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The truth about unicorns

“I was brought up to believe in God, therefore God exists” and “I was brought up to believe in God, therefore God does not exist” are fallacious arguments. Why? It goes without saying that the former sentence is not usually made use of, even though it could be heard in some kind of Red Neck chatter or at an informal Tea Party meeting. But as regards the latter, its use (or else the use of variations thereof) is attested by the millions.

But the fact is, the existence of wrong reasons to believe in x or -which is stronger- simply to believe in x does not imply the falsity or truth of x. You may have been forced to convert, or brainwashed so as to become a hardline atheist as a child; these claims do not defy the objective truth -whatever it may be- about God.

Let w be a possible world where God exists. Therein the proposition “God exists”, which we call henceforth E(g), is true. Therefore, the proposition “I believe that x”, whatever x is, clearly does not affect the fact that  in w the proposition ”God exists” must be true according to the usually accepted semantic conventions; it includes x = “God does not exist” and = “God exists” as much as x´´ = “Frank Zappa is dead”. That is to say, the proposition E(g) is independent of any given proposition of the form “I believe in x.

That may be due to the neutral nature of belief statements as regards the truth-functionality of the thing which is subject of belief. The proposition “I believe in x” may be true or false, assuming that you could be sure of your, or someone’s, belief; but it does not affect the truth-functionality of x. It may be said that every adult white male (I’m kidding) agrees that unicorns never existed. But suppose something like an unicorn skeleton were to be found. It may be disputed whether the gefunden ‘unicorn’ could by rights be named “unicorn”, even if it were the case that it came to reflect, so to say, every property assigned to it by our actual myths. But it cannot be disputed that the discovery did not affect the truth-function of the proposition “unicorns never existed” -it was always false (if the name “unicorn” is agreed to be the proper designator for the thing) in w, the world in which the proposition is set to be true if the objective of the propostion exists (= the situation or fact that unicorns existed obtains).

This is so obvious people seem to ignore it.*

* What is not so obvious is whether one should or should not insert a comma between obvious and people.

Escrito por julio lemos, postado em 14 de dezembro de 2011 às 16:37, arquivado em Filosofia, Geral, lógica e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

O barbeiro dessa vila

Kleene, no seu clássico Introduction to Metamathematics, refere-se a um antigo paradoxo -o do barbeiro. Diz ele:

A popularization of the paradox (Russell 1919) concerns the barber in a certain village, who shaves all and only those persons in the village who do not shave themselves. Does he shave himself?

Em bom português, o paradoxo pode ser formulado assim: há um barbeiro numa vila que barbeia todos e somente aqueles que não barbeiam a si mesmos. Esse barbeiro barbeia a si mesmo?

O problema é sempre esse: se o barbeiro for se barbear, estará excluído do conjunto “todos e somente aqueles que não barbeiam a si mesmos”, e portanto, paradoxalmente, não se barbeará. Suponha que ele não se barbeie. Então ele se barbeará. Etc, ad infinitum.

Kleene até sugere:

Of course here we can escape the paradox simply by concluding that there never was such a barber.

O que seria escapar pela tangente, e de modo ilícito.

Eis que o conhecido Computabilidade, Funções Computáveis, Lógica e os Fundamentos da Matemática de W. Carnielli e Richard L. Epstein sugere como exercício, na página 27: “Resolva o paradoxo do barbeiro”.

Então eu passei o meu almoço pensando em como resolver o paradoxo. Se há uma boa solução para ele, certamente alguém já a encontrou. Sem ter notícias do fato, tentei encontrar a minha possível solução; é a seguinte.

É preciso supor uma noção de procedimento e de temporalidade.

Supondo uma sequência, contudo, podemos pensar num programa assim.

Considere o conjunto A = {a1, a2, …, an} de pessoas na vila que não barbeiam a si mesmas; e o conjunto B = {b1, b2, …, bn} dos que se barbeiam, de modo que A intersecção B = {nulo}.

Ou seja, se x pertence a A, então x não barbeia a si mesmo. Se x pertence a B, então x barbeia a si mesmo.

Defina-se (o que não faz nenhuma violência à formulação): “barbeia a si mesmo” = barbeou a si mesmo uma ou mais vezes em <t1, t2, …, tn>, dado tn < tm, sendo tm o momento da pergunta.

A pergunta é se o barbeiro barbeia a si mesmo, considerando a regra de que ele só barbeia os membros do conjunto A.

Se o barbeiro responde que sim, é membro do conjunto B.

Se responde que não, é membro do conjunto A.

Um membro x de A muda para o conjunto B ao barbear a si mesmo. Se x pertence a A e Fx é o caso, sendo F barbear a si mesmo no momento t1 (finalizado), então esse x de A passa a pertencer a B em t1.

Suponha que o barbeiro já tenha barbeado a si mesmo (executou Fx, e portanto em algum momento saiu de A e foi para B). Então a resposta será sim; nesse caso, o barbeiro pertence ao conjunto B. Portanto ele não barbeará a si mesmo. Temos aí uma garantia contra o regresso ao infinito: como o barbeiro já barbeou a si mesmo, não voltará nunca a pertencer ao conjunto A, e a assim regra de que ele deve barbear quem não barbeia a si mesmo, exclusiva para membros de A, não poderá incidir de novo.

Suponha que nunca tenha barbeado a si mesmo (~Fx). Então a resposta será não; nesse caso, sendo do conjunto A, o barbeiro barbeará a si mesmo, precisamente em t1.

A partir desse segundo caso e momento, a resposta dele para as próximas perguntas será sempre “sim”. Executou-se Fx, e o barbeiro foi para o conjunto B em t1. Em consequência, ele nunca mais barbeará a si mesmo.

Portanto, o barbeiro só pode se barbear uma vez; daí em diante, estará excluído do conjunto A, e portanto proibido de barbear a si mesmo mais vezes. (“Solução do barbeiro barbudo”.)

Suponho que seja possível formalizar essa “solução” segundo a lógica temporal de Prior. Mais adiante pretendo aplicar ao paradoxo a teoria de bases (especialmente Kit Fine), além da idéia de pontos fixos articulada matematicamente por Kripke em Outline of a Theory of Truth. (Quem copiar a idéia terá a sua garganta barbeada, e uma só vez.)

A “solução” envolve um contexto: o da temporalidade, e da incidência da regra do barbeiro sobre um estado de coisas, um estado de fatos definido (se é o caso, ou não, que o barbeiro barbeou a si mesmo). Evidentemente, “as it is” o paradoxo é insolúvel; Smullyan supõe, inclusive, que se trata de uma mera contradição (supor A e não-A ao mesmo tempo), e não de um paradoxo.

Escrito por julio lemos, postado em 26 de outubro de 2011 às 12:41, arquivado em lógica e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

German Scholars

I’m indebted to a lot of people as regards my education. It may strike you as quite strange that I’m not right away indebted to teachers, professors or staff members of my faculty, except for my PhD/thesis advisor and some colleges. Well, let’s forget the debitor/creditor relationship for a while. The individual I have in mind today is Prof. Dr. jur. J. Platschek.  (I won’t say a word about Prof. Dr. jur. Dr. phil. H. Kaufhold or Prof. Bürge -my thesis advisor- because the former is a long story and the later is a Swiss.) I’ll just call him Dr Platschek -well, that’s the way I used to address him.

You know, by the time you land on German 3N-Dimensional space you should not call someone “Du” (you) unless you’re a close friend. I remember “duding” Dr Platschek. I didn’t feel right going that way.

“Don’t go that way”, he said.

And I was like:

“Oh. Sorry, Prof. Platschek.”

“I’m kidding. But wait, why in the rotting Kingdom of Denmark am I speaking English?”

“Your life’s being vorlesen to the Internet audience. I’m translating the things you say. Be cool like Miles Davis.”

“I’m into Mingus.”

“Whassa saying? I wouldn’t be a dear and collect jazz records if I ever had the chance to publish a paper in Philologus.

“I did publish a paper in Philologus.”

Well, that’s it. Even as an amateur philologist in my sweet seventeen (for a couple of years, to be more than half precise) I’d dream about late 19th century issues of Philologus, “one of the oldest and most respected periodicals in the field of classical studies”. Even at the time I knew: if you’re in Philologus, you’re no amateur historian.  You’re a philologus. I was having lunch with someone who was more than a historian.

“The thing is”, I said, “you’re now on the Internet. You can sue me.”

“Nah. We’d better go back to Mingus.”

So he was into jazz.

Not so sure.

The thing we always did after lunch at the Mensa was to grab some coffee. As jurists and historians we’d discuss the legal issues regarding the Pfand item we’d been given on our first Mensa day. A Pfand is some kind of pledge or deposit: you give money as a means of ensuring the good’s return (the cup, for instance) in the future; in exchange for the money you get a piece of metal or ticket of the same value. (I have a EUR 1.00 Pfand in my wallet.) To make long story short, without a Pfand you’re not entitled to drink coffee. And that was a good topic for jurists.

“How would post-classical Roman Law deal with a case of missing but allegedly given-against-verbal-receipt Pfand?”, someone yould ask, and I’m trying to inside-quote the German syntax here while you take a nap.

And Dr Platschek would make a joke and deliver a sound and complete lecture on the subject with attachèd examples and definitions the details of which I’m in no position to provide the reader with.

Here’s a picture of Dr Platschek. Always in his not so fashionable Jacke -a traditional Bavarian costume which oh my God costs as much as EUR 1,000.00 if you’re out of luck-, Dr Platschek is the perfect instance of  the ‘skeptical-illuministic’ breed of Munich that happens to grow and dwell on a clearly bounded district thereof which I won’t mention out of respect for its inhabitants. His weird accent was by no means known to me. They say it is so Platschek-like it’s not even fucking German. Their parents won’t give an account of it. Father and mother Platschek just say he was born speaking like a 18th century Swiss kid who dreamt every night about neverending talks with a Latin-syntaxed Austrian Cicero of sorts. It can’t even describe it. (I just love accents and stuff -I tried and I tried and I tried hard to speak Platschek-Deutsch. But I failed. And I was so stupid as not to record him speaking so that I could practice later or, like, go ahead with my idea of scrutinizing all the features of Platschek-Deutsch or whatnot.)

Does Dr Platschek believe in God?

“Dr Platschek, are you a Catholic?”

“I’m a Münchner, why should I not be a Catholic?”

“So you believe in God?”

“No.”

“A-ha, a filthy Atheist!”

“Anti-theist Catholic, please.”

You think someone who knew all Cicero’s witty and erudite speeches & letters & essays & all by heart could have given me a clear-cut crystal-clear account of his beliefs? Platschek said he was an agnostic Catholic at the moment (2009), having been a catholic Agnostic back in 2008 and a fearful Jesuit of Reason back in 2007. I’m sure you all get it. (You say “O o o, wait, let’s set this thing straight” and I say “no no no”.)

He’s now in Göttingen, following the steps of our common ancestor Franz Wieacker. I was a witness to his obtaining of the status of Priv.-Doz. (old Dr. habil.). His thesis was absolutely brilliant. Everyone agreed thereupon. His lecture was so demanding that students as well as professors would at random get out of the lecturing room to get some air or puke. (I got pretty nauseous myself, you see.) The last time I saw him he was in his study. T. Johansen, a fine papyrologist girl, an assistant of Platschek’s Doktorvater, said “Hey, Julio’s on his way to Sao Paulo; say goodbye to Julio”.

He was like:

“Ah.”

That was his utterly misanthropic way of saying goodbye to a friend.

Escrito por julio lemos, postado em 14 de outubro de 2011 às 22:09, arquivado em Acaba com ele e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

alt.fiction

Uma árvore havia caído na Rua Helena, na Vila Olympia, reduto de douchebags responsáveis e trabalhadores. Pela manhã, a queda da árvore provocou o fechamento da rua inteira -e uma hora de atraso para quem quer que trabalhasse nos endereços contíguos. Pela tarde, como tivesse a árvore caído sobre os fios de alta tensão, interrompeu-se abruptamente o fornecimento de energia elétrica para a região a fim de que a grotesca angiosperma eudicotiledônea fosse desmembrada e arrancada pela raiz.

Sem luz o escritório, a rede caiu, as luzes se apagaram, os computadores ficaram negros. Os gemidos da corrente elétrica transformada em fogo se fizeram ouvir, estrondosos.

(Dois anos antes, o objeto do nosso narrador em terceira pessoa -que ocorre de ser o próprio narrador em primeira pessoa obnubilado pela timidez- presenciara incidente semelhante no Sumaré. Acompanhado de um engenheiro elétrico, passaram mais de meia hora contemplando, como crianças, as bolas de fogo (CxHyOzNt + (x+y/4-z/2)[O2 + 3,76N2] → xCO2 + (y/2)H2O + (y/2)H2O + [t/2+3,76(x+y/4-z/2)]N2) geradas pelo atrito entre dois fios, em razão da queda de um galho considerável de anônima árvore do Parque da SABESP.)

Ao chegar em casa mais cedo, pôs-se a trabalhar.

Recebeu telefonema dela. Brinde da tarde. Tinha sonhado com um estranho dual do Thiago Lacerda, que era, todavia, naquele mundo onírico anti-aristotélico, o objeto amado com outro corpo, mas o mesmo nome romano, dominador, viril, penetrante. Desligaram.

Ela foi tomar café. Ele tomou um exemplar de Nelson Rodrigues (ed. comemorativa da Nova Fronteira, 2006) e sentou-se para, pela primeira vez, ler uma peça do dramaturgo. Pimba.

“Filho da mãe! Isso vicia, cacete”.

O objeto amado ainda comeu metade de uma barra de chocolate meio amargo. “Contém antioxidantes”. O que faz um antioxidante? “Não sou metal, porra”. Há décadas vinha tomando banho, visitando praias esporadicamente, expondo-se assim aos perigos do elemental da água -como, aliás, diria qualquer rapazote com quilometragem em D&D-, e nunca se preocupara com a ferrugem.

Tentou pinçar um poema de Sá de Miranda que dissesse o que a timidez o impedia de dizer. Mas sem sucesso. Querem saber? Há um poema do mesmo coimbrão solto pelos metrôs de São Paulo; o mesmo rapazote o fotografara dois anos atrás -se antes ou depois do incidente do galho, não há notícia mnemônica que permita afirmar.

(E ela, linda, dizendo à mãe que lhe mandei um beijo.)

Escrito por julio lemos, postado em 7 de outubro de 2011 às 18:33, arquivado em Contos e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Superveniens

Quando alguém me diz que leu meu blog inteiro, logo retruco: “cê podia ter lido três romances do Dostô com o tempo gasto, seu animal”.

E objetivamente estou certo.

Acabo de ler The Third Policeman, do nosso amigo de pseudônimo Flann O’Brien, menos conhecido como Brien O’Nolan -versão inglesa do seu nome real. Já o tinha lido quase inteiro há muitos anos; e esse quase inteiro realmente faz toda diferença, porque a novela tem final dos mais intrigantes. Não costumo ler romances pensando no plot; mas a trama desta conhecida ficção de Flann O’Brien é impressionante. (Embora eu arrisque dizer que ele meio que acertou acidentalmente). O processo de estranhamento começa no preciso momento em que o personagem central anônimo e narrador toma posse do produto do seu crime -uma espécie de cofre (uma caixa de cor negra) com muito dinheiro, pertencente ao homem que ele assassinou em co-autoria com seu amigo John Divney. O leitor não terá idéia do que realmente ocorreu até o final. Conhecida como obra cômica, na minha opinião é dos livros mais assustadores já escritos, pela trama por assim dizer ‘metafísica’ desenhada com invulgar habilidade pelo autor e pela atmosfera de crescente awkwardness. Creio que nessa novela há o exemplo mais bem sucedido de confusão autêntica -muito diferente da confusão mitômana, deliberada, induzida no leitor pelo narrador de Os Demônios de Dostoievsky-, que atinge não um mero personagem, mas a própria narrativa. O livro é um verdadeiro mindfuck. Isso, obviamente, sem prejuízo das suas cenas cômicas (a exemplo da descrição do genial De Selby por meio de prólogos de capítulo e enormes notas de rodapé, acompanhada da discussão acadêmica sobre a sua vida e seus feitos com o uso dos seus comentadores) e até incrivelmente comoventes (como a fuga do narrador numa bicicleta demasiado humana; sua melancolia e abandono).

Não sei por que motivo, não consegui escolher outro romance para ler depois desse. Eu queria era nunca o ter lido para iniciar, agora, a sua leitura e entrar na companhia distante de De Selby e seguir os personagens até a eternidade, que fica logo ali, virando à esquerda naquela estrada.

(Mais estranho ainda: logo após escrever o parágrafo anterior, tomei um exemplar de Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk do velho Leskov e fui almoçar. E, ahm, acabo de ler a novela -neste exato momento. A tradução direta do russo feita pelo Paulo Bezerra é bem cuidada, embora tenha Ns. D. T do tipo: “Entre os russos, o emprego do nome acompanhado do patronímico denota respeito”. Ah é, bicho? Acho que vou ali comprar o meu Англо-русский словарь математических терминов.)

E lá vai John W. Dawson, Jr., no prefácio da sua biografia de Kurt Gödel: ”I have not, however, presumed any acquintance with modern mathematical logic, since even among mathematicians of the first rank such knowledge is often wanting”. Isso é uma pena.

(Em protesto devido a frustração típica de sexta-feira, esta postagem ficará para sempre inacabada.)

Escrito por julio lemos, postado em 30 de setembro de 2011 às 16:17, arquivado em Literatura e com as tags . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

ראש השנה

Chegamos ao post de número mil, duzentos e dezoito, se contamos alguns rascunhos não publicados. Eu poderia ter escrito um Infinite Jest com essas mais de duas mil páginas, mas o que temos é só blogum istum. Contentem-se, que meu célebro é incapaz de outra coisa.

(Mentira: ele é capaz também de ler um artigo da Analytica ou do Journal of Symbolic Logic enquanto o resto do corpo toma café -perdoe-me ela, que me extraiu delicadamente este item da dieta-* e se senta confortavelmente numa cadeira, ignorando o nó da gravata e a Grande e Não-Adleriana Conversação que ocorre nas imediações.)**

Há anos ensaio adquirir para a biblioteca doméstica a edição de 1987 do imortal Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, o “Caldas Aulete”. (Já me disseram: “Julio Lemos, quando cê recomenda algo com ênfase, provoca uma sub-revolução editorial no mundo underground“). Cinco volumes de puro amor, de pura nerdice, de puro na dúvida, vai constar até isso. Como diz o provérbio latino, de sobejo e jesuítico manejar:

quod non est in Caldas Aulete, non est in mundo.

E é verdade. Aprendi a amar o Caldas Aulete na casa de minha avó, Londrina 1988 –>, e não sei em que lugar desse mundo de meu deuzio foi parar o exemplar da família. Num surto de não-procura motivado pela crise que atingiu os polímatas e a inteligência deste pays desde a publicação dos Estudos Alemães do Tobias Barreto, o preço baixou um pouco, para estacionar nos estatisticamente médios R$ 350,00, para cópias em bom estado.

O dicionário tem raízes editoriais que começam (e praticamente terminam) no século retrasado, o XIX. Chico Julio Caldas Aulete, mártir lusitano da nerdice lexicográfica, foi o responsável pela primeira edição, de 1881; as edições subseqüentes de 1925 e 1948, em Portugual; e de 1958, 1964, 1974, 1980 e 1987, no Brasil, vieram sempre acompanhadas do apelido “Caldas Aulete”, apesar de o fato de que apenas o contiúdo da letra “A” estava pronto no momento do passamento do Chico Júlio. E eu disse “…e praticamente terminam” porque a primeira edição já é daquele século amado.

Basta pensar: o vocabulário shakespeariano, que fez gerações tremerem nas base, não é nada perto do vocabulário caldas-auleteano, que ultrapassa os 220 mil verbetes. Não é, obviamente, um OED,*** mas é mais charmoso que o seu primo inglês metido pra carai.

Ia dizendo que há tempos penso em adquiri-lo. Mas não para a minha pessoa e esfera jurídica: eu o comprei para dar de presente! (Não constitui repetição do caso da bola de boliche com o nome “Homer”, transferida a título gratuito, liberalitatis causa,**** de Homer a Marge Simpson -porque a nerdição, no caso da presenteada, é maior ou igual à do dador.)*****

Há poucas coisas melhores que dar um presente. (Uma delas é ganhar presente, mas opa: é assunto alheio à minha alçada). O ato entra na categoria do “êxtase”, em sentido original: o dador sai de si por meio do objeto de valor entregue ao outro e, assim, entrega-se a este. É evidente que o arquétipo do ato de presentear aparece de modo muito imperfeito na maioria das ocorrências do verbo na ação històricamente considerada;****** todavia, mesmo sob a suspeita de platonismo, devemos reconhecer que o esforço é realizado com essa meta: entregar-se.

_____

* Tenho um novo plano de saúde e julgo-me imortal.

** Opa, un-Harvard parenthetical hommage de novo, subseqüente à concessão feita às novas regras da tipografia anglo-saxã. A musa merece, mesmo no abstrair dos cabelos alaranjados.

*** Se ocê não sabe o que é OED, foi mal, não farei o favor de explicar. (E eis aqui a prova de que notas de rodapé não ajudam nada. Mas são lindas.)

**** Está em C. 5. 3. 11 (Dioclec., Maxim.): Si tibi res proprias liberalitatis causa sponsus tuus tradidit, eo, quod ab hostibus postea interfectus est, irrita donatio fieri non potest.

*****  ”Dador” está devidamente registrado no Chico Júlio. Meu saudözo orientador de doutorado, meu eterno Doktorvater Marchi, nunca deixa vocábulo duvidoso entrar na sua prosódia ou em texto de sua autoria sem antes certificar-se se “o dá o Caldas Aulete”. (O Caldas Aulete é um dador de usos.) Lembro-me das longas tardes de discussão e tradução de fontes latinas -e às vezes até gregas, como tarefa extracurricular, porque vez ou outra os estóicos ou ecléticos romanos inventavam de inserir no Digesto vocábulos ou frases inteiras em grego (o que é ainda mais corrente, por outros motivos, nas Novelae e no Codex)-, em que o uso duvidoso de um vocábulo como “abordar”, galicismo pavoroso, era omitido com a invocação da auctoritas caldas-auletiana. (Registre-se ainda o uso brasiliense de dador de teco, ref. ao abuso de substância extraída do Erythroxylum coca, quando exemplar da espécie obtém na realidade empírica.)

****** Uma digressão wittgensteiniana nos obrigaria a esclarecer que aquilo que todas as ocorrências do ato de presentear têm em comum é a categoria das  ”semelhanças de família” (uma das traduções possíveis de family likeness para este contexto sintático), e nada mais. Minha tendência, nesse ponto, é seguir o nosso Wunderbeere (Synsepalum dulcificum) austríaco e aceitar apenas com grão de sal a concepção escolástica de “analogia”, que tende ao essencialismo, mesmo contra quem Aquinas.*******

******* Explicar a expressão contra quem Aquinas exigiria uma nota de rodapé útil.

Escrito por julio lemos, postado em 29 de setembro de 2011 às 10:19, arquivado em Handlung e com as tags , , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

Ja, logisch

Muitas instituições financeiras -ai, que homem!- inserem em seus contratos cláusulas de inadimplemento cruzado, também chamadas cross default clauses. Se há vários contratos, o inadimplemento de um deles leva ao vencimento antecipado de todas as dívidas consubstanciadas nos demais contratos. Diz o Dr. Ulrich Eder:

Cross-default means that a default on one loan automatically constitutes a default on all loans covered by this clause. As a result, debt obligations under a credit agreement and indentures could become immediately due and payable even if there is no breach of other covenants or default of payment of the loan.

Se isso não é uma boa metáfora para a sua vida, meu nome é Sebastián. (Ou para a vida do vizinho, que desistiu da metafísica de Ibn-Sina porque se lembrou de que era brasileiro e que, por essa razão, já era hora de ser engraçadinho).

Você pode fazer tudo corretamente. E quanto mais irreprochável for a sua conduta, maior a expectativa de irreprochabilidade futura* a ser causada nos outros. Pensarão que você é indefectível. Todavia, qualquer falha eventual, por pequena que venha a ser, lhe trará ruína imediata. Passe 50 anos acertando e espere pelo tombo iminente. Quando vier, você perderá a família, o emprego, a honra. Só não perderá a vergonha, porque afinal você continuará o mesmo -só para os outros é que será diferente. Outra pessoa. Um monstro.

Será doloroso.

Não é assim com o canalha. Dele não esperam nada de bom. Eventualmente um acidente feliz levará as pessoas a pensar que ele produziu um feito heróico. De um minuto para o outro, por contraste, a comoção geral, o perdão, a benevolência.

(Observação motivada por um incidente que presenciei hoje: um amigo, que aparentemente nunca tinha cometido um só equívoco, mandou um e-mail com uma sentença judicial ainda não publicada à pessoa errada, por ter digitado o endereço com muita pressa no campo correspondente no Outlook Express).

Não existe amor que não esteja na carne, Sebastián.

Se não está na superfície, não está em lugar algum. Mas se está na superfície, pode habitar o restante do espaço tridimensional logo abaixo dela. Pode chegar até a eternidade ou até o paraíso de Georg Cantor.

Um lógico diz ao outro: “Minha mulher está grávida”. “É menino ou menina?”, pergunta o outro. “Sim”, responde o primeiro.

Na versão intuicionista de Brouwer, que bolei ao descer hoje a Rebouças, a piada fica mais sutil:

Um lógico intuicionista diz a um clássico: “Minha mulher está grávida”. Pergunta então o clássico: “É menino ou menina?”. O intuicionista responde: “Não”.

(Talvez só ela, que hoje declarou a sua intenção de comprar-nos as Brouwer’s Cambridge Lectures on Intuicionism, será capaz de entender a piada. Mas a deixo aí, para a estólida apreciação dos môços.)

A homenagem oculta está num sinal de parêntese colocado depois do ponto final.

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* Redundância proposital: toda expectativa diz respeito ao futuro. Dã.

Escrito por julio lemos, postado em 27 de setembro de 2011 às 14:52, arquivado em Acaba com ele e com as tags , . Deixe um comentário ou veja a discussão em permalink.

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