era uma analogia: como as pessoas chegam atrasadas na vida dos outros — como o encadeamento de causas é aleatório para nós. E como isso tudo talvez seja irônico para uma hipotética providência; porque a lesma do livro se chamava Lúcia, e não Luciana.
É lógico que, alguns minutos depois de ficar chocado com isso, disse a mim mesmo, como o coreano cujo filho trapaceia o seu prof. judeu (Larry Gopnik) no filme “A Serious Man” (2009):
– “Accept the mystery”.
O coroamento da frase do rabi medieval Rashi, que aparece no começo do filme:
– “Receive with simplicity everything that happens to you.”
Que é justamente o filme que eu estava revendo pela quinta vez hoje, antes de ler a frase sobre L.
Lucet lux in tenebris.
[nota de 3 de agosto de 2011]
Note-se que o título “House of Cards”, do post que menciona o nome pela primeira vez, combina misteriosamente com “L of Spades” (de 3 de agosto de 2011), uma referência ao tarô usado por Eliot ao escrever The Waste Land.
A carta certa saída do baralho.
Isso tudo é um estudo do acaso e das pistas que nós mesmos fornecemos sobre desdobramentos posteriores da vida. Como pode o próprio autor de um texto investigá-lo, procurando lá coisas que lhe tinham escapado à época? É simples. Basta que não apelemos a noções primitivas, como ‘subconsciente’, ou mesmo ‘inconsciente’. Há coisas ainda mais primitivas: a atividade dos harúspices, ou a dos augures. O áugure olha, é verdade, para elementos exteriores a fim de ali encontrar vestígios casuais da ordem posterior das coisas. Um filólogo lembrará que auctor e augur (talvez em razão de uma raiz comum, ainda desconhecida nos estudos indo-europeus, todavia seja conhecida a semelhança com o sânscrito-védico ojas) se confundem nos textos e na cultura latina. O autor do texto é, aqui, um áugure: descobre em si mesmo o acaso, a conjunção acidental de causas que produzirá um efeito inteligível, significativo, em sua vida.
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§ 1. Por exatidão, eu começaria minha tese escrevendo um catálogo de coisas que, dentro das dez categorias aristotélicas, estão ligadas a você, leitora fictícia, inexistente, não-habitual. O número não é infinito. Nego não pode sair por aí, como fiz questão de dizer dia desses, dizendo “o infinito e além” (uma tradução de infinity and beyond); e a razão é que “infinito” implica “sem limites” (fines, aliás, é o mesmo que limites em latim, apenas com ligeiros reparos semânticos de uso; dirá um nego da semiótica “reparos pragmáticos”). Pois bem. (Item zero da lista: o amor não tem limites e nem prazo de validade).
§ 2. [Recortado de um antigo diário] “Hoje minha secretária é que teve de me avisar que ia atrasar. Ontem tinha sido minha vez; e a desculpa -que, aliás, eu não devia a ninguém- era que os cabelos da moça eram bonitos demais, o suficiente para me obrigarem a permanecer por mais tempo na padaria Benjamim Abrahão em Jardins antes de tomar a Faria Lima em direção ao céu (meu escritório)”. (Primeiro item do catálogo finito: she’s a ginger).*
§ 3. Minha noção espacial acaba aqui. Estou ocupado demais com o único assunto: o das relações -reduções, eu diria, sem medo de ferrar a preposição que vem a seguir- entre a realidade e os modelos matemáticos. Pensamento é realidade? Sim, nesse caso incluo o pensamento na categoria ‘realidade’. Digo isso porque modelos matemáticos do pensamento (e isso, amiguinhos, é a lógica) -vamos trocar pensamento por raciocínio, antes que eu cometa uma imprecisão grotesca -, digo, porque modelos matemáticos do raciocínio (quem completar …’humano’ toma chumbo no trapaceiro, digo, no traseiro) acabaram por se revelar coisas surpreendentemente exatas. Tanto que, quando alguém resolveu dar a uma máquina uma série de instruções para computar -algoritmos-, acabou por mudar as estruturas superficiais da civilização material. O que estava fazendo era materializar, formalizar, explicitar o raciocínio humano de modo a poder deitá-lo n’uma máquina: um burro de carga ideal a funcionar sobre um hardware (sim, a vida dos burros é dura). (Segundo item: she’s got numeracy).**
§ 4. A enciclopédia de certo imperador chinês era simplesmente um catálogo com hierarquias e categorias absurdas, como (estou chutando; podem fechar os olhos e pensar no primeiro beijo e na menina cujo dente você quebrou com um soco, na quarta série; aquela que atende pelo nome de Cínthia e é filha de um ex-deputado): “animais com asas”; “animais dos quais o imperador gosta”; “animais com o ideograma chi“; “animais que fazem Huang-Ho lembrar-se do inverno”. (Terceiro item: ela detesta os chineses; “ô povinho, viu”).
§ 5. Você disse que a sua companhia era perfeita, incomparável, e ela duvidou da sua palavra. (Quarto item: é difícil convencer as gente de posse). Ela também não acredita na asserção: “cê é mais bonita que a Natalie Portman”, o que é natural. Ela me trocaria pela Natalie Portman se tivesse a oportunidade, como fez questão de confessar sem interrogatório, sem juiz, sem delegado, sem franciscano por perto advertindo, formal mas efetivamente, ”confessa a heresia, faz as pazes com o Senhor, e escaparás da pena” (quantas vezes eu vou ter de repetir que a Inquisição foi uma lindeza? Eu gosto, e acho que foi muito justa antes de cahir nas mão dos povão espanhol visigótico). (A frase mais ridícula que já ouvi foi: “quem queima livros, acabará por queimar pessoas”. A burrice de um historiador se avalia justamente no seu terreno; exageros e projeções históricas são anátema. Dizia um historiador português: “Quem julga a Inquisição com olhos iluministas, condena-se à fogueira”. A estrutura burocrática e lenta do Santo Ofício foi um modo de impedir, autocraticamente, o que o povo queria fazer democraticamente: executar em rito informal e sumário, ou seja, sem perdão e sem o devido processo legal, os hereges -que eram, basta um mínimo de noção histórica, não os “não-cristãos”, mas os que se faziam passar por católicos por pura safadeza). (Parênquima paliçádico ou lacunoso?).
§ 6. Nós gostamos de safadeza. (Quinto item da lista: nós gostamos de safadeza).
§ 7. As repetições não são, contudo, anátema. Podemos repetir. Podemos repetir que o amor não tem limites, e nem prazo de validade (sexto item).
———
* Sa L.D.O.S.A. maloca.
** Lembre-se o Sr. que a matemática é a melhor matéria para elogios. Nós sempre respeitamos gente que, dentre milhares, ou infinitas, respostas possíveis para uma questão, indica a única correta; e secretamente desprezamos -ao menos fora do Brasil- os que engambelam. Mas como dizia um juiz da Suprema Corte americana, não é de bom tom que a pessoa saiba grego; o importante, e o belo, é tê-lo esquecido. O mesmo vale para as matemáticas.
This entry was written by , posted on at 10:12, filed under Caolhices and tagged iluminismo. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Deus está em tudo o que se perde e se move.
Não sem motivo fugiu Aquiles: sem medo das estacas e das ordálias.
(Fosse ordália o nome de uma flor…!)
Deus está no que se perde e se move, no que respira e pode não mais respirar — não no que é, mas no que está em.
Quando ouço música antiga, os ouvidos se me fazem moucos. Porque amar demais é já não ser em si. É viajar e encontrar a sarabanda, o cheiro de rio, e não dizer nada.
Êxtase: não estar em si: pendurar nas costas a trouxinha, como uma lesma, e partir para uma festa (aquela festa que terá acabado quando chegares). No coração seco, a varinha de condão, feita de carvalho e fibra do coração de um ornitóptero…
A festa acabou ontem. Chegaste e ela já não era. Começou e terminou sem ti — porque, não custa repetir, estavas a caminho.
Já vou indo, já vou indo, Luciana.
This entry was written by , posted on 6 de janeiro de 2011 at 13:42, filed under Caolhices and tagged Luciana. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
A FACHADA de um solar habitado por um homem solitário parece, de longe, um palácio; quando vem o verão, um charco fundido ao terreno desigual; de perto, um simples solar. Olha e contempla: o homem já não se pertence a si mesmo. Existe juntamente com a sua casa, respira sobre as suas páginas como se estivesse morto e, se por um momento suspendêssemos o movimento dos pulmões, perceberíamos que ele mais finge do que diz a verdade (fenece!). Algumas lagartas comem as Hexenpflanzen e Hexenkräuter que, por engano terrível, se fixaram aos muros ao redor do solar. Nem tu nem eu podemos fazer nada.
O homem está imperturbável, perdido em não se sabe que de doutrinas quixotescas, que de ressentimentos, que de triunfos. O homem leu o suficiente para escrever com elegância; mas nada deita ao papel. Imbuído da ciência da epigrafia, nada decifra, nada esculpe, v. i. Crê-se um deus malogrado, um demiurgo impotente, mas um deus, um demiurgo (já diluíste, numa só, a natureza de ambos?).
A fábula termina quando três personagens de Dante, o leopardo, a loba e o pingüim por fim logram passar pela estreita porta de entrada (sempre aberta, mesmo de longe). A fábula termina quando o homem, aborrecido, exclama:
– Nada sei de alegorias. Fait accompli.
This entry was written by , posted on 22 de janeiro de 2010 at 17:20, filed under Caolhices and tagged vazio. Leave a comment or view the discussion at the permalink.