Muitos artigos para escrever e revisar, mas sim, vamos complicar as coisas.
Agora, livros que estou lendo:
1) Infinite Jest, de David Foster Wallace. Após o frisson do começo dos anos 00, já é possível ler calmamente a obra mais importante do escritor, morto em 2008. As 1000 páginas, com notas de rodapé, do romance inserem-no na tradição If It’s Fucking Huge It Gotta Be Fyne. Uma antiga professora de literatura dizia semanalmente: “Eu não entendo como se pode escrever tanto. Eu não entendo”. E seu lindo rostinho permanecia naquele que estado que indica incompreensão. Com DFW isso se torna qualificado: como tanto, e sobre essas coisas? Engenharia, química, biologia, matemática, física, marketing, cartas comerciais, burocracia universitária, terrorismo, psiquiatria, ‘drogadição’. E mais. E muitas abreviaturas misteriosas. E muitos personagens. Incongruências temporais. E blah blah. Mas DFW escreve bem. E se afeta uma erudição que não tem — consultando uma bibliografia invejável –, isso acontece no escurinho do cinema. E para justificar que seus conhecimentos de matemática são maiores do que os do público leigo e menores do que o dos experts, escreve
2) Everything and More – A Compact History of ∞, um ensaio sobre o infinito cujo tema central é a matemática transfinita de Cantor, de que falamos aqui. Apenas comecei a ler; e já estou ciente de que há críticas vindas da comunidade especializada. Creio, contudo, que o trabalho de DFW é legítimo — trata-se de pop technical writing, nas palavras do autor. As passagens mais difíceis estão sob o rótulo-sigla IYI (If You’re Interested), e podem ser evitadas sem grandes prejuízos.
3) E, ahm, o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein. No segundo semestre pretendo pegar umas aulas na USP com o “dono de Wittgenstein” no Brasil. A fama o precede.
E os de costume.
E, se querem hardcore do bom, ouçam “Start Today” (1989), do Gorilla Biscuits.
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Para não acharem que morri, algumas trivialidades e notícias:
(i) Leio ainda o Dr. Faust do Mann, pausadamente, deixando que seus longos períodos se incorporem ao meu sistema nervoso parassimpático, bem lá na medula sacral, segmento S4;
(ii) Deixo esperando o The Second Coming de Walker Percy, uma excelente pedida para quem gosta de romances, ahm, psicológicos (ele lida com a depressão de um modo magistral; mas o melhor de tudo é lê-lo sem sofrer dessa terrível maladie). Ganhei de presente de quem mais prezo e não vejo a hora de começar. Depois que sumiu a minha cópia alemã de Love in Ruins…
(iii) Escrevo minha coluna e mais um artigo para a próxima Dicta&Contradicta, que estará cheia de surpresas. O artigo me obrigou a ler como há tempos não lia.
(iv) Prossigo, após retomá-lo, o estudo do hebraico. A dificuldade em memorizar o vocabulário também prossegue. Minha meta mais ou menos firme é poder ler a Torah e a Mishna para estudos de direito comparado.
(v) Leio o gracioso Introduction to Mathematics de Alfred Whitehead. Meu sonho é enfrentar o primeiro volume dos Principia Mathematica, mas não tenho planos. Recomendo o primeiro a todos; descobri aqui uma versão escaneada da Universidade de Michigan.
(vi) Continuo, e pretendo continuar até ser despedido, fazendo parte do time de dez colunistas fixos do Ordem Livre.
(vii) Adoro Brasília por motivos rouxinolizantes. Mas é fato que a cidade tem o melhor pôr-do-sol do Brasil: especialmente olhando a ponte sobre o lago Paranoá (a “Ponte JK”) de certa área na região do lago sul. Alex Kapranos comentou no Twitter — olha a fofoca — que ficou extasiado com a cidade. Veja, não é que seja um primor arquitetônico; nem que esteja bem conservada; nem que não tenha problemas sérios; nem que não esconda gente pouco séria; é que Brasília é peculiar: uma singular catástrofe estética, na expressão de uma conhecida.
(viii) Revi The Big Lebowski (irmãos Coen, 1998), e não parei de rir até agora com dois dos personagens mais hilários da história recente do cinema: The Dude e o cowboy que conta a história em fragmentos (especialmente na cena final; não são de morrer aquelas caras e sorrisos irônicos? aquele bigodão? bah). Os niilistas alemães, por sua vez, estão no Top Ten da sátira übergeek. Vi don’t believe in nosing! vi don’t believe in nosing! O filme é quase inútil, a começar pela estética dos jogos de boliche, dos personagens que entram e saem sem dar explicações, dos telefonemas que nada têm a ver com o enredo (grande sacada, que era minha idéia ‘original’). Mas é precisamente por isso que se enquadra no gênero ‘comédia’. Xesuis, e o guarda-roupa much beyond casual de Jeff Bridges? Além do mais, é o filme que conheço com a maior ocorrência das palavras “fuck” e “man” (repare na pausa entre as frases e o “man” subseqüente no modo lebowskiano de falar: I don’t like it… man; e mais: God damn you Walter! You fuckin’ asshole! Everything’s a fuckin’ travesty with you…, man! And what was all that shit about Vietnam? What the FUCK, has anything got to do with Vietnam? What the fuck are you talking about?); provável seja o ganhador. Alguém deve ter contado. Se alguém souber, e-mail me e eu publico a fonte. The Dude abides. I don’t know about you but I take comfort in that. It’s good knowin’ he’s out there. The Dude. Takin’ ‘er easy for all us sinners. Shoosh. I sure hope he makes the finals.
(ix) E, por favor, se alguém souber que Steve Buscemi distribui abraços viris e desinteressados, just let me know; eu QUERO um.
This entry was written by , posted on 31 de março de 2010 at 12:00, filed under Geral and tagged alma. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
I. Sempre me surpreendeu, depois de ler os escritos de Niklas Luhmann sobre a burocracia/tenocracia e seu conceito de ‘Legitimation durch Verfahrung’ (legitimação pelo procedimento), o paradoxo do grau equivalente de veracidade e de distância da realidade gozados pelos documentos processuais e policiais. Por um lado, a documentação é bastante exata — gozando o estilo do foro de certa dose de realismo e depreocupação com detalhes inúteis –; mas o acesso aos fatos mesmos por parte dos magistrados é ainda assim extremamente limitado, quanto mais no ´mare magnum´ de processos numa metrópole. No sistema italiano, a designação de juízes de instrução ou ‘questores’ torna o trabalho de colheita de provas — neste caso criterioso, em se tratando de especialistas dotados de uma autoridade real — bastante eficaz (aqui o juiz é agende de dois sistemas: o inquisitório e o contraditório, o autoritário e o ‘democrático’); entretanto, o princípio da verdade real fica formalmente prejudicado pela mediatez: o juiz do caso recebe o processo já instruído pelo questor, ou seja, não há contato direto entre o magistrado julgador e o mundo exterior aos autos (aqui sim: quod non in actis non in mundo est). Mas novamente não é o sistema que resolve os problemas da veracidade, mas sim a conduta profissional dos magistrados.
II. Parece haver uma conspiração envolvendo a Apple/iPhone e as operadoras de telefone celular. O iPhone não possui um sistema de bloqueio seletivo de acesso à internet via ‘data network’ do celular; quando você está conectado a uma rede wi-fi e é desconectado, com uma rapidez monstruosa o iPhone se conecta imediatamente à rede de dados do celular, tornando uma distração besta algo relativamente caro (no meu caso não isolado, R$ 15,00 em poucos segundos; o equivalente a duas Heineken e dois maços de Marlboro Red). Não pensem que sou ingênuo e que não tive já minha fase hacking/phreaking/fuckingsmartassdaporra. O fato é que o problema só se resolve — sim, eu já descobri como, mas não vale a pena; por enquanto fica a dica óbvia de colocar o iPhone no Airplane ModeOn antes, durante e depois do uso do wi-fi, e não ficar abrindo sem querer o Safari, o AppStore, o e-mail, etc., senão rola um gato federal, não-ostensivo e atávico de 15 patacas por megabyte — com gambiarras indignas da aristocracia. Ow, galeren da Apple, alguém aí me lê? Preciso escrever em inglês? O brother where art thou? Foi fazer pacto com demônio(s), neh naum.
III. O mágico número três.
IV. Achei graça ao saber que já em “The Time Machine” de H. G. Wells, ao que parece, a idéia do tempo como quarta dimensão — muito mais convencional entre os físicos, conforme averiguei, do que dogmática — já era popular. São deliciosas (argh, odeio essa expressão, que me lembra críticos da Veja) as primeiras páginas com a narração da conversa entre o viajante do tempo e seus interlocutores. Ademais, note-se que Wells está dotado de um didatismo pouco irritante e consegue transmitir uma sensação invulgar de verossimilhança a respeito do mundo paralelo ficcional. Ounn.
This entry was written by , posted on 24 de fevereiro de 2010 at 17:54, filed under Geral and tagged iPhone, Luhmann, tecnocracia. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Há poucos dias encontrei no toilette uma tarântula com um palmo de existência. Ela lentamente se escondeu atrás da toalha de banho; a surpresa diante do encontro, de ambos os lados, prolongou-se silenciosamente (wha?, pensava eu repetidamente) por uns três minutos. Dar cabo dela pareceu-me empresa fácil: esmurrar a toalha contra a amiguinha. Não o fiz; deixei-a lá. Ela permaneceu no mesmo lugar por dois ou três dias até que alguém mais cavalheiresco viesse realizar o serviço. Um soco preciso e poderoso contra a toalha.
Meu grande sonho aos 9 anos era ter uma tarântula; dar-lhe insetos, levar para passear, assustar as visitas. Um desejo da infância, quando menos se espera, se torna realidade. E então você espera que alguém venha e o esmague, cumprindo um dever corriqueiro.
Enquanto isso, sorrateiramente, um desejo muito maior se realiza e permanece. E você descobre, como que sufocando o Jim Morrison que há lá dentro, que ele era muito mais do que algo que simplesmente se almeja.
Amor é disciplina.
(Valeu, Clarice Lispector, bjs).
This entry was written by , posted on 20 de fevereiro de 2010 at 12:14, filed under Geral. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Noite surpreendente: Thunderbird, ícone da adolescência, Clarah Averbuck e seu marido Reginaldo, baixista do Vanguart (banda elogiada muitos posts atrás juntamente com o Dimitri Pellz). Tudo por acidente.
Uma coincidência não é um acaso; é uma conjunção de causas segundas que, aos nossos olhos, parece pouco provável. Só isso. O acaso só tem um valor subjetivo: e é em razão do seu excesso que acabamos por renunciar, paradoxalmente, ao mistério. E blah blah. Pensei nisso ao ler “Música do Acaso” do Paul Auster ano retrasado, cuja quasi autobiografia leio no momento, Hand to Mouth (e que me traz as mesmas impressões de acaso/providência).
Voltei ao Finnegans Wake. Estou ainda a esgotar a primeira página, embora sempre tenha utilizado o livro todo como um oráculo meramente recreativo. Torçam o nariz, anti-joyceanos fanáticos.
This entry was written by , posted on 6 de janeiro de 2010 at 17:35, filed under Geral and tagged acaso. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Gosto daquelas histórias de casamento relâmpago (como um seqüestro), esses resquícios da Idade Média. Eles são subversivos, incorretos, provocadores, como observou Chesterton em algum lugar. Não os aprovo, mas eles dão um gostinho de heroísmo, de loucura de sanatório abandonado, e tornam o mundo algo mais misterioso.
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Parei de ler. Talvez esteja seco e decepcionado por dentro. É preciso reencontrar a literatura, o estudo, o esforço por refletir a cada período de crise. Agora caiu na minha mão “Praeambula Fidei: Thomism and the God of the Philosophers”, do Ralph McInerny, que ganhei num jogo maluco organizado por um amigo. Mas não dá, por Júpiter. Quero estar louco para me jogar em algum romance enorme do Thomas Mann, que os alemães letrados – a começar pelo übergeek Rudolf, meu único leitor germânico – tanto esnobam.
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No final de semana, experimentei dois vinhos freqüentadores do Top 100 do Wine Spectator, um dos melhores – especialmente por contar muito com o custo-benefício – rankings de vinho que existem por aí. E agora tenho uma uva favorita: Shiraz. Ao que parece, tudo que é Shiraz e vem da Austrália é bom. Fica a dica. Não é necessário gastar muito; os enófilos contemporâneos têm esnobado os vinhos exageradamente caros depois da grande onda da Austrália, da África do Sul e da Califórnia, que produzem coisas maravilhosas por preços razoáveis. E mesmo os franceses tradicionais: um Châteauneuf-du-Pape de 2007 (Domaine du Vieux Télégraphe), que já experimentei em outras safras, está em terceiro lugar esse ano e custa em torno de R$ 200,00 no Brasil, se for adquirido no lugar certo.
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Não há nada pior do que tomar pau numa prova, perder o emprego, ser chutado pela namorada, ser enganado, caluniado, traído, espancado, assaltado, ter o blog invadido por hackers, perder um membro da família ou um amigo, ser condenado num processo judicial… e não ter o bom hábito do tabagismo para compensar o ocorrido com um mísero cigarro, ou uma série deles. Tenho dó dos não-fumantes, embora eu mesmo sempre esteja em risco de entrar para o clube dos ex-fumantes. TRU.
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Sim, e releiam “O Pequeno Príncipe” venzenquã, estudem matemática (teoria dos conjuntos e teoria dos números) se puderem, ouçam Marin Marais e Mahler, dêem nomes compostos para os filhos, espalhem discretamente que a pornografia é para os losers e digam ao Woody Allen para continuar dirigindo filmes anualmente. Assim o mundo se transforma em algo mais confortável e você pode ser realista/romântico em paz.
E não escrevam romances. Caso cometam esse delito (imputação objetiva), não dêem a ler a ninguém, com exceção da pessoa que te ama incondicionalmente, como Petrarca amava Laura e Laura Palmer amava os demônios dos quais fugia. Peace, bro.
This entry was written by , posted on 16 de dezembro de 2009 at 9:10, filed under Geral. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
Coloquei um breve post no site da Dicta com o meigo título “O mediador entre a cabeça e as mãos (o coração)“. Estão convidados.
This entry was written by , posted on 22 de novembro de 2009 at 11:07, filed under Geral. Leave a comment or view the discussion at the permalink.
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